Como imaginamos o futuro: antropólogas analisam a influência da mídia

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Artigo “Futuro pós-pandêmico – Como a mídia tradicional forja um novo indivíduo” antecipa análise da influência sobre a forma como imaginamos o futuro

Antropóloga Rosana Pinheiro-Machado iniciou há seis meses um projeto de estudo sobre discursos do mundo pós-covid

Carlos Plácido Teixeira
Jornalista I Radar do Futuro

Publicado no site da revista Piauí, o artigo “Futuro pós-pandêmico – Como a mídia tradicional forja um novo indivíduo”, das antropólogas Cristina Marins e Rosana Pinheiro-Machado, foca em um evento imaginado em 2025 para pontuar a análise sobre como a produção dos meios de comunicação contribui para a constituição de novos paradigmas das mudanças da sociedade. “Tudo que é imaginado e descrito na mídia sobre o futuro do mundo resulta, em grande medida, numa forma de intervenção – nada desinteressada – sobre a própria realidade”, dizem as autoras.

Pelo Twitter pessoal, Rosana Pinheiro-Machado comunicou que a dupla de pesquisadoras havia iniciado há seis meses um projeto de estudo sobre discursos do mundo pós-covid. A coleta de 7,1 mil matérias da mídia internacional sobre o tema deu origem a um ensaio no site da revista Piauí. “Coletamos o que estava sendo dito e disputado nos países ricos e emergentes sobre o as perspectivas do mundo. Essa é uma pesquisa sobre imaginação do futuro, mas também sobre intervenção. Saber é poder, já sabemos. Os resultados preliminares mais gerais são surpreendes e estaremos trabalhando com esses dados nos próximos 15 meses”, anunciou a antropóloga.

Ao analisar os primeiros cem dias da pandemia, recorrendo aos mais de mil textos publicados nos principais jornais de países ricos e emergentes, da Alemanha à Africa do Sul e Brasil, as antropólogas constatam, primeiro, que o mundo pós-pandêmico, tal como desenhado por jornais e tevês é um mundo exclusivista. Uma sociedade destinada aos detentores do poder econômico e social, em síntese. Uma segunda conclusão é que, por meio do consumo de tecnologias digitais e da adoção do princípio de isolamento social, o individualismo e a (auto)vigilância tendem a se intensificar.

Rompimento necessário

No artigo publicado, Rosana Pinheiro-Machado assinala que “é preciso falar de modos de vida que se apresentam como alternativa à lógica do consumo exclusivista, da privatização da vida cotidiana e da vigilância tecnológica. Sem desconsiderar as inovações do século XXI, precisamos imaginar um mundo socialmente mais justo. Se discursos não apenas retratam fragmentos da realidade, mas também projetam um mundo, é urgente que outras narrativas sejam criadas”. De fato, os exemplos apresentados no artigo retratam a criação simbólica do “novo normal”, um conjunto de reportagens onde inexistem os conflitos e jogos de interesse, com ganhadores e perdedores. “O novo consumidor projetado pela mídia pertence aos estratos superiores da sociedade”, diz Rosana.

A imprensa tradicional é a expressão do discurso do poder econômico também na produção do senso comum do futuro. Faltam espaços para os críticos e formuladores de abordagens alternativas para area denominada de “estudos do futuro”. Extensão de áreas tradicionais de gestão de negócios e pessoas, o campo de produção de conhecimento é integrado por futuristas, futurólogos, especialistas em foresight, analistas de tendências, coolhunters e profissionais com carreiras de nomes assemelhados. Uma avaliação geral do perfil de formação de origem dos especialistas de maior projeção revela que são, entre eles, raros ou inexistentes os cientistas sociais ou políticos, psicólogos sociais e antropólogos, claro.

Há publicitários ou jornalistas entre os profissionais que vivem da antecipação das tendências. Eles adotam os conceitos tradicionais da “ciência” para reiterar que existem métodos para a atividade. Por definição, “o trabalho do futurista não é prever o futuro. É estudar dados, analisar tendências, explorar cenários possíveis e fazer as perguntas certas para nos direcionar a melhores oportunidades de criar um futuro desejável”. A ideia de “construção de um futuro”, individualista e meritocrático está sempre presente. Assim, como a crença de que, com ferramentas adequadas, é possível fazer a tradução dos sinais do presente, o que possibilita bolar estratégias para construção de “futuros positivos”. O discurso predominante dos textos tornados públicos identifica, então, o cenário dos próximos anos como uma fonte de oportunidades para negócios e carreiras.

Perfil conservador

Um panorama geral sobre o perfil dos futuristas mais admirados do planeta mostra o predomínio de homens de negócios com formação em ciências exatas. São consultores que, na realidade desempenham o papel de evangelizadores, uma atividade que ganhou grande projeção a partir do salto de influências da informática na década de 1990. São os membros da comunidade da tecnologia da informação, muitos deles com os pés no Vale do Silício. Alguns dos mais admirados são como Ray Kurzweil, inventor e futurista dos Estados Unidos, autor de livros sobre saúde, inteligência artificial, transumanismo, singularidade tecnológica e futurologia.

Matérias publicadas pela imprensa global são a vitrine do deslumbramento acrítico, resultantes de entrevistas e palestras públicas em que são compartilhadas a visão otimista sobre tecnologias como extensão da vida. O futurista, que é diretor de engenharia da empresa Google, diz que os humanos estão a apenas alguns avanços científicos de alcançar a vida eterna. Assim, genericamente, como se os sete bilhões de moradores do planeta Terra tivessem a garantia de benefícios da evolução da biotecnologia, nanotecnologia e da inteligência artificial.

Kurzweil é um defensor público dos movimentos futuristas e transumanistas e dá palestras públicas para compartilhar sua visão otimista sobre tecnologias de extensão de vida e o futuro da nanotecnologia , robótica e biotecnologia. Em fevereiro de 2009, Kurzweil, em colaboração com o Google e o NASA Ames Research Center, anunciou a criação do centro de treinamento da Singularity University para executivos corporativos e funcionários do governo. 

A missão autodescrita da Universidade é “reunir, educar e inspirar um quadro de líderes que se esforçam para compreender e facilitar o desenvolvimento de tecnologias que avançam exponencialmente e aplicar, enfocar e guiar essas ferramentas para enfrentar os grandes desafios da humanidade”. Usando  o conceito de Singularidade de Vernor Vinge como base, a universidade ofereceu seu primeiro programa de graduação de nove semanas para 40 alunos em 2009. Hoje, com uma University Brazil, é mais um ícone entre os interessados em estudar sobre futurismo ou pessoas que pretendem entender as tendências.

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