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Uma nova pandemia está prevista para o futuro. O trauma gerado pelo coronavírus vai deixar um legado de crises de saúde mental
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Uma nova pandemia está prevista para o futuro. O trauma gerado pelo coronavírus vai deixar um legado de crises de saúde mental

Carlos Plácido Teixeira
Jornalista – Radar do Futuro

“Voltando para casa, Túnel do Anhangabaú vazio, meu carro, eu
Tive uma crise de choro, não consigo me controlar
Parei o carro”

“Não sei vocês. Mas aqui estou me enrolando contra a depressão. Tentando evitar que ela se instale.
Mas é uma luta diária contra a tristeza e a frustração. Esse lance das mortes diárias é brutal. Vamos resistir!”

“A fila triplicou, não temos mais nada para doar, para matar a fome dessas pessoas”

“Tá sendo difícil suportar quando me transfiro para a morte de 311 mil pessoas evitáveis. Meu Deus, crianças sem pais, pais sem filhos, irmãos sem irmãos, pessoas novas, crianças que acordaram sem chão, sem perspectiva de futuro com uma mudança abrupta. Estou sem rumo, tanta dor.”

Depoimentos colhidos no Twitter


Depoimentos publicados no Twitter confirmam estatísticas e alertas de especialistas e instituições sobre o agravamento da saúde mental da população. Os testemunhos sobre problemas relacionados com depressão, ansiedade, angústia, estresse e desalento crescem de forma exponencial no atual cenário de pandemia. Os telefones de psicólogos e psiquiatras tocam com maior frequência, assim como as mensagens pelo WhatsApp.

A convivência com o aumento da miséria, a quantidade de moradores de rua, a divulgação do número de mortos contabilizados diariamente, a lentidão dos programas de vacinação, o confronto com negacionistas e o sentimento de que falta um governo comprometido com a saúde da população deixam um rastro de crises. Além da crise econômica e do desalento em relação ao futuro. A mente não dá conta de tanto estresse.

Uma consulta da Associação Brasileira de Psiquiatria Pesquisa demonstrou que, nos primeiros meses de pandemia, 67% dos profissionais confirmaram a realização de atendimentos a novos pacientes. Os profissionais também destacaram que 89,2% dos pacientes apresentaram o agravamento de quadros psiquiátricos, como consequência da pandemia. Outro estudo, da Universidade Federal de Santa Maria, apontou um aumento de 40% na intensidade dos sintomas de depressão entre um grupo de 6,5 mil pessoas consultadas on line. O fato de serem pesquisas pela internet pode sinalizar que os dados são subestimados.

Na mesma linha de análise, um levantamento, realizado pelos gestores da Zenklub, plataforma de saúde emocional e desenvolvimento pessoal, realizado na base de mais 120 mil clientes cadastrados no serviço, revela o aumento expressivo de clientes que relatam sintomas em sessões realizadas por brasileiros no último ano. Questões como ansiedade, conflitos familiares e depressão tiveram aumentos expressivo em comparação ao último ano, com aumento de 304%, 257% e 172%, respectivamente.

Levantamentos recentes, realizados pela Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, apontam recordes de concessão de auxílio-doença no ano passado e aposentadorias por invalidez devido a transtornos mentais e comportamentais. Nos dois benefícios, os registros do primeiro ano da pandemia são os maiores da série histórica, iniciada em 2006. De uma forma geral, as instituições responsáveis pelo monitoramento de indicadores de saúde alertam, também, para o aumento do uso de drogas e álcool, o que pode gerar um ciclo em direção às doenças mentais.

Esse é o retrato do momento. O da pandemia em plena força, com milhares de novos casos e mortes diários. Mas os sintomas de esgotamento da mente não vão ser encerrados magicamente tão logo a ciência consiga se impor sobre o poder dos vírus. Se é que esse momento vai chegar. Depois de tudo o que a população passou, ainda haverá mais. As sociedades vão herdar um mal-estar e a descoberta da herança de uma crise civilizatória.

