Com um terço dos trabalhadores brasileiros sofrendo de burnout, chega a hora dos jovens reverem as relações com o trabalho
Com um terço dos trabalhadores brasileiros sofrendo de burnout, chega a hora dos jovens reverem as relações com o trabalho.

Jovens amigos,

Muitos de vocês cresceram ouvindo seus pais e mães reclamando do trabalho. Do cansaço, dos chefes malditos, dos colegas traiçoeiros, dos funcionários preguiçosos. Das horas extras e das reuniões desnecessárias e intermináveis. Da necessidade de novas férias, antes mesmo de acabarem as atuais. Também sempre testemunharam, durante anos e anos, entre a infância e adolescência, a felicidade da chegada da sexta-feira. E conviveram com a tristeza crescente quando o sol ia se pondo no domingo, com o irritante Fausto Silva aos berros, a sinalizar mais uma segunda-feira.

Saibam, antes de qualquer conclusão sobre tal tipo de comportamento, que seus pais não são exceção no mundo do trabalho. Por incrível que possa parecer, em todos os cantos do planeta, o happy hour — a hora feliz — é uma tradição global, compartilhada por trabalhadores velhos e da meia-idade. Engravatados ou funcionários de jeans e camiseta. Diretores, gerentes e assistentes de escritório. Gente rica e de classe média lotam os bares em Belo Horizonte, em São Paulo, Londres, Paris, Nova York e Tóquio. Todos comemorando que “hoje é sexta-feira”.

Você e seus pais terão razão em dizer que aproveitar a vida, inclusive as sextas-feiras e os finais de semana, é uma boa coisa. Mas todos nós, adultos, e provavelmente vocês também, temos pelo menos um conhecido que gostaria de largar tudo o que faz, mandar o chefe pastar e ir morar em uma praia. Viver de pesca e vender o almoço para garantir o jantar. Desdentado, mas feliz, pelo menos na imaginação. Também conhecemos alguém que joga na loteria todas as semanas, sonhando com o dia em que finalmente será livre para fazer o que bem entender. Sem chefe, sem dar satisfação. Da mesma forma que temos aquelas pessoas que repetem um mantra de que felizes são aquelas pessoas corajosas que largaram tudo para ter um negócio próprio e ser patrão de si mesmo. Como se empreender fosse garantia de felicidade. E como se empreendedores não reclamassem também.

Em resumo, jovens, há algo muito errado na relação da humanidade com o trabalho. Vejam só, aos 30 anos, segundo alguns estudos, cerca de 70% das pessoas estão insatisfeitas com o que fazem. Por isso, no atual estágio da sociedade, na transição de uma era mecânica para outra, digital, vemos crescer exponencialmente os casos de pessoas com uma doença vinculada ao cotidiano profissional. É a síndrome de burnout, um distúrbio psíquico caracterizado pelo estado de tensão emocional e de estresse provocado por condições de trabalho desgastantes.

Considerada o novo mal do século, a Síndrome de Burnout atinge 32% dos trabalhadores brasileiros, o equivalente a 33 milhões de pessoas, segundo uma pesquisa da International Stress Management Association (Isma-BR). Parece assustador. E é. Um em cada três trabalhadores está perto de pirar. Também conhecida como a síndrome do esgotamento profissional, recentemente foi incluída na nova Classificação Internacional de Doenças (CID) como um distúrbio crônico. Ou seja, se seus pais comemoram que “hoje é sexta-feira” talvez seja o que caso de você também celebrar. Afinal, eles estão encontrando uma válvula de escape para que não sejam atropelados pela depressão e outros sintomas da doença. Mas o mal está à espreita.

Professores e policiais estão entre as classes mais atingidas pelo “mal do século”. Preste atenção em seu professor e veja que ele deve ter boas razões para vibrar com a chegada do final de semana. E pense na rotina do policial e avalie que, para ele, a hora do Fantástico seja um alívio. Afinal, as pessoas comemoram o sábado e domingo “enchendo a cara” e criam histórias para as páginas e programas policiais.

