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As empresas devem levar fatores ambientais em seu planejamento no ambiente digital

Nicholas D. Evans *

O novo apelo para ação, à medida que as empresas passam por uma reinvenção digital, é para que elas levem os fatores ambientais em consideração durante seu planejamento e ampliem o escopo de seus avanços em sustentabilidade além das operações de TI

Toda empresa é agora um negócio digital de uma forma ou de outra. E no espírito de “tornar a TI algo bom para a sociedade” (nas palavras da British Computer Society), há uma tremenda oportunidade para que a comunidade da tecnologia faça diferença. O escopo dessa oportunidade agora vai muito além da TI verde e foca no uso da Transformação Digital para ajudar todos os setores de atividade a cumprir suas metas de sustentabilidade e reduzir suas emissões de carbono.

Enquanto os conceitos de TI Verde e TI Sustentável estavam originalmente concentrados nas operações de TI e no ciclo de vida dos produtos tecnológicos, o novo apelo para ação, à medida que as empresas passam por uma reinvenção digital, é para que elas levem os fatores ambientais em consideração durante seu planejamento e ampliem o escopo de seus avanços em sustentabilidade além das operações de TI e atinjam seus processos digitalmente transformados.

Ao fazer isso da forma correta, a Transformação Digital pode dar uma grande contribuição, ajudando organizações, cidades e nações a cumprir de uma maneira ampla suas metas de sustentabilidade – incluindo aquelas estabelecidas pela Convenção de Paris sobre mudança climática, que entraram recentemente em vigor. Trata-se de um acordo global para reduzir emissões de gases com efeito de estufa e assim limitar o aquecimento global a um patamar bem abaixo de 2° C. Estima-se que dispositivos de tecnologia de informação e comunicação (TIC), como redes e edifícios inteligentes viabilizados pela TI, tenha potencial para responder por 20% da redução das emissões globais de carbono até 2030 e por mais US$ 11 trilhões em novos benefícios econômicos.

No entanto, ao fazer isso da forma incorreta, as iniciativas de Transformação Digital podem muitas vezes atrapalhar em vez de ajudar nessa questão. Por exemplo, observei recentemente uma grande cadeia de supermercados que, ao implementar seu novo serviço de entrega usando uma app móvel, começou a embalar um item por sacola plástica. Essa prática não só supera de longe o uso das sacolas na loja – sem levar em conta a recente tendência de proibir completamente sacolas plásticas – como também parece ser um passo na direção errada. Em uma época em que o uso de sacolas plásticas está sendo apontado como um grande poluente (por exemplo, até 2050, os oceanos vão conter mais plástico do que peixes em peso), isso é claramente algo que precisa ser melhorado.

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Como o aspecto digital está em tudo que fazemos, existe agora uma oportunidade muito mais ampla para que a TI possa fazer diferença em todos os setores. O desafio para as empresas e organizações é explorar o sucesso das iniciativas de TI verde e ir em busca de melhorias semelhantes em novos modelos de negócios e processos baseados no digital.

Grande parte desse trabalho envolve a colaboração estreita com fornecedores e parceiros em toda a cadeia de valor e o desenvolvimento de uma economia circular na qual mantemos recursos em uso pelo maior tempo possível, extraímos o máximo valor deles enquanto estiverem em uso e, em seguida, recuperamos e regeneramos produtos e materiais ao final de sua vida útil.

Além dessa colaboração e de novas abordagens de economia circular, será fundamental olhar cada uma das tecnologias emergentes e facilitadoras dentro de iniciativas de transformação digital para determinar como elas podem ser aproveitadas para produzir melhorias substanciais para gerar mais sustentabilidade. Por exemplo, como aprendi recentemente com o Mastering Digital Business, um novo livro sobre transformação digital publicado pela British Computer Society, estacionamentos inteligentes têm potencial para gerar uma redução significativa nas emissões de carbono. É possível fazer isso poupando tempo dos motoristas na procura de lugares para estacionar. A tecnologia envolvida nisso inclui aplicações móveis, sensores de estacionamento de IoT e recursos analíticos poderosos. Recentes estudos de caso sobre estacionamento inteligente mostraram uma redução de 30% nas emissões de gases de efeito estuga nas cidades, uma redução de 10% no trânsito e um aumento de 2% no PIB local. Em geral, quando olhamos para mobilidade e logística, estima-se que soluções inteligentes de mobilidade podem reduzir as emissões mundiais em 3,6 gigatoneladas (Gt) de equivalente ao dióxido de carbono equivalente (CO2e) até 2030.

