Pesquisa questiona visão sobre maturidade do senso comum - foto: Pixabay
Pesquisa questiona visão sobre maturidade do senso comum

Carlos Teixeira
Radar do Futuro

Dois eventos realizados em Belo Horizonte em um dia como qualquer outro, uma terça-feira, 21 de agosto, apontam para um fenômeno que poderia ser entendido como simples coincidência. Mas que reflete uma tendência forte. A divulgação de uma pesquisas sobre a geração de “cabeças prateadas” e um encontro promovido por um site MaturiJobs, voltado à geração de mais de 50 anos, revelaram que os idosos fazem parte de um segmento muito mais vivo e dinâmico do que supõe a percepção da própria sociedade.

Aliás, idoso não é o melhor termo para definir o grupo das pessoas com mais de 60 anos, alvo da pesquisa “Tendências do Mercado Prateado de Minais Gerais em Minas Gerais”, conduzido pela Pipe.Social e Hype60+ e encampada pela Câmara dos Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH). Os representantes do segmento preferem ser chamados de “maduros”. São pessoas com mais de 60 anos que namoram on line, continuam curtindo rock e buscam aprimoramento intelectual e profissional. Nada parecidas com os avós de gerações passadas.

Recorte regional de um levantamento que será apresentado nacionalmente em outubro, o estudo demonstra um cenário da faixa da população que, no Brasil, movimenta anualmente R$ 1,6 trilhão. Para Lívia Hollerbach, sócia da Pipe.Social e uma das coordenadoras da pesquisa, as empresas não se preparam para o potencial do “mercado prateado”. 

Projeções

Em 2031, quando alguém nascido em 2018 terá apenas 13 anos, o número de idosos deve superar o total de crianças e jovens de até 14 anos, segundo as projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E, em 2050, o País deve ser o sexto com maior número de idosos do mundo. Na realidade do Japão de hoje, isso significa que as vendas de fraldas geriátricas superam as infantis.

Mas prestadores de serviços, comerciantes, produtores de alimentos e indústrias devem começara a entender que o envelhecimento não significa decadência econômica. Há vida e poder de consumo. “Os mineiros de mais de 60 relatam preconceito em setores da economia, o que significa portas fechadas para a experiência profissional. Lojas e cidades não são preparadas para se relacionar com eles.

Segundo o estudo com os “maduros” mineiros, 35% dos entrevistados dizem que os filhos precisam mais deles do que gostariam. A tendência é de consolidação da tendência diante da perspectiva de redução da mobilidade social nos próximos anos. Essa geração também recebe a definição de “sanduíche”, pois se desdobra para cuidar dos próprios pais e filhos. Um dado complementar que não consta da pesquisa: hoje, no Brasil, 10,8 milhões de pessoas dependem da renda de um idoso para viver, segundo um estudo da LCA Consultores divulgado em julho.

Na realidade, os integrantes do grupo negam os estereótipos sintetizados pelas placas que identificam idosos como portadores de bengalas ou cadeiras de rodas. Para 69% dos mineiros, a saúde mental e física vai bem. A preocupação com os cuidados com o corpo é real. São pessoas integradas com a cidade e com o mundo e que não têm medo de conviver com recursos tecnológicos.  

Adaptação

“A CDL/BH quer conhecer melhor essa parcela da população, saber o que pensa, como age, o que quer, bem como os seus hábitos de consumo”, diz o presidente da entidade, Bruno Falci. Empresário, é um típico representante da geração. Em plena atividade, com 62 anos, topa correr alguns quilômetros em torno da Lagoa da Pampulha. 

Com base no estudo, a Câmara de Dirigentes Lojistas pretende qualificar melhor a rede de associados, comerciantes e prestadores de serviços. “Esse público não pode ser encarado meramente como consumidores. Vamos nos empenhar e atuar para que Belo Horizonte seja a capital modelo para a geração prateada”, anunciou Bruno Falci. 

A integração de ações com o governo do Estado e com a prefeitura, além de outras entidades de classe e representantes da sociedade civil deve constar das ações imaginadas. O objetivo será o de imaginar ações voltadas especificamente para a parcela da população madura, o que inclui planos de mobilidade urbana, acessibilidade, programas de saúde e prevenção de doenças, de cultura e de lazer e atendimento qualificado.

Iniciativas

Sem o mesmo destaque do movimento que envolve as empresas de base tecnológica, as startups, alvo de atenções da mídia e de investidores, outros eventos, também em Belo Horizonte, atraíram a atenção de algumas dezenas de maduros. Centradas na MaturiJobs, uma plataforma voltada a demandas por trabalho da população com mais de 50 anos, as atividades atendem ao número crescente de pessoas que não consideram a perspectiva de parar de trabalhar.

“Com a forte crise que bateu no país, observei muitas pessoas vivendo um drama parecido com o da minha avó, mas eram pessoas mais jovens. Profissionais qualificados e que estavam fora do mercado de trabalho, sofrendo com a exclusão, muitos deprimidos.” Para fazer uma ponte entre essas pessoas mais experientes e as empresas nasceu a Maturijobs.

A startup busca a inclusão e a diversidade geracional dentro das corporações. Um desafio diário de romper as barreiras do preconceito. “Nós desenvolvemos um trabalho de capacitação dos dois lados. Para os profissionais apresentamos novas formas de trabalho porque o número de vagas ainda é restrito e para as empresas mostramos as vantagens de ter pessoas mais maduras nos quadros.” Com a longevidade da população, essas contratações se tornam uma tendência para os próximos anos.