Ao contrário do que ocorria no passado, hoje a sociedade vive o excesso de informações. foto- pixabay
O excesso de fontes de informações, ao contrário do passado, não tem sido uma boa notícia

Carlos Teixeira
Jornalista I Futurista – Radar do Futuro

Será que a sociedade está compreendendo de fato os acontecimentos do país e do mundo? Quais as principais fontes de informações utilizadas pelas organizações e pelos cidadãos para tomar decisões e emitir opiniões? Em tempos de fake news, os boatos tomados como verdades absolutas, as dúvidas sobre a qualidade das fontes das informações devem ser levadas em conta.

Há um excesso de informações. E o filtro não é, necessariamente, humano e nem focado necessariamente em qualidade. O avanço da digitalização e o amadurecimento das tecnologias alteram a forma como profissionais de qualquer área, em especial jornalistas, lidam com as suas fontes de informações.

As mudanças do cenário geral já parecem enormes, mas há uma curva avançando em direção ao céu, sem limites. Sob a influência da quarta revolução industrial, o cenário de transformações exponenciais vai alterar as estratégias de uso das fontes atuais e criar novas.

Algum nativo digital poderá ter notícias sobre como as coisas funcionavam no passado, em tempos de máquinas de escrever. Mas jamais terá ideia das restrições de acesso a informações com as quais um jornalista convivia até recentemente. Ainda uns 20 anos atrás, antes da internet se tornar acessível para a maioria das pessoas, convivíamos basicamente com fontes impressas e contatos pessoais. A informação era impressa, local e pessoal. E lenta.

Escassez de dados

No primórdio da adoção da computação, no início dos anos 1990, como responsável pela cobertura de mercado financeiro no principal jornal de economia de Belo Horizonte, eu tinha basicamente dois tipos de fontes: o Broadcast, da Agência Estado, uma meia dúzia de profissionais do mercado financeiro da capital, para quem ligava no final do dia, via telefone fixo. A cada dia, uma fonte, em revezamento. Não era possível recorrer a fontes de São Paulo ou Rio de Janeiro, por conta dos custos das ligações.

O cenário não era muito diferente com o que atuavam, na época, como profissionais de inteligência empresarial, atividade também relativamente nova no mercado de trabalho. A limitação diária de acesso a publicações impressas, pouco mais de uma dúzia de jornais e revistas locais e, no máximo, nacionais. A escassez de fontes pessoais, de especialistas. A produção de informações era caracterizada pela lentidão, dependente de dados locais e restrita às tais fontes impressas.

Em 1992, ao trabalhar na área de inteligência de uma indústria de tecidos, tive oportunidade de ir a Americana, cidade do interior de São Paulo, onde fiquei durante duas semanas para levantar informações. Na época, o setor têxtil começava a viver a sua pior crise, em decorrência da abertura irrestrita da economia brasileira. As importações de tecidos de baixo custo criaram uma concorrência desleal com as tecelagens brasileiras. Para fazer uma pesquisa de campo foi necessário ir à cidade.

Oferta abundante

Hoje, não há como duvidar, a internet, oferece um volume infinitamente maior de informações do que as disponíveis na época. Em alguma medida, o jornalismo ainda peca pela evolução incipiente das estratégias de acesso às fontes digitais e às ferramentas disponíveis de coleta e análise de dados. Recentemente, ao experimentar um curto período ao trabalho em redação, meu maior susto foi constatar a lentidão do processo de uso dos recursos disponíveis.

Antigas práticas, da década de 1990, ainda são preservadas. A mesma dependência de agências de notícias para preencher páginas. A repercussão local das informações, inclusive com a manutenção de algumas das fontes tradicionais de análises, entre instituições e profissionais.

No jornalismo, o que parece evoluir ainda lentamente é a proposta do jornalismo de dados. A ideia do acesso a uma infinidade de bases de dados que possibilitam a geração de textos aprofundados de análises. Hoje, ao contrário do passado, há uma cultura de instituições na criação de bancos de dados sobre atividades e setores. Ainda em 2000, por exemplo, era praticamente impossível ter acesso a índices acumulados sobre população ou inflação de um órgão como o IBGE. Atualmente, as séries históricas estão disponíveis globalmente.

Riscos do cenário futuro

O risco de dependência do ser humano em relação às tecnologias é crescente. A evolução da inteligência artificial, somada às informações acumuladas no sistema global de armazenamento de dados, o big data, tende a ampliar influência de sistemas de análise automatizados. Mais instituições e pessoas, incluindo o jornalismo, vão transferir para sistemas a responsabilidade de selecionar informações disponíveis. Inclusive o que é certo ou errado.

Pense no sistema de buscas do Google. Quando alguém procura por determinado assunto, os algorítimos listam as “informações mais relevantes” para o usuário. Como assim? Relevante para quem? Atribuir aos sistemas de inteligência de empresas como a Google a definição do que é bom ou ruim é um risco real.

Estudo publicado na revista Human Nature Behavior avalia que o alto volume de informações que circula nas redes sociais, aliado à nossa limitada capacidade de absorver o conhecimento gerado, explica em parte a proliferação de boatos e notícias falsas nas plataformas virtuais.

O excesso de informações não tem parecido, de fato, uma boa notícia. As pessoas têm dificuldade de decodificar. E a mídia tradicional carrega na mão das manipulações. Conscientizar as pessoas sobre a necessidade de filtrar com qualidade é um desafio. Resta saber se a sociedade está disposta a reavaliar os seus critérios.