Programa de  inteligência artificial fortalece o papel desempenhado por psicólogos 

Debater o último filme de Leonardo DiCaprio num campo de refugiados sírios pode parecer estranho, mas as conversas com o terapeuta informático começam assim, ou de forma parecida. Karim funciona como um psicólogo ultraprodutivo (consegue atender 100 pacientes por dia), faz perguntas e reage às respostas. Mas, primeiro, quebra o gelo, geralmente com cinema e música. O objetivo é reagir às emoções dos 200 mil refugiados no Líbano que sofrem de perturbações mentais. 

O programa de Inteligência Artificial desenvolvido por Eugene Bann (investigador nas áreas de Inteligência Artificial e Psicologia) e Michiel Rauws (gestor), analisa o estado emocional do utilizador e dá conselhos – em árabe. Por exemplo, se um refugiado se queixa de estar triste, Karim pode falar-lhe de outra pessoa na mesma situação que passou a sentir-se útil quando começou a ajudar os vizinhos, explicam à SÁBADO os responsáveis pelo projeto. Em seguida, o robô pergunta ao paciente se os seus vizinhos precisam de apoio. E, de repente, um telhado estragado torna-se numa terapia. 

A ideia é “fortalecer os psicólogos que trabalham na região, não é substituí-los”, diz Michiel Rauws. Muitos sírios não têm acesso a tratamentos porque são caros e os terapeutas estão muito longe. Para chegar ao Karim não é preciso fazer nenhum download, nem sequer ligação à Internet. E, por enquanto, o acesso é gratuito – por sms. 

Por outro lado, há que ultrapassar um estigma cultural em relação às questões de saúde mental, apontou Ahmed, um professor de 33 anos que trabalha com os refugiados, aos criadores do software: “Os meus alunos têm vergonha de ir ao psicólogo.” 

Não é real, é um robô “amigo” 

A dupla visitou as regiões libanesas de Bar Elias, Joub Jannine, Jarayid e Beirute, entre 13 e 26 de Março, para testar Karim. A experiência foi feita em parceria com a organização não governamental Field Innovation Team e uma equipa de professores de universidades norte-americanas. 

As reacções femininas “foram positivas”, diz Michiel. As mulheres conseguiram desabafar, sem se sentirem envergonhadas. E os homens ficaram fascinados com “uma conversa normal sobre os seus problemas”. Para os mais jovens, a disponibilidade imediata do sistema é a grande vantagem – podem pedir ajuda a Karim em qualquer altura. 

Um problema frequente é convencer as pessoas de que estão a falar com um robô. Por enquanto, Karim faz o papel de “amigo”, mais do que de terapeuta, ao contrário do programa-mãe original, Tess. A estratégia é construir uma relação de confiança. Tess foi desenvolvido pela startupX2AI, fundada pelos dois empreendedores em 2014, e tem na sua base de dados 10 mil estados emocionais e cinco mil termos médicos categorizados. Uma versão portuguesa já está a ser desenvolvida para ser usada no Brasil. 

Airnb dos refugiados

Inscreva o seu apartamento e ajude um desalojado
Uma casa para uma família em Óbidos e um quarto para dois em Aveiro. Em Portugal, só existem duas famílias inscritas no site RefugeeHero.com, uma espécie de Airbnb para refugiados, mas gratuito. Existem casas por todo o mundo, e quem se inscreve para os apoiar é chamado de herói.

Artigo publicado originalmente na edição 624 da SÁBADO, de 14 de Abril

 

 

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