O momento é de comprovação de que olhando para o horizonte com um binóculo você enxerga longe. Mas não vê todo o horizonte.
O momento é de comprovação de que olhando para o horizonte com binóculo você enxerga longe. Mas não vê todo o horizonte

Carlos Teixeira
Radar do Futuro

O uso inadequado de binóculos levou empresas da construção civil a não ver, há alguns meses, que havia algo errado no cenário do setor. Agora, os empresários não percebem perspectivas de melhora no futuro de curto prazo, como atesta o empresário Milton Bigucci, dono da construtora MBigucci, em entrevista para o site do “Estado de S. Paulo“. Para o executivo, “o país realmente está em um mato sem cachorro. Temos uma insegurança muito grande, que impede a geração de empregos e dificulta a tomada de decisões do consumidor”.

Outros setores constatam que a mudança da direção da onda não ocorreu. No comércio, a situação não é muito diferente. Empresários dizem que nunca viram crise igual. Enquanto o consumidor constata que o dinheiro está faltando no bolso. E os dados são confirmados pela Confederação Nacional da Indústria nas pesquisas recentes sobre expectativas de empresários e consumidores.

O momento é de comprovação de que olhando para o horizonte com um binóculo você enxerga longe. Mas não vê todo o horizonte. A visão através das lentes é sempre fracionada. Por partes. Não compreender as limitações do binóculo como ferramenta de monitoramento e de identificação de sinais de futuro é uma das razões que levam muita gente, especialmente empresários brasileiros e profissionais, a sentir, hoje, desorientação diante dos acontecimentos do presente.

O fato é que, às vezes, miramos longe, mas não percebemos necessariamente o que importa.

Entender a complexidade

Quer entender o que vem pela frente e como ganhar dinheiro? Perceba a complexidade do mundo. Empresários e profissionais sofrem por conta do uso equivocado de binóculos como ferramenta para enxergar o futuro e tomar decisões. A dimensão da crise podia até não ser assim tão previsível. Tudo bem, você dirá que o mercado esperava a recuperação da economia em 2018. Mas, sentimos dizer, eles estavam errados porque estavam focando sinais de forma excessivamente simplificada.

A ausência de foco adequado vem levando à surpresa e à insegurança quanto ao futuro. Primeiro, porque há uma tendência de sempre usar o mesmo binóculo, com o mesmo foco. Quer entender melhor? Então, faça uma lista de quais são os meios de comunicação que você consulta diariamente. E quais as fontes de informações utilizadas por tais veículos como referências para a análise de acontecimentos. Você poderá começar a entender a limitação da sua estratégia de enxergar o futuro.

Além das deficiências das lentes de aproximação, é necessário considerar outro aspecto essencial. Em um jogo de futebol, por exemplo, suas lentes não possibilitam enxergar a complexidade do movimento dos jogadores. O equipamento auxiliar da visão foca em um acontecimento aqui, outro ali, mas não contribui para a percepção do todo. Empresários estão sendo surpreendidos por não entender que o mundo é bem mais complexo do que eles gostariam. Sem entender isso, continuarão sendo atropelados.

Diversidade de variáveis

Grande parte dos analistas do cenário econômico, social e político desconsidera o momento de transição global. A quarta revolução industrial não é apenas uma expressão de efeito, uma retórica para vender produtos tecnológicos. Por trás dos alertas e discursos há, de fato, transformações acontecendo de forma acelerada. A revolução não é apenas tecnológica e nem exclusivamente industrial ou econômica. Há um processo de adaptação da sociedade a novos modelos de negócios, de produção e de vida.

Os comerciantes que reclamam da ausência de consumidores nas lojas precisam entender, por exemplo, que a emergência do comércio eletrônico é uma força real, assim como a perspectiva de aumento da concentração de renda e da desigualdade social, como alerta, inclusive, o Fórum Econômico Mundial, a entidade que representa as principais lideranças empresariais e políticas do mundo. Mudanças de gerações no trabalho introduzem novas expectativas e hábitos, inclusive sobre prioridades de consumo.

Cada vez mais é necessário entender que os economistas e as análises de conjuntura tradicionais não são suficientes para explicar os acontecimentos presentes e para identificar perspectivas futuras da competição dos mercados. As lentes utilizadas pela maioria deles tendem a ter lentes fixas em paradigmas e variáveis limitadas. O modelo de análise de tendências precisa levar em conta a diversidade e a visão de futuro.

Espírito de benchmarking

Na prática, empresas, profissionais e pessoas devem ultrapassar as limitações de um certo “espírito de benchmarking”, o processo contínuo de comparação dos produtos, serviços e práticas empresarias entre os mais fortes concorrentes ou empresas reconhecidas como líderes. Benchmarking surgiu como uma necessidade de informações e desejo de aprender depressa, como corrigir um problema empresarial. Em síntese, um comportamento que estimula a comparação com o que já existe ao invés de estimular a criatividade na geração de novos produtos ou em processos de escolhas e tomada de decisão. É o que se percebe, por exemplo, na maioria dos casos em que um caso de sucesso, como a criação do Uber gera produtos semelhantes, apenas com adaptações.

O que fez o Uber ser Uber, assim como outros negócios pioneiros, foi o fato de saber olhar para uma nova tecnologia ou comportamento e identificar as oportunidades de criação de novos produtos e serviços. “Como usar”, “como fazer” e “como identificar novos usos” para as tecnologias ou para comportamentos sociais e individuais são algumas das perguntas essenciais para entender o que realmente anda acontecendo no mundo.