Consultoria ISA atesta que, cada vez mais, as principais potências mundiais estão envolvidas em acontecimentos que favorecem a tensão global
Consultoria ISA atesta que, cada vez mais, as principais potências mundiais estão envolvidas em acontecimentos que favorecem a tensão global

Carlos Teixeira
Radar do Futuro

O nível de risco geopolítico continuará alto em 2019. A previsão de um cenário de tensões crescentes entre países é do economista Michael Weidokal, estrategista geopolítico e diretor executivo da International Strategic Analysis (ISA), consultoria internacional de estudos sobre comportamentos de mercados globais, em artigo publicado no site da empresa. O texto, por sinal, tem a ilustração de uma cena de um desembarque de tropas, refletindo as expectativas futuras.

Todos os fatores que levaram ao aumento do risco de instabilidades entre países no jogo comercial global nos últimos anos permanecerão em vigor. Com tendência ao agravamento, graças ao conflito de interesses que envolvem, em especial os Estados Unidos e a China. E, cada vez mais, as principais potências mundiais estão se encontrando diretamente envolvidas em muitos dos principais focos do mundo.

O estrategista Michael Weidokal reconhece que, “de fato, poucos ou nenhum dos principais pontos críticos do mundo experimentaram um declínio em seu nível de ameaça em 2018, com a possível exceção da península coreana”. No caso, a Coreia do Norte praticamente sumiu do noticiário internacional. O cenário, segundo ele, é de tensão real, com o risco global geopolítico global subindo ao o seu nível mais alto nos últimos anos em 2018.

Enquanto isso, o principal poder do mundo, os Estados Unidos, está se tornando pouco disposto ou incapaz de impor sua vontade aos atores em muitas dessas disputas, encorajando aqueles que desejam minar ou mudar o atual equilíbrio de poder nessas disputas.

Da mesma forma, salienta Weidokal, o surgimento da China como o primeiro sério rival do domínio global dos EUA em 30 anos e a crescente confiança dos poderes revisionistas como a Rússia e a Arábia Saudita estão minando a ordem de segurança liderada pelos EUA. Um cenário  que impediu grandes conflitos de poder nas últimas décadas. Adicione a isso as crescentes preocupações econômicas, ambientais e sociais que muitos países e regiões estão enfrentando e está claro que o nível de risco geopolítico global permanecerá perigosamente alto em 2019.

Forças do futuro

Confira abaixo as dez forças essenciais para entender o que poderá vir a ser o cenário de 2019, com o potencial de desestabilizar significativamente a segurança global e a economia mundial, segundo Michael Weidokal, estrategista da ISA:

A ameaça da guerra fria EUA-China

As relações entre os dois países mais poderosos do mundo se deterioraram em 2018 quando as duas superpotências se envolveram em uma guerra comercial crescente, enquanto a China continuava tentando enfraquecer a posição dos EUA em outras regiões do planeta, inclusive na Ásia.

À medida que 2019 se aproxima, o mundo observará atentamente o movimento  dos dois lados para tentar entender se as potências podem resolver suas disputas comerciais antes que suas diferenças se transformem em uma guerra comercial global. Os vizinhos da China na Ásia examinarão com cautela o crescente poder e influência da China naquela região.

Relações melhoradas poderiam ajudar a economia global a abrandar a esperada desaceleração em 2019, mas uma nova deterioração nas relações poderia ajudar a empurrar a economia global para uma queda acentuada, enquanto desencadeia uma pior corrida armamentista na Ásia.

Rússia e Ucrânia

A recente escalada nas tensões entre a Rússia e a Ucrânia serve como um aviso de que a situação no leste da Ucrânia e na Península da Criméia continua sem solução e que as ambições da Rússia na Ucrânia ainda não foram completamente concretizadas. Com uma eleição presidencial na Ucrânia marcada para março de 2019, este poderia ser o pretexto usado pela Rússia para aumentar drasticamente sua pressão sobre a Ucrânia, em uma tentativa de ganhar mais influência sobre o país.

Caso um conflito completo exploda, os EUA e seus aliados europeus podem se ver forçados a tomar uma decisão difícil sobre aumentar significativamente ou não seu apoio a Kiev.

Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos

As ambições geopolíticas dos líderes da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos contribuíram muito para desestabilizar o Oriente Médio nos últimos anos. Com o apoio tácito dos Estados Unidos, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos provavelmente se sentirão livres para cumprir sua agenda no Oriente Médio, que incluirá esforços para enfraquecer a posição de seus rivais (por exemplo, Irã e Turquia) na região.

É provável que isso leve a uma continuação da guerra no Iêmen e ao isolamento do Catar. Pode levar também ao aventureirismo em outros lugares da região. Como sempre, tais desenvolvimentos têm o potencial de impactar o suprimento de petróleo da região e podem arrastar as potências externas, principalmente os Estados Unidos.

