banco do futuro dos bancos agencias sem pessoas automatizadas foto blueskydesignReforma trabalhista e tecnologias vão afetar a sobrevivência das entidades

Carlos Teixeira
Jornalista e futurólogo

Depois de 20 anos de trabalho no setor financeiro, onde começou como caixa de uma das principais instituições bancárias do país, Paulo Robertson finalmente recebeu, em 2022, um aviso de que estava dispensado definitivamente de suas atividades. Ironicamente, o software de inteligência que ele mesmo criou emitiu o aviso de que o seu trabalho não era mais necessário. Poderia ficar em casa definitivamente, onde, aliás, já vinha desempenhando suas atividades desde 2020.

Na prática, a dispensa já esperada e foi uma mera formalidade. Negociado diretamente, o contrato em vigor com o banco previa a sua atividade e a remuneração apenas quando surgia alguma necessidade de ajustes nos sistemas automatizados de RH. E, com os avanços tecnológicos, particularmente da inteligência artificial, Paulo Robertson foi incluído no grupo dos dispensáveis. Há mais tempo, a maior parte de seus colegas estava desempregada, em busca de alternativas de sobrevivência em atividades precárias.

Desde 2017, os bancos vinham acelerando as dispensas de trabalhadores, embarcando com força na reforma trabalhista implantada pelo governo. Em cinco anos, o total de 500 mil bancários caiu para pouco mais de 100 mil. Não bastassem as mudanças na legislação do trabalho a atividade sucumbia à substituição de mão de obra por máquinas e sistemas e o fechamento de agências.

Não havia a quem recorrer, nem mesmo à Justiça do Trabalho, desmantelada. Uma das entidades de representação dos trabalhadores mais fortes no passado do movimento sindical brasileiro, os sindicatos dos bancários perderam a capacidades de intervir à favor da categoria e de mobilizar os profissionais em greves para a preservação de direitos e de empregos.

A lei estava integralmente a favor dos bancos, que viabilizaram projetos anunciados em 2012, quando Bradesco e Itaú, os maiores conglomerados financeiros do país, apresentaram as propostas do que seriam as poucas agências do futuro. Sem gente, self service. Sem caixas. Relativamente, com menor número de correntistas, diante do empobrecimento generalizado da população.

Quadro geral

O cenário de 2022, descrito acima, é parte do enredo do que será o ambiente onde atuarão os sindicatos nos próximos anos. Além de bancários, algumas das principais atividades que atualmente conseguem manter as categorias mobilizadas e em defesa de seus direitos e da sociedade serão alvo, e vítimas, das mudanças do mundo do trabalho na transição do período atual até meados da próxima década. Trabalhadores de indústrias, funcionários públicos e auxiliares de administração serão alguns dos representantes de setores profundamente afetados pelas mudanças previstas para o sistema produtivo em todo o planeta.

Sem verbas de recursos da contribuição sindical, eliminada pela reforma trabalhista imposta pelo governo Temer, uma das consequências mais imediatas será a tendência de extinção dos sindicatos de fachada. Outra consequência é que os sindicatos mais representativos terão que se reinventar para continuar existindo, como já reconhecem alguns sindicalistas. A adaptação inclui novas formas de luta, que levem em conta o impacto da introdução das tecnologias.

O diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatísticas Socais e Econômicas (Dieese), Clemente Ganz Lúcio, em entrevista para o site Rede Brasil Atual, atesta que “o momento atual é de revitalização do movimento sindical para que os trabalhadores percebam qual a importância que o sindicato tem. Será um grande desafio.

Afinal, em tempos de disponibilidade de recursos, os sindicatos não conseguiram se apresentar como um escudo protetor dos trabalhadores contra a submissão, a subordinação e o poder do empregador. “A sindicalização será um grande desafio para que os trabalhadores possam afirmar que esse escudo protetor chamado ‘sindicato’ precisa ganhar nova força e novo vigor”, projeta o diretor do Dieese.

Outro aspecto que pode enfraquecer o sindicalismo é a pulverização da massa trabalhadora que pode decorrer de uma onda de terceirização, outra consequência do governo Temer. Sob a justificativa da necessidade de uma redução de custo de operação, empresas devem optar pela transferências de suas atividades fins para fornecedores externos. Com isso, trabalhadores hoje vinculados aos sindicatos em suas empresas, podem num caso de terceirização serem contratados por empresas especializadas em fornecimento de mão de obra e que, consequentemente, não tenham que lidar com sindicados de seus contratantes.

Adicionalmente, muitos dos acordos coletivos de trabalho e de benefícios não seriam obrigatoriamente repassados numa relação de trabalho entre a empresa de terceirização e seus colaboradores. A maior flexibilização de negociação entre empregadores e empregados, poderá tirar o sindicato do centro dessa barganha e ampliará o desgaste do papel das entidades sindicais.

CENÁRIO 2022

Variáveis que afetam a vida dos trabalhadores e dos sindicatos

ECONÔMICAS

  • alto (e generalizado) desemprego
  • avanços das tecnologias de automação e robotização
  • indústrias: baixo número de empregados/ empresas extremamente enxutas
  • informalidade crescente: trabalho temporário
  • terceirização indiscriminada
  • avanço da miséria e da concentração de renda
  • esvaziamento do setor público
  • novas classes de trabalhadores
  • crise econômica global

 

POLÍTICA

  • crise de legitimidade dos governos
  • crise de reprentatividade da política tradicional
  • falta de lideranças politicas

 

SOCIAIS

  • crise social
  • violência social crescente
  • degradação de qualidade de vida
  • repressão crescente
  • individualismo
  • expansão dos movimentos sociais

TECNOLÓGICAS

  • internet em tudo
  • trabalho virtual
  • virtualização
  • avanço do comércio eletrônico

CATEGORIAS MAIS AFETADAS

  • Operários de indústrias
  • Bancários
  • Auxiliares de administração
  • Servidores públicos