A sociedade global não deve, nem pode, ficar aguardando a intervenção de lideranças para enfrentar a questão global
A sociedade global não deve, nem pode, ficar aguardando a intervenção de lideranças para enfrentar a questão global. É preciso mobilizar, diz George Monbiot, do The Guardian

Carlos Teixeira
Editor I Radar do Futuro

Não espere pelas lideranças locais e globais. Não espere o seu vizinho se movimentar. Não imagine que o aumento do calor ou do frio recentemente fatos eventuais. Apenas a desobediência civil em massa é capaz de forçar respostas políticas para a tragédia que está sendo desenhada no horizonte. Preocupado com o imobilismo de uma imensa maioria, George Monbiot, colunista do portal The Guardian, explicita, em um artigo, o apoio às iniciativas que levam protestos às ruas. E faz uma convocação para novos exemplos, que sejam capazes de reverter o quadro atual de desafios que envolvem a questão climática.

O texto parte de uma reflexão sobre os impactos do ciclone Idai que, no início de abril, devastou Beira, cidade de meio milhão de pessoas, na costa de Moçambique, na África. Ele relata que Daviz Simango, presidente da Câmara Municipal da cidade tinha trabalhado arduamente para reforçar as defesas climáticas da cidade, recorrendo à ajuda do Banco Mundial para impedir o aumento dos mares, inundações e tempestades. Mas em apenas algumas horas de março, o Cyclone Idai devastou tudo.

Cidades brasileiras já se preparam para o aumento do nível do mar. E a população se mantém passiva quando vê o desmonte da estrutura de fiscalização do meio ambiente, como o Ibama. Ou de quando o presidente manda parar um processo que envolve a venda ilegal de árvores na Amazônia. “Nós nos esforçamos tanto para evitar a catástrofe ambiental quanto gastamos para dar desculpas para a nação”, diz o articulista.

Omissões

George Monbiot identifica pessoas envolvidas em tentativas furiosas de se defender do desafio moral apresentado pelo cenário de devastação. A desculpa atual mais comum, diz ele, é a seguinte: “Aposto que os manifestantes têm telefones, saem de férias, usam sapatos de couro”. Nada muito diferente do que se vê no Brasil, onde parte da população cobra coerência ao extremo de quem defende ações para o combate às mudanças climáticas.

Em outras palavras, assinala, “não vamos ouvir ninguém que não esteja vivendo nu em um barril, subsistindo apenas em águas turvas. É claro que, se você está vivendo nu em um barril, também o dispensamos, porque você é um esquisito hippie. Todo mensageiro e toda mensagem que eles carregam são desqualificados com base em impureza ou pureza”.

À medida que a crise ambiental acelera, e como movimentos de protesto como YouthStrike4Climate e Extinction Rebellion tornam mais difícil não ver o que enfrentamos, as pessoas descobrem meios mais inventivos de fechar os olhos e perder a responsabilidade. Subjacente a essas desculpas está uma crença arraigada de que, se realmente estivermos em apuros, alguém em algum lugar virá em nosso socorro: “eles” não deixarão isso acontecer. Mas não há eles, apenas nós.

Não conte com políticos

O alerta prossegue com a avaliação do desgaste do papel dos representantes da população nos parlamentos. O Brasil não é um lugar isolado do mundo. George Monbiot denuncia que a classe política, como qualquer um pode ver agora, é caótica, pouco disposta e, isoladamente, estrategicamente incapaz de enfrentar crises de curto prazo, muito menos uma vasta situação existencial.

No entanto, prevalece a ingenuidade generalizada e intencional: a crença de que votar é a única ação política necessária para mudar um sistema. A menos que seja acompanhado pelo poder concentrado de protesto – articulando demandas precisas e criando espaço no qual novas facções políticas possam crescer – a votação, embora essencial, permanece um instrumento contundente e fraco.

George Monbiot acusa a mídia de submissão integral aos interesses do poder econômicos. Para ele, a mídia, com poucas exceções, é ativamente hostil. Mesmo quando as emissoras cobrem essas questões, elas evitam cuidadosamente qualquer menção ao poder, falando sobre o colapso ambiental como se ele fosse movido por forças passivas e misteriosas e propondo correções microscópicas para problemas estruturais vastos. “A série Blue Planet Live da BBC exemplificou essa tendência”, sugere.