Indicadores de saúde mental em crise

Rui Brandão, CEO e cofundador do Zenklub, avalia que os dados apresentados no relatório confirmam o que todos os brasileiros sentiram na pele desde o primeiro semestre de 2020: o isolamento social devido à pandemia trouxe à tona muitos desafios emocionais. “A pandemia fez com que sentíssemos mais ansiedade, angústia, vivêssemos mais conflitos familiares e conhecêssemos o luto como nunca antes a nossa geração conheceu”, pontua.

O número de pessoas que buscaram o serviço de terapia e autodesenvolvimento também cresceu. Em 2020, a plataforma do Zenklub teve um aumento de 515% em número de clientes e a quantidade de sessões saltou 692%, chegando a 50 mil por mês. Para Brandão, apesar dos grandes desafios, é possível olhar com esperança para os dias que estão por vir.

“O ano de 2020 também fez com que muitos de nós encontrássemos na terapia uma aliada para lidar com essas questões. Ela nos ajudou a cultivar o autoconhecimento, valorizar ainda mais as nossas amizades e nos apresentou ferramentas para desenvolver inteligência emocional, que é tão imprescindível em nossas vidas. Quando cultivamos a saúde mental no dia a dia, em vez de só cuidar dela quando temos um problema, temos menos chance de adoecer e nos tornamos mais resilientes para lidar com as questões que surgem”, destaca.

Na análise regional de problemas, a tendência de crescimento de queixas sobre sofrimento psíquico se confirma. O estudo mostrou um aumento no número de sessões em todos os estados brasileiros, chegando a um crescimento de 1043% em São Paulo, 758% no Rio de Janeiro, e 606% em Minas Gerais, por exemplo. O levantamento ainda revelou a tendência de menção a alguns assuntos que, apesar de não serem os mais citados nas sessões, tiveram uma elevação expressiva no período, como é o caso de temas como organização, com crescimento de 3731%, foco, com 4457% e filhos com 4790%.

Indicadores de demanda

Os efeitos da pandemia levam ao reposicionamento de empresas direta ou indiretamente envolvidos com prestação de serviços de saúde mental. “Em 2021, seguiremos investindo em modelos diferenciados de gestão de saúde, que colocam as pessoas no centro do cuidado”, afirma a Diretora Técnica e de Relacionamento com Prestadores da SulAmérica, Tereza Veloso. Em 2020, depressão e ansiedade foram as patologias mais frequentes, criando procura por programas e serviços com foco na saúde emocional e física.

As intervenções resultaram em acesso a teleatendimentos psicológicos, Cuidado Coordenado (atendimento presencial e tele, via Terapeuta na Tela) e Única Mente – este último um programa multidisciplinar focado em prevenção, diagnose, tratamento e reabilitação de beneficiários com depressão, ansiedade, transtorno de pânico, burnout e estresse pós-traumático.

Foi no segundo semestre do ano passado que os atendimentos em psicoterapia atingiram seu maior volume. De acordo com o raio-x levantado dos atendimentos presenciais e remotos do programa Única Mente, os meses de julho e agosto foram os que apresentaram o maior número de consultas de psiquiatria e psicologia, com aumento de 75% em relação ao período anterior (maio e junho de 2020).

O perfil mais atendido pelo Única Mente foi o de mulheres na faixa etária de 26 a 46 anos (+ de 70%) com ansiedade e depressão em suas mais diversas apresentações. A boa notícia é que cerca de 80% dos acompanhados pelo programa referiram melhora do quadro depois que buscaram ajuda e iniciaram o tratamento.

No ambiente corporativo atendido pela SulAmérica, em tempos de pandemia, cerca de 40% dos colaboradores das empresas que participaram do Única Mente tiveram indicação de acompanhamento clínico. “Por isso é importante não apenas o diagnóstico, mas também o tratamento precoce, pois as chances de eficácia da terapêutica crescem consideravelmente quando as patologias estão em estágio inicial”, explica Veloso.