Brexit

Como esperado, o processo de retirada do Reino Unido da União Europeia resultou em um cenário complexo. É improvável que esta situação melhore, já que o Reino Unido realmente deve se retirar da UE na primavera do próximo ano. E o potencial para uma retirada “sem acordo” permanece em vigor. Para ambos os lados, o Brexit será um pesadelo geopolítico, já que o Reino Unido se sente ofuscado pelas principais potências mundiais e a União Européia perde um de seus membros mais importantes, enfraquecendo seus esforços para ter voz nos assuntos globais. Por mais que tentem, os dois lados não conseguirão esconder o fato de que o Brexit é um revés geopolítico do mais alto nível, para o Reino Unido e para a Europa.

Mais Crises Migratórias

Mesmo que os números de migração global tenham se estabilizado em 2018, a migração continuou sendo uma das questões políticas mais polarizadoras em muitas áreas do mundo. Além disso, o aumento dos níveis de risco geopolítico e ambiental pode resultar em um novo aumento no número de migrantes em 2019.

Por exemplo, o número de migrantes da África e do Oriente Médio tentando chegar à Europa e à Península Arábica pode subir novamente em 2019 se a segurança ou a situação econômica nessas regiões piorar nos próximos meses. Da mesma forma, mais caravanas migrantes da América Central podem alimentar as tensões nos Estados Unidos.

Conflito sem fim do Afeganistão

2018 provou ser mais um ano de conflito e agitação no Afeganistão, um país que não conhece a paz e a estabilidade desde a década de 1970. Pior, a situação atual no Afeganistão tem a sensação do Vietnã do Sul nos anos 1970, como um governo fraco e dividido é apoiado pelos Estados Unidos, que por sua vez está perdendo o interesse em cumprir esse papel. Na verdade, 2019 pode ser o ano em que o Taleban fará um avanço decisivo, seja no campo de batalha ou nas negociações com os Estados Unidos, enquanto uma eleição presidencial no Afeganistão em abril de 2019 poderá levar a um governo ainda mais dividido.

Divisões políticas latino-americanas

Nos últimos 15 meses, houve uma enxurrada de eleições na América Latina que transformaram o cenário político daquela região. Seus dois maiores países, o Brasil e o México, serão em breve governados por opostos ideológicos, enquanto os governos e líderes de muitos países da região passaram por grandes mudanças ideológicas.

Essas divisões podem endurecer as posições tanto dos governos de direita quanto de esquerda na América Latina, divisões que dificultarão o trabalho conjunto da região para resolver seus problemas econômicos e sociais que levaram a economia latino-americana a ter resultados piores que qualquer outra região nos últimos cinco anos.

Crise na Síria

Enquanto as forças do governo sírio, com o apoio de seus aliados (Rússia, Irã e Hezbollah) fizeram grandes avanços no campo de batalha em 2018, existem muitos pontos críticos dentro da Síria que ainda precisam ser resolvidos. Por exemplo, uma porção significativa do território sírio está agora sob o controle das forças armadas dos EUA e seus aliados locais, território que o governo sírio prometeu retomar.

Além disso, remanescentes do grupo militante do Estado Islâmico permanecem ativos em áreas remotas do leste da Síria. Esses pontos críticos podem levar as forças dos EUA ou da Turquia a entrar em conflito com forças russas ou iranianas, um desenvolvimento que teria grandes ramificações para a segurança global.Colapso da Venezuela

Colapso da Venezuela

A má administração da economia venezuelana e o governo cada vez mais autocrático do país levaram o que já foi o país mais rico da América Latina a um estado de completo colapso. Três milhões de venezuelanos já fugiram para o exterior desde 2015 e esse êxodo deverá continuar em 2019, já que a hiperinflação leva a taxas de inflação naquele país a subir para mais de 10 milhões no ano que vem. À medida que esse colapso se agrava, os Estados Unidos e alguns países da América Latina podem considerar opções para remover o presidente venezuelano Nicolas Maduro, inclusive por meio do uso da força.

El Nino e crises climáticas

Meteorologistas estão prevendo uma chance de 75% de um El Niño no início de 2019 e isso está elevando ainda mais as ameaças à segurança global e à economia a partir de questões relacionadas ao clima. Tempestades mais fortes ou secas mais severas podem trazer dificuldades para muitas áreas do mundo em 2019. As áreas menos preparadas para lidar com essas questões podem ver os níveis de risco geopolíticos aumentarem no próximo ano.

Entre as regiões que poderiam enfrentar tais riscos estão o Sul da Ásia, a África e as ilhas do Pacífico, cada qual mal preparada para os riscos representados por tempestades mais fortes, secas prolongadas ou elevação do nível do mar.

 

Os dez principais riscos geopolíticos em 2019