A engenharia revive a crise do final do século passado, com a falta de novas oportunidades

Radar do Futuro

Quem escolheu uma profissão na engenharia por volta de 2011 não tinha dúvidas de que estava assegurando boas oportunidades para quando se formasse. Afinal, com o setor de petróleo em alta, assim como a construção civil, investimentos em infraestrutura e o bom retrospecto da economia brasileira na década anterior, o cenário parecia, de fato, tentador.

Grande engano. A profissão vive, atualmente, a reversão de todas as expectativas otimistas e a tendência de repetição do cenário que marcou as décadas de 1980 e 1990. As escolas vinham aumentando o número de vagas para os estudantes. Mas, em 2017, os sonhos se desfizeram, garantindo frustração especialmente para quem fez escolhas baseadas em cenários equivocados e não em autoconhecimento.

Matéria publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, em meados do ano passado, citava as histórias de pessoas como Gabriel Oliveira, que estuda para um concurso da Marinha, e de  João Pedro Regazzi, que foi fazer intercâmbio na Austrália, e Vinícius Martins, que gerencia a retífica de motores da família. Em 2011, quando eles passaram no vestibular para cursar Engenharia de Petróleo, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em 2011, representantes do mercado e economistas discutiam a possibilidade de “um apagão de engenheiros”.

Cinco anos depois, já formados, o cenário era outro e o mercado de trabalho tinha virado pelo avesso. Ironias do destino.Professores, assim como consultores de RH, diziam, sob o efeito do boom do petróleo e das notícias de descobertas da Petrobras, que todos alunos sairiam empregado.

Reversão do ambiente

Somada à crise, que travou o andamento de grandes obras de infraestrutura e deixou a Petrobrás no centro dos escândalos recentes de corrupção, a queda do preço do barril do petróleo nos últimos anos atingiu em cheio uma das áreas da engenharia mais promissoras para se conseguir um emprego. Os alunos recordam que, há cerca de cinco anos, as empresas iam até a faculdade, faziam palestras de recrutamento e recolhiam os currículos de quem ia se formar.

A matéria do Estadão assinala que não foi só a área de petróleo e gás. “Os engenheiros civis foram os que sentiram de imediato o adiamento ou cancelamento de projetos, mas toda obra tem um mecânico e um eletricista”, diz o presidente da Federação Nacional de Engenheiros, Murilo Pinheiro. “Todas as profissões sofreram nos últimos anos, a perda de vagas na engenharia só nos lembra do quanto a economia está longe do normal.”

Para os otimistas, o aumento da demanda é questão de tempo. O mercado de trabalho de engenharia tem relação direta com o crescimento do País. E as perspectivas não parecem promissoras, diante das projeções sobre os próximos anos. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, desde 2014, o número de profissionais de engenharia demitidos é maior que o de contratados. O saldo de vagas fechou 2016 em queda de 20,7 mil.

Há uma combinação de fatores. Inclusive, no caso, a Operação Lava Jato, que contribuiu para derrubar o mercado, que levará um tempo para se reerguer. O que parece improvável. Afinal, há uma perspectiva de 20 anos de inibição de investimentos públicos, em decorrência da proibição de expansão de gastos governamentais.

E mesmo os engenheiros reconhecem que há uma dependência de investimentos públicos para que grandes obras sejam realizadas no Brasil, o que acaba causando ansiedade entre alunos de Engenharia que se formam em tempos de crise.

Fatores que jogam contra a engenharia

  • Cortes de gastos públicos em infraestrutura
  • Restrições de gastos determinadas por lei
  • Crise global de crescimento
  • Desindustrialização crescente
  • Baixo crescimento da economia interna
  • Queda do poder aquisitivo da população