O teleatendimento dá mais dimensão da busca por diagnóstico e tratamento de distúrbios emocionais em um ano de isolamento social e desafios para a saúde emocional. No ano passado, a SulAmérica registrou mais de 88 mil atendimentos realizados pelo Psicólogo na Tela, serviço no qual é possível agendar sessões de terapia por videochamada diretamente com profissionais da rede referenciada. O salto na procura mensal chama atenção: saiu de 115 atendimentos realizados em janeiro e foi para mais de 13.000 em outubro, mês de pico de utilização do serviço em 2020. A maioria das motivações sinalizadas pelos pacientes foram ansiedade, depressão e estresse, seguidas por neuropsicologia, adolescência e relacionamento afetivo.

Saúde mental no futuro

A pandemia acelerou um processo que já vinha sendo previsto pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A instituição alertava, desde o início da década passada, que a humanidade viveria, até 2030, um aumento expressivo de problemas relacionados à saúde mental. Especialmente a depressão, que tende a ser, segundo a OMS, a primeira ou segunda maior causa de mortes no planeta. Então, a expectativa era causada pela queda de qualidade de vida global, com o acirramento de crises econômicas e questões relacionadas com o aquecimento global e outros fenômenos climáticos severos.

A humanidade, em especial países lentos em tomar iniciativas de controle do coronavírus, convive agora com a antecipação da onda de expectativas pessimistas, em que as dúvidas sobre o poder das vacinas de conter a proliferação do vírus e possibilitar a retomada de uma vida normal é apenas uma das variáveis. No Brasil, o quadro da saúde mental tende a ser mais problemático diante do comportamento irresponsável do governo no enfrentamento da pandemia, o que gera mais mortes e o prolongamento dos problemas sanitários. E mais doenças mentais.

Em junho de 2020, a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) já alertava que os efeitos da pandemia de Civud-19 na saúde mental das pessoas provavelmente persistirão depois que o vírus for controlado. E alertou sobre dados preocupantes entre profissionais de saúde. O sub-diretor da entidade, Jarbas Barbosa, assinalava em entrevistas que “quanto mais durar a crise, maior será o impacto em nosso bem-estar coletivo”. Dados de uma pesquisa realizada na época revelavam indícios preocupantes de que um a cada cinco trabalhadores de saúde já apresentava sintomas de depressão.

Carência de profissionais

Em matéria publicada pelo site GZH, o psiquiatra Vitor Calegaro, professor da UFSM, diz que, em termos globais, já há indicadores de que poderão faltar psicólogos e psiquiatras em todo o mundo, incluindo países desenvolvidos. Será um legado da pandemia de coronavírus. Hoje, no Brasil, há 391,8 mil especialistas em psicologia inscritos no Conselho Federal de Psicologia. Para Calegaro, assim como a pandemia de coronavírus está colapsando o sistema de saúde, os transtornos mentais colapsarão a área da saúde mental nos próximos anos. 

O colapso tende a mobilizar uma rede bem mais ampla de especialistas. Alguns que vão, inclusive, suprir a carência de oferta ou compensar as dificuldades de acesso aos psiquiatras e psicólogos por conta da queda da renda ou do desemprego ou por questões relacionadas com desconhecimento ou preconceito religioso, por exemplo. A “cadeia produtiva da saúde mental” envolve, também, o suporte dado, formal ou informalmente, oferecido por pessoas vinculadas com atividades como meditação, yoga, terapias alternativas e aconselhamento religioso.

Nos próximos anos a demanda de apoio à saúde mental contará com técnicas milenares orientais, como o reiki, por exemplo, além da medicina chinesa, que inclui um leque enorme de tratamentos que promovem bem-estar. Acupuntura, massoterapeutas, por incrível que pareça, tb terão papel importante, que é o de aliviar a tensão corporal, promover o bem-estar. Até mesmo profissões consideradas improváveis podem ter aumento da procura. Algumas delas, das ciências sociais, são filosofia e história. A busca pela compreensão dos sentidos da humanidade será o suporte para a crise da saúde mental.

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