O que talvez seja, digamos curioso, é o fato de que doenças psíquicas geradas pelo trabalho não atingem exclusivamente pessoas que trabalham 44 horas por semana, de segunda a sábado, como os caixas de supermercado, vigias de lojas, frentistas de posto de gasolina, faxineiras e garis. Gente que ganha um salário mínimo ou pouco mais. Que nada. Talvez seu pai esteja doente, mesmo sendo visto pelo mercado como um bem sucedido executivo de uma multinacional. Com renda suficiente para ter um sítio em um condomínio fechado fora da cidade onde vocês moram. Ou o burnout alcançou sua mãe, uma profissional liberal, com uma boa carteira de clientes, capaz de garantir pelo menos uma viagem ao ano para o exterior. O doente pode ser também um gerente de uma rede de supermercados. Pessoas bem remuneradas que, um dia, “piraram”. Foram capturados pela síndrome de burnout, a doença que vem do trabalho.

Quem cresce ouvindo as reclamações dos pais tende a repetir suas histórias. Assume a crença de que o destino é inevitável. É assumir a probabilidade em um terço de ser infeliz. Tende a sofrer das mesmas doenças do trabalho, sofrer com escolhas aos 30 anos, ter depressão aos 40. É o destino, desde que não se tome consciência da realidade, de que há algo muito, mas muito errado mesmo, na relação da sociedade com o trabalho. Nós, seus pais, avós e tios, seguimos um roteiro traçado pela sociedade desde o início da revolução industrial. E chegou a hora de vocês se rebelarem.

O momento é de aproveitar a transição da sociedade industrial para a sociedade das tecnologias. O instante de discussão de relações. Entre pessoas e trabalho. Entre a sociedade e o consumo. Trabalhadores e modelos de empresas, sistemas de produção e os mercados.  Velhos e jovens. Intervir para gerar mudanças nos sistemas de produção, que  devem ser feitas agora, quando as tecnologias avançam sobre as coisas, com promessas de gerar inovações. Refletir é necessário para que a armadilha da insatisfação no futuro possa ser desarmada.

Vocês precisam pensar, primeiro, se querem repetir o ciclo da insatisfação que marca a vida de seus pais e avós. Para alcançar o objetivo, é necessário entender porque as histórias se repetem. Avaliar as causas profundas que levam pessoas aparentemente bem sucedidas a colecionar reclamações, ansiedade, insatisfação, depressão e burnout. É hora de escolher uma profissão por conta da consciência dos prazeres e das competências pessoais. Não porque sua avó sempre sonhou com um doutor na família. Ou porque seu pai tem um escritório de advocacia ou de engenharia que precisa de um sucessor de ganhos e reclamações.

Há uma boa notícia no futuro da tecnologia que você pode levar em conta. As diferenças de ganhos entre as profissões vão sendo reduzidas pela influência de novidades como a automação, a robotização, a inteligência artificial, a biotecnologia e a nanotecnologia. As diferenças salariais serão reduzidas. Simplesmente porque atividades mais sofisticadas poderão ser feitas todas com a ajuda de recursos como a inteligência artificial. Já está bem claro que a sua geração não terá as mesmas condições de acumulação dos seus pais e avós. Simples assim. Reduza as expectativas sobre ganhos de fortunas.

Se este não é um bom argumento, ofereço outro. Vocês já começaram a entender que as gerações anteriores excederam no desejo de consumo e na acumulação de bens. Precisaremos, todos nós, rever nossas prioridades. Alguns sinais sobre um novo compromisso das gerações de vocês já começam a surgir no horizonte. Nos países desenvolvidos, o capitalismo está sendo questionado. A concentração de renda só cresce. A pobreza extrema explode. Trabalhar por trabalhar, consumir por consumir, viver por viver ou simplesmente ficar deprimido são sinais de doença. É hora de buscar uma cura.

Carlos Teixeira
Jornalista I Radar do Futuro