Junte os pais de uma turma de 10 jovens e pergunte a cada um deles: o que você deseja que seu filho seja quando crescer? Quatro responderão medicina, três direito e dois engenharia. Apenas um pai vai dizer: quero o que seja melhor para eles, os filhos. A estatística pode ser um saque, mas a intuição de convivência com outros seres humanos cria alguma certeza de que o número está bem próximo do real. E, lamentavelmente, os filhos seguem a cartilha. 

Nos processos de evolução das sociedades, há um dado curioso para explicar o atraso de mães e pais na compreensão do que vem pela frente. A humanidade é a última a chegar ao entendimento sobre as invenções e reflexões do próprio ser humano. Parece da natureza. Uma consultoria internacional da área tecnológica, Gartner, tem um gráfico elucidativo sobre o comportamento da sociedade diante da inovação. 

Diante de algo criado por alguma empresa ou setor, a 

A disrupção não é tão emocionante quanto parece. Ao contrário, entre o conceito e sua materialização no cotidiano de empresas e pessoas, décadas podem passar. Foi assim com a transição das máquinas a vapor para as movidas a eletricidade. Demorou para que empresários se convencessem da inequívoca vantagem da mudança – tiveram que aprender sobre a novidade e remodelar fábricas e processos bem estabelecidos. Com a câmera digital e a internet deu-se o mesmo.

Pesquisa e desenvolvimento começaram nos anos 1960, mas a chegada de ambas ao nosso dia a dia, contribuindo para a produtividade das empresas e induzindo novas formas de viver e comunicar, quase meio século se foi.

Apesar de lenta e gradual, a inovação sempre nos pega de calça curta. Num dia nos descabelamos de ansiedade porque a impressora se recusa a funcionar; no outro, a guardamos na prateleira mais alta do armário por falta de uso. E toda uma cadeia produtiva é obrigada a se reinventar ou recolher os cacos. Com a chamada 4ª revolução industrial não será diferente, ou melhor, será: a transformação deverá ser mais radical. Por ora ela é apenas um rostinho bonito estampado em reportagens e documentários sobre o futuro. Até que vire nossas vidas de cabeça pra baixo.

De acordo com Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial (FEM) e autor do livro “A Quarta Revolução Industrial”, esse movimento será mais intenso do que os anteriores em virtude de seu alcance, velocidade e impacto. Em vez de nascer como desdobramento evolutivo do que está aí, romperá paradigmas pela convergência de várias tecnologias que, isoladamente, já são altamente disruptivas. Big data, Inteligência Artificial, Internet das Coisas, nanotecnologia, biotecnologia e impressão em 3-D serão combinadas em inúmeras aplicações – e farão parte do dia a dia (e até do nosso corpo) tanto quanto um smartphone. Mais lazer, qualidade de vida, produtividade e sustentabilidade são promessas dessa nova era. Maior desemprego e desigualdade social, seus efeitos indesejáveis. No relatório de 2016 do FEM, o Brasil aparece como um dos países que mais será afetado pela automação – a estimativa é que 50% dos atuais postos de trabalho sumam do mapa até 2020. Diversas profissões devem desaparecer – agentes de viagem e operadores de telemarketing são algumas das mais suscetíveis. Outras surgirão, mas só irão beneficiar quem estiver preparado. E o xis da questão é justamente esse: o que estamos fazendo, enquanto indivíduos e sociedade, para prosperar em um cenário amplamente robotizado e digital? Em que habilidades investimos nesse momento para manejar tecnologias hiper complexas, que irão revolucionar nosso modo de vida? Que competências emocionais, afetivas e morais estamos desenvolvendo em nós mesmos (e nas novas gerações) para lidar com ambientes em que o artificial será cada vez mais natural? Entre ano e sai ano, governo após governo, em pleno século XXI, a sociedade brasileira parece insistir na adoção de políticas de desenvolvimento que remetem ao século XX.

Será que desistimos do futuro? A essa altura, em muitas escolas e universidades brasileiras ainda são ensinados conteúdos defasados ou até mesmo inúteis para o futuro (temo que mesmo para o presente). Às empresas caberá investir no  treinamento de seus profissionais para uma realidade povoada de máquinas (físicas e virtuais) inteligentes – o que parece uma preocupação ainda remota. Mas há uma certeza no horizonte: a menos que esteja estudando para ser médico especializado, artista ou psicólogo – profissões existentes consideradas seguras –, é hora de pensar em um plano.

*CEO da Dentsu Aegis Network e CEO Isobar Latam

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