Desafios da integração entre ética e sustentabilidade

No cenário da crise mundial, marcado pelo baixo crescimento das economias dos Estados Unidos e da maioria dos países desenvolvidos da Europa, com impactos sobre o mercado brasileiro, as corporações tendem a ser colocadas contra a parede para assumir compromissos com o futuro. As pressões crescerão de forma global, inclusive pela sensação de que o meio ambiente já sofre os efeitos das mudanças climáticas geradas pela atuação predatória do sistema produtivo. Nos próximos anos, promessas de respeito a regras gerais não devem ser mais apenas declarações de intenções sobre compromissos com a sociedade e com o planeta. Devem retratar a prática.

Combinar ética e sustentabilidade no cenário de expectativas negativas é, de fato, um desafio para as empresas, forçadas a prestar maior atenção ao aumento das pressões de grupos sociais. Como os que promoveram a quebra de vidraças de bancos e órgãos públicos nas manifestações de junho e julho do ano passado. Por mais que o Itaú, por exemplo, se coloque como um grupo compromissado com o futuro do planeta e o respeito aos seres humanos, os manifestantes expressaram a insatisfação com o banco, incluído na lista genérica de instituições financeiras que almejam exclusivamente o lucro.

Genericamente, as grandes corporações estão na mira da população, cada vez mais consciente de que o futuro do planeta e das crianças da atual geração está em risco. A mobilização de indignados em todos os continentes reforça a discussão sobre novos modelos de gestão, baseados em iniciativas que tenham forte componente de integração com as propostas éticas e de sustentabilidade.

Há empresas verdadeiramente empenhadas em levar adiante projetos que assegurem novas abordagens no relacionamento com a comunidade. Para as grandes empresas, principalmente para as que atuam na área industrial, os desafios são maiores. O tamanho delas, com a diversidade de áreas internas e segmentos de atuação, e a multiplicidade de interesses tornam mais complexo o processo de implantação de códigos de ética e de estratégias de produção com métodos sustentáveis. A complexidade explica porque a Natura, empresa brasileira tida como padrão em sustentabilidade, caiu da terceira posição para a 23ª na lista anual da revista Forbes sobre as empresas mais compromissadas com o planeta. A vigilância precisa ser permanente para que o foco não seja perdido.

Hoje, empresas como a Amanco, uma das maiores fabricantes de tubos e conexões do mundo, e a Anglo American, na área de mineração, recorrem a tecnologias alternativas e a programas de integração com as comunidades onde atuam, como iniciativas de foco em sustentabilidade. Outras, como a Siemens, envolvida em casos de corrupção no Brasil, instalam sistemas denominados de “compliance” – controle interno – para inibir condutas ilícitas de seus executivos. Mais empresas adotam os programas semelhantes, seja por consciência das mudanças globais, seja por conta da evolução da legislação, como a lei Anticorrupção que estende a responsabilidade por crimes às empresas e seus principais executivos.

Pequenas empresas têm maior capacidade de gerar exemplos positivos de integração entre prioridades éticas e de sustentabilidade. Como em Montes Claros, no Norte de Minas, onde a sorveteria Gosto do Cerrado obteve reconhecimento pelas iniciativas desenvolvidas. Iniciativas incluem desde o estímulo à produção sustentável de plantas típicas da região até a responsabilidade social e a adoção do conceito de “comércio justo”, que promove o pagamento em valores que garantam melhores condições de remuneração para os produtores.

A empresa estimula, com o apoio do Sebrae de Minas, pequenos produtores a criar estrutura de produção de frutas típicas da região, como araticum, umbu, capim santo e coquinho azedo. Ou o pequi, a planta mais típica da região. Frutos que, tradicionalmente, são coletadas diretamente nos campos, como atividade extrativa. E que por isso mesmo correm o risco de extinção. Ao estimular métodos de plantação e colheita, a sorveteria contribui ativamente para reverter os hábitos extrativistas. Serve como exemplo que vai sendo disseminado entre os produtores. E ao praticar o pagamento pelo valor mais justo, contribui para o fortalecimento das comunidades. São estes exemplos que farão diferença no futuro.

Carlos Antônio Plácido Teixeira

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