A tecnologia tende a substituir ou a auxiliar os advogados em suas tarefas?

Paulo Silvestre de Oliveira Junior

A Inteligência Artificial causa desconfiança entre a maioria dos advogados que, com medo de perderem seus postos de trabalho, se perguntam com frequência, sobre quais são os impactos positivos e, principalmente, negativos do uso desta tecnologia dentro do direito.

Afinal, a tecnologia tende a substituir o advogado ou vai auxiliá-lo em suas inúmeras tarefas?

A tecnologia agiliza os trâmites do direito e extingue a necessidade de boa parte do uso do papel que, vale ressaltar, é um dos principais motivos de toda essa mudança.

Assim como em outros segmentos, a opção pela diminuição do uso do papel no dia a dia de trabalho trouxe consigo uma gigantesca reestruturação que, inevitavelmente, induziu direto para a Era Digital.

Os novos tempos modernos são, neste contexto, muito mais ágeis e eficientes devido ao uso da inteligência artificial. Além de dar velocidade ao processo e diminuir o gasto de papel, colaborando assim com a natureza, a automatização do direito também prevê a nutrição de informações e dados, capacidade essa que antes era desconhecida na aplicação em massa.

E o que tudo isso significa? Mesmo que parte do trabalho humano possa ser automatizado, a partir do uso de novas tecnologias, é improvável que um robô venha a substituir o trabalho de um advogado, ainda mais quando se enumeram todos seus afazeres e atividades do início ao fim de um processo.

Portanto, o uso da tecnologia tem como objetivo gerar conforto, otimizando processos, ou parte deles, sem desvalorizar ou colocar de lado o profissional do direito que, a partir dessas modernizações, pode trabalhar muito mais focado, aprimorando seus resultados.

Longe de perderem seus postos de trabalho para os robôs, os advogados precisam se adequar, e até mesmo se reeducar, para utilizar esse novo modelo de trabalho de modo a profissionalizar ainda mais sua rotina. Afinal, se a tecnologia pode suprir necessidades operacionais, por que se desdobrar em vários para dar conta de tudo sozinho?

Sabe-se que hoje, cerca de 15% dos processos estão tramitando pelos meios digitais e esse número, que já é bastante expressivo, tende a crescer e a ultrapassar a média de 40% no decorrer dos próximos 2 anos.
O futuro da advocacia caminha em total concordância com o desenvolvimento tecnológico e é dever do advogado estar sempre bem preparado para não perder espaço, tão pouca qualidade, no mercado do direito.

A necessidade da criação de talentos para utilizar a inteligência artificial na área é gigantesca.

Especialistas trabalham ininterruptamente no desenvolvimento de softwares que são amplamente voltados à execução de processos operacionais deste campo. A mudança cultural está em ALERTA MÁXIMO e já tem ocorrido.

Como há séculos atrás, quando a máquina a vapor causou a Primeira Revolução Industrial, a expansão do uso da tecnologia atualmente tem gerado um novo tipo de conhecimento e de modelo de trabalho. Quem se adapta a ele, coloca-se instantaneamente em um posicionamento superior, com menos trabalhos processuais e com maior foco no cognitivo.

A tecnologia, neste cenário, não tem outro objetivo a não ser o de modernizar as etapas de um processo e a inteligência artificial é justamente o movimento, o meio, que dispõe de inúmeros recursos e funcionalidades novas para otimizar todo este trabalho.

O computador chegou ao escritório de advocacia

Em 28 de março de 1984, foi veiculado pela Gazeta Mercantil a chegada do computador até as advocacias, que gerou surpresa e até mesmo encanto, afinal esta foi uma grande mudança para o setor e para a época.

Há mais de 30 anos a tecnologia vem sendo aperfeiçoada e com isso muitos processos foram sendo alterados e modernizados.

Hoje, uma das possibilidades da inteligência artificial aplicada a esta matéria é o cruzamento de nomes, de informações e até mesmo de monitoramentos que ajudam na conclusão de diferentes processos. A tecnologia jurídica é, portanto, uma oportunidade e não um desafio a ser vencido pelos advogados.

O trabalho que o robô tende a realizar não vai tirar o ganha pão do profissional, a bem da verdade vai ajudar o advogado a vencer suas causas de modo mais simples e com um menor esforço.
É o caso de um jovem rapaz de apenas 19 anos que criou um sistema utomatizado para processamento de multas de cidades como Nova Iorque e Londres.

O DoNotPay, ou numa tradução livre, “Não pague a sua multa”, atendeu cerca de 160 mil processos em pouquíssimo tempo por meio de um robô que analisava e determinava quais os melhores recursos para que o processo fosse ganho.

Cobrando um valor baixíssimo, cerca de apenas US$ 10 dólares por processo, mas conquistando uma gigantesca massa de atendimento, esse jovem fez sua poupança rapidamente!

Como se vê, a tecnologia otimiza o trabalho e nem sempre rouba o espaço do trabalhador.

Outro bom exemplo da tecnologia aplicada a processos do cotidiano foi o software utilizado recentemente pelo TSE nas campanhas eleitorais.

A partir de uma combinação bastante simples, os robôs cruzaram os números do CPF dos doadores com os números do CPF de pessoas que já haviam falecido. O resultado encontrado pela tecnologia determinou as inúmeras fraudes nas doações feitas a candidatos e partidos.

Inteligência Artificial: Uma oportunidade para o advogado

Com tudo o que foi falado até agora, fica claro que a tecnologia não coloca o trabalho do advogado em risco. Ela corresponde a uma incrível oportunidade para que este possa trabalhar com cunho mais intelectual e menos processual.

As tarefas repetitivas serão passadas para máquinas e os advogados, desta forma, poderão focar realmente na sua função deixando as atividades operacionais de lado, bem como outras atividades que não valorizam o andamento do processo.

Com poucas empresas trabalhando com a automação no Brasil, investir na profissionalização do setor é evidentemente uma oportunidade de sair na frente para atingir bons resultados.

Hoje, os clientes já se sentem mais seguros em contratar escritórios de advocacia que estejam assistidos por tais tecnologias. Uma vez que sabem da eficiência e do quanto eles otimizam e agilizam cada processo, investir na tecnologia é também uma forma de aumentar o número de clientes e casos a defender.

Considerando que a interação entre os conflitos cotidianos e tecnológicos tende a manter este ritmo de crescimento, ou até mesmo aumentar, usar a Inteligência Artificial como solução é a oportunidade que ainda está em aberto.

A tecnologia de ponta engaja profissionais e clientes, impulsiona o crescimento e orienta diversas decisões com base em uma leitura completa dos dados estruturados e não estruturados que são adicionados ao sistema.

Utilizar essa tecnologia com intuito de fornecer melhores informações e embasamentos para as diferentes fases processuais de uma ação, por exemplo, ajudará a tirar o atraso dos milhares de processos que estão parados, aguardando na fila da justiça.

Dar liberdade para a tecnologia não significa, portanto, assumir uma postura de dúvida, mas sim de certeza. Afinal, o sistema dificilmente será capaz de julgar sozinho todo um processo, porém poderá intervir em muitas etapas.

*Paulo Silvestre de Oliveira Junior é coordenador de TI no escritório Machado Associados Advogados e Consultores.

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*Paulo Silvestre de Oliveira Junior é coordenador de TI no escritório Machado Associados Advogados e Consultores.