Tecnologias de Internet das Coisas, automação inteligente e aprendizagem automática estão desempenhando um papel fundamental nas áreas de casas, edifícios, fábricas e cidades inteligentes e têm potencial para melhorar significativamente a eficiência energética. Os recursos de aprendizagem automática DeepMind do Google, por exemplo, reduziram os custos com refrigeração dos data centers da empresa em 40%.

Além disso, mesmo as tecnologias de Blockchain estão sendo exploradas no contexto de “usinas energéticas virtuais”, permitindo que recursos energéticos, incluindo painéis solares residenciais, sejam conectados a redes inteligentes de forma altamente distribuída, eficiente e transparente. No geral, estima-se que as redes inteligentes viabilizadas pela TI possam poupar 6,3 bilhões de megawatts-hora (MWh) de energia elétrica e reduzir as emissões mundiais em 1,8 gigatonelada (Gt) de equivalente ao dióxido de carbono (CO2e) até 2030.

Considerando as fontes de energia alternativas, fábricas inteligentes como a gigafactory da Tesla são alimentadas por energia de fonte renovável com o objetivo de alcançar consumo líquido zero de energia. A Apple também está trabalhando para usar 100% de energia renovável e anunciou recentemente uma joint-venture com a Nevada Energy (NV Energy) para desenvolver uma capacidade de 200MW de energia solar fotovoltaica para alimentar seu data center em Reno, Nevada. O Google planeja ter todos os seus data centers e escritórios alimentados por 100% de energia renovável em 2017 e já usa mais de 2,6 bilhões de watts de energia eólica e solar. Também estamos vendo novos fundos de capital de risco concentrados em novas tecnologias de geração de energia zero-carbono, entre eles o Breakthrough Energy Ventures anunciado em dezembro de 2016.

A impressão 3D é outro exemplo de tecnologia emergente. Ao permitir a produção e fabricação local de mercadorias, a impressão 3D também pode ajudar a reduzir as emissões de carbono associadas a transporte e frete. Ainda que muito trabalho precise ser feito para estudar os vários impactos positivos e negativos no ambiente, alguns dos estudos preliminares têm apontado que a impressão 3D pode reduzir a intensidade do consumo de energia e das emissões de CO2 resultantes da fabricação industrial em cerca de 5% até 2025.

Além de usar tecnologias emergentes como IoT, automação inteligente, aprendizagem automática e impressão 3D para reduzir as emissões de carbono geradas por vários processos do consumidor e negócios industriais, muitas dessas tecnologias também podem desempenhar um papel importante no lado do monitoramento e da medição. No caso da blockchain, isso está sendo explorado como um instrumento alternativo de precificação do carbono, e existem vários exemplos de novas formas de moeda digital, tais como a Earth Dollar, que são associados ao estado do ambiente natural.

As palavras “descarga digital” normalmente se referem aos dados que são subprodutos de atividades online. Agora é hora de voltar nossa atenção para um tipo diferente de descarga e, em uma época de reinvenção digital, pensar em como podemos reduzir nossa “descarga” ambiental por meio de novos modelos de negócios e processos digitalmente sustentáveis.

Publicada originalmente em,
http://cio.com.br/opiniao/2017/07/22/sustentabilidade-digital-a-proxima-grande-oportunidade-da-transformacao-digital

(*) Nicholas D. Evans lidera o Programa Estratégico de Inovação da Unisys