As políticas industriais digitais devem impulsionar o desenvolvimento inclusivo, diz novo relatório do UNCTAD. Foto: Fated Snowfox/CC Flickr

Políticas industriais digitais devem garantir que a robótica promova o desenvolvimento inclusivo, em vez de ameaçá-lo. A conclusão é de novo relatório da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) divulgado nesta quinta-feira (14).

“Os robôs estão ameaçando empregos nos países desenvolvidos e em desenvolvimento mas, assim como para qualquer nova tecnologia, há tanto oportunidades como riscos”, disse o secretário-geral da UNCTAD, Mukhisa Kituyi, para o lançamento do relatório “Trade and Development Report, 2017: Beyond Austerity – Towards a Global New Deal” (Relatório de Comércio e Desenvolvimento 2017: para além da austeridade – rumo a um novo pacto global).

“A ansiedade em relação aos robôs não se deve apenas ao aumento de seu escopo, velocidade e disseminação, mas à sua chegada em um momento de baixo dinamismo macroeconômico global”, disse Richard Kozul-Wright, diretor da Divisão de Globalização e Estratégias de Desenvolvimento da UNCTAD. “Isso tem reduzido o investimento necessário à criação de novos setores, em que os trabalhadores substituídos por robôs poderiam encontrar empregos melhores”.

A grande questão é se os robôs afetarão negativamente os conhecidos benefícios da industrialização como estratégia de desenvolvimento, diz o relatório. Segundo o documento, tarefas rotineiras em empregos bem remunerados na indústria e nos serviços estão sendo substituídas por robôs; mas empregos industriais de baixos salários em setores como a indústria têxtil não foram fortemente afetados pela automação.

Ainda que a maior parte dos empregos nos países em desenvolvimento não esteja sob ameaça imediata, pode ocorrer uma tendência a concentrar ainda mais as atividades industriais nas localizações já existentes, o que aumenta as preocupações de que a distância entre vencedores e perdedores se amplie significativamente com o uso dos robôs.

O relatório da UNCTAD afirma que o uso atual de robôs está beneficiando países com capacidade industrial estabelecida. Isso poderia prejudicar ainda mais as perspectivas de crescimento daqueles países em desenvolvimento em que o setor industrial estagnou ou que já sofrem uma “desindustrialização prematura”.

Essa concentração tornaria mais difícil atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, parte de um plano acordado pela comunidade internacional em 2015, no âmbito de um novo esforço para erradicar a pobreza e promover a prosperidade, ao mesmo tempo em que se protege o meio ambiente.

Diminuindo a histeria

Apesar da comoção em torno do potencial da robotização, o uso atual de robôs industriais em todo o mundo é bastante pequeno, alcançando menos de 2 milhões de unidades, diz o relatório. Os robôs industriais estão concentrados nas indústrias automotiva, elétrica e eletrônica e em um pequeno número de países.

Quase metade dos robôs industriais operacionais está na Alemanha, no Japão e nos Estados Unidos; a China já quadruplicou seu estoque de robôs desde 2010, enquanto a Coreia do Sul tem o maior número de robôs por trabalhador em todo o mundo.

O relatório aponta que a maioria dos estudos existentes superestima os efeitos potenciais e adversos dos robôs sobre empregos e renda, porque não leva em conta que o tecnicamente viável nem sempre é economicamente rentável. Os países atualmente mais expostos à automação baseada em robôs são aqueles com um setor industrial grande e bem remunerado. A robotização tem tido um efeito pequeno na maioria dos países em desenvolvimento, onde a mecanização continua a ser a forma predominante de automação.

Desafios aos dirigentes

É fundamental garantir que o uso de robôs não piore a distribuição de renda, diz o relatório, alertando para o risco de aumento da participação da renda dos proprietários de robôs e da propriedade intelectual que incorporam. As opções para evitar que isso ocorra incluem esquemas em que os rendimentos dos funcionários dependam da lucratividade da firma, de modo que uma parte substancial de seus rendimentos venha do capital e não do trabalho.

O relatório também adverte que a “renda mínima”, atualmente defendida por alguns empreendedores de alta tecnologia, não substitui o fortalecimento dos direitos dos trabalhadores e o aumento na provisão de bem-estar social.

O possível efeito dos robôs sobre o papel da indústria no desenvolvimento depende, parcialmente, de quem possui e controla essa tecnologia, das possíveis vantagens dos pioneiros no uso dos robôs e dos setores industriais em que seu impacto é mais pronunciado. De todos esses pontos de vista, serão decisivas a definição e a implementação de políticas industriais digitais, bem como a defesa do espaço político para colocá-las em prática.

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