No final das contas, fica o sentimento de que os governantes não merecem a confiança depositadas neles. O que se evidencia, inclusive, nos limites dos avanços dos encontros de líderes globais. E o papel contrário de países como os Estados Unidos, desde sempre, e agora, com apoio do Brasil. Por isso, a desconfiança de George Monbiot de que lideranças políticas não merecem a confiança. “Não há autoridade benigna nos preservando de danos. Ninguém vem nos salvar. Nenhum de nós pode justificadamente evitar o chamado para se unir para nos salvar”.

Rejeição à verdade

O articulista do Guardian também aponta fatores vinculados ao comportamento das massas que precisam ser superados. O desespero é, então, outra variável capaz gerar atitudes de recusa. Diante das calamidades que um dia poderiam nos afligir, as pessoas tendem a disfarçar e se distanciar, convertendo as escolhas concretas num pavor indecifrável. Podemos nos livrar do peso da consciência com alegações de que já é tarde demais para agir, mas ao fazê-lo condenamos os outros à destituição ou à morte.

A catástrofe aflige as pessoas agora e, ao contrário daquelas do mundo rico, que ainda podem se dar ao luxo de mergulhar em desespero, elas são forçadas a reagir de maneira prática. Em Moçambique, Zimbábue e Malaui, devastados pelo ciclone Idai , na Síria, Líbia e Iêmen, onde o caos climático contribuiu para a guerra civil , na Guatemala, Honduras e El Salvador, onde o fracasso das colheitas, a seca e o colapso da pesca expulsou as pessoas de suas casas , o desespero não é uma opção.

Para quem vive a tragédia não há recurso além de agir, como resposta às circunstâncias terríveis causadas principalmente pelo consumo do mundo rico. “Os cristãos estão certos: o desespero é um pecado”, diz Monbiot, citando o pensador Jeremy Lent, para quem pode ser tarde demais para salvar algumas das grandes maravilhas do mundo, como recifes de corais e borboletas monarcas.

Também pode ser tarde demais para evitar que muitas das pessoas mais vulneráveis ​​do mundo percam suas casas. Lent argumenta que cada incremento de aquecimento global, a cada aumento no consumo de recursos materiais, teremos que aceitar perdas ainda maiores, muitas das quais ainda podem ser evitadas através de transformações radicais.

“Toda transformação não-linear da história pegou as pessoas de surpresa”, ressalta George Monbiot, agora recorrendo a Alexei Yurchak, autor do livro “Everything Was Forever, Until It Was No More“. Ao descrever o colapso da União Soviética, ele assinala que os sistemas parecem imutáveis ​​até que de repente se desintegram. Assim que o fazem, a desintegração parece retrospectivamente inevitável. “Nosso sistema – caracterizado pelo crescimento econômico perpétuo em um planeta que não está crescendo – inevitavelmente implodirá”.

A única questão é se a transformação é planejada ou não planejada. Nossa tarefa é garantir que seja planejada e rápida. Monbiot defende a necessidade de conceber e construir um novo sistema baseado no princípio de que toda geração, em todo lugar, tem o mesmo direito de desfrutar da riqueza natural.

Mobilização

George Monbiot também recorre à pesquisa histórica de  Erica Chenoweth para defender a necessidade de mobilização. Segundo ela, para que um movimento de massas pacífico seja bem-sucedido, um máximo de 3,5% da população precisa se mobilizar. Os seres humanos são mamíferos ultra-sociais, constantemente se estão subliminarmente conscientes das mudanças nas correntes sociais. A percepção de que o status quo foi alterado, as pessoas tendem a assumir  novas posturas.

Hoje, o movimento  Extinction Rebellion toma as ruas ao redor do mundo em defesa dos nossos sistemas de suporte à vida. Por meio de ação ousada, disruptiva e não-violenta, força nossa situação ambiental à agenda política. “Quem são essas pessoas?”, pergunta George Monbiot.  São os outros eles. “Quem poderia nos resgatar de nossas loucuras? O sucesso dessa mobilização depende de nós. Só atingirá o limiar crítico se muitos de nós deixarem de lado a negação e o desespero e se unirem a esse movimento exuberante e proliferante. O tempo para desculpas acabou. A luta para derrubar nosso sistema de negação da vida começou”, conclama o autor.


Leia aqui  a matéria original do The Guardian

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