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Mulher realiza estudo diante de tecnologia de laboratório médico
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A IBM está negociando a venda do sistema de inteligência artificial Watson. Os poderes mágicos do marketing não se confirmaram no cenário da pandemia

Desde os primeiros registros da pandemia, no início de 2020, eu fiquei esperando o dia em que a IBM convocaria uma grande entrevista coletiva. Com presença até mesmo do presidente dos Estados Unidos e líderes políticos e econômicos de outros países europeus. Imaginava um momento mágico. À frente de telas brilhantes, em altíssima definição, com a logomarca da empresa em destaque, os principais executivos da multinacional estadunidense, orgulhosos e sorridentes, apresentariam a notícia mais importante do ano. Seria revelado, finalmente, o fim de todos os nossos problemas. A vacina 100% eficiente para eliminar a covid-19 e imunizar toda a população do mundo tinha sido gerada pelos sistemas cognitivos, superiores às limitações dos seres humanos.

“Bem vindos todos à Era Cognitiva”, diriam os líderes da empresa, repetindo o título dado a um vídeo de apresentação do sistema, disponível no Youtube desde 2016. Graças à inteligência artificial do Watson, a humanidade poderia respirar tranquilamente. O cruzamento de milhões de dados e informações em frações de segundo ofereceu as respostas procuradas pelos cientistas e pelos gestores responsáveis de todo o planeta. Todos os estudos acessados e analisados foram vistos e revisados pela comunidade de estudiosos e desenvolvedores. Os pesquisadores de todos os laboratórios globais tiveram acesso a todo o conhecimento gerado pela tecnologia.

Esperando o herói

Na minha credibilidade extremada, de quem é capaz de acreditar em boas intenções de qualquer empresa, a tecnologia iria mostrar o serviço prometido. E eu esperava, de verdade, que a IBM, a “big blue”, seria como um daqueles heróis dos filmes de Hollywood, nos Estados Unidos, prontos para salvar o mundo de todos os males. As notícias confirmariam todas as notícias e publicidades que pareciam fazer da inteligência artificial algo mágico.

Afinal, vários dos anúncios e filmes disponíveis nas mídias sociais ressaltavam a força da tecnologia na pesquisa de informações médicas e na capacidade de realizar diagnósticos mais precisos do que qualquer médico. A impressão difundida era de que a tecnologia já levaria à aposentadoria precoce dos profissionais tradicionais da saúde. Para que se tenha uma ideia da capacidade de mobilização da “big blue” norte-americana, em outro filme no Youtube, o médico Dráuzio Varella aparece em uma entrevista, maravilhado com as possibilidades de realização da inteligência artificial do Watson.

Mas que nada, nem herói, nem cavalaria chegaram. E a “Era Cognitiva” foi adiada, pelo menos do lado da da IBM. O Watson frustrou nossas expectativas, como também está sendo posto à venda. Na imprensa, notícias confirmam que a empresa decidiu vender a divisão Watson Marketing para o fundo de investimento Centerbridge Partners, que vai lançar até o final do ano uma companhia independente para vender o portfólio de soluções para marketing da Big Blue.

O curioso é que o anúncio da IBM sobre o negócio envolvendo a sua inteligência artificial não menciona nenhuma vez a palavra Watson, em um esforço deliberado para proteger a plataforma de inteligência artificial que é vista como a galinha dos ovos de ouro da empresa. A big blue não quer atrair atenção negativa para o produto, ou dar a impressão que ela está dando para trás no que parecia ser a estratégia de levar IA para todo tipo de aplicações – ou pelo menos, por colocar o buzzword “Watson” em todas suas ofertas.

Apostas de futuro

Importante ressaltar que a plataforma de serviços cognitivos é – ou era – uma das principais apostas da empresa para o futuro. No cenário de quase três milhões de mortes, 135 milhões de casos e 2% da população global vacinada, ou seja 165,5 milhões, de uma população global de 7 bilhões de pessoas, não teremos o “dr. Watson” como grande salvador da humanidade. A inteligência artificial, de uma forma geral, não teve o protagonismo esperado.

Há boas razões para ter expectativas de soluções por parte das empresas de tecnologia. Em 2011, a IBM entrou no setor de saúde com a promessa de transformar a medicina com seu sistema de inteligência artificial, Watson. Para alcançar o objetivo foram firmadas alianças com grandes hospitais e laboratórios, além de empresas da comunidade de saúde. Rapidamente, a imprensa embarcou no show do marketing mágico, mostrando um enorme potencial da tecnologia.

Um dos primeiros trunfos divulgados foi a vitória do Watson no Jeopardy, um programa de televisão de sucesso, exibido nos Estados Unidos, onde competidores respondem a perguntas. Foi um feito e tanto, mostrando a possibilidade da inteligência artificial superar as habilidades tipicamente humanas de compreensão de linguagem complexa. Em 2016, anúncios publicados no YouTube mostravam a confiança da empresa na perspectiva da revolução cognitiva. A empresa salientava a capacidade de monitoramento das informações e o poder de antecipar acontecimentos prováveis. A tecnologia seria capaz de projetar tendências antes que elas acontecessem.

Excesso de marketing

Recentemente, antes mesmo da pandemia já existia suspeita de que teria havido muito marketing e poucos resultados envolvendo o Watson. Para profissionais da comunidade de saúde a história da inteligência artificial da IBM pode ter sido uma advertência para as empresas que colocam a preocupação comercial acima das reais possibilidades das tecnologias.

Em artigo publicado no site Tilt, canal de tecnologia do portal UOL, os cientistas Daniel Schultiz, Monica Matsumoto e Shridhar Jayanthi dizem que uma das razões “por que a inteligência artificial da IBM fracassou na área de saúde” foi que os seus técnicos passaram condutas de tratamento de um hospital para outro. “Por exemplo”, citam, “o sistema automático trouxe recomendações de tratamentos avançados que não estavam disponíveis em centro de câncer menores”. Com base de dados de um hospital, recomendações do sistema foram replicados para pacientes de outras instituições.

Em texto entitulado “Por que o IBM Watson Health nunca poderia cumprir as promessas“, publicado no site MedCityNews, o médico John Frownfelter conclui que a “morte do IBM Watson foi o resultado inevitável de colocar a carroça na frente dos bois. Eles pediram as equipes de atendimento que confiassem em sua tecnologia sem fazer o trabalho necessário para construir essa confiança.” Acabaram enfrentando dificuldades, inclusive resistências dos profissionais da saúde. Especialista em tecnologia médica, o autor do artigo diz que houve excesso de confiança da empresa. Aliás, é uma característica das empresas de TI um excesso de confiança em sua capacidade de criar soluções mágicas para tudo. E a tentativa de aplicar novidades de forma horizontal.

Mas o insucesso provisório do Watson não significa que a inteligência artificial não terá resultados positivos no futuro. Há evidências que comprovam a capacidade da inteligência artificial clínica em melhorar os resultados dos pacientes. Para John Frownfelter, existe uma frase chave, que é “quando implementada corretamente”. Ou seja, cumpridos os melhores procedimentos, os sistemas cognitivos podem capacitar médicos a tomar decisões com melhores informações para a realização de diagnósticos e encaminhar intervenções.

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