Em um dia de 2036, mãe e filha descobrem os impactos da ausência de objetos simples do dia a dia

CARLOS PLÁCIDO TEIXEIRA
Jornalista, criador e produtor do Radar do Futuro
Helena emerge suada do pesadelo em que se sentia dentro de um submarino amarelo preso no fundo do mar. Um suor como nunca tinha tido antes. Nem mesmo quando teve febres violentas, como a que preocupou toda a família na pandemia de 2036, quando tinha onze anos. Sente as gotas escorrendo no pescoço, na barriga, no rosto e nas pernas, como uma onda estranha às sensações de adolescente. Todos os poros drenam líquidos. Sem saber quanto tempo esteve adormecida desde o momento em que deitou, atordoada pela interrupção do descanso noturno, tenta recordar se foi para a cama com o cabelo molhado.
– Não, nem tomei banho ontem – recorda.
O travesseiro está encharcado. A roupa de cama denuncia a extensão dos efeitos da força tsunâmica do calor.
– Será que fiz xixi na cama? – pensa, com nojo. Tentando entender os acontecimentos, tateia com a ponta dos dedos a vastidão da cama super king size, instalada no centro do quarto de trinta metros quadrados. A umidade contesta a propaganda sobre os efeitos mágicos das inovações nanotecnológicas que asseguram colchões com diluição de líquidos e cheiros.
– Juvenal, cadê você. Abaixe essa temperatura.
A ordem sai da voz aguda em tom alto. Um berro de quem tem costume de mandar. Sem efeito. Absolutamente nada ocorre. Nenhuma coisa obedece.
– Será que a janela está aberta? – Ela mesma responde em seguida, instantaneamente.
– Impossível.
As janelas das residências dos tórridos anos 2040 nem abrem mais, e nem existem de verdade, por conta do estilo construtivo proposto pela revolução estética da “new intelligence”. O conceito foi redefinido pelos arquitetos, decoradores, pelos dicionários e pela inteligência das coisas. O tradicional espaço nas paredes, formado por armações e vidraças, por onde as pessoas enxergavam a vida exterior, a cidade, prédios e casas da vizinhança, o tráfego de pessoas e carros e as nuvens e o sol, foi preenchido por telas de imagens hiperrealistas. Integram a simulação dos ambientes internos. Janelas têm utilidade, agora, como itens destinados a vedar o acesso do olhar dos moradores ao mundo real. Precisaram ser reforçadas para impedir a entrada da força da natureza nos dias cada vez mais frequentes de tempestades de chuvas em que tudo pode voar pelos ares.
Moradores dos prédios vivem em caixas fechadas. Os projetos de decoração valorizam a segurança interna acima de tudo. Além de inibir a violência da cidade, os conceitos dos projetistas digitais definem a importância de criar mecanismos para impedir as tentações dos moradores eventualmente saudosos dos tempos em que os ventos externos portavam brisas refrescantes para o interior das residências. Sem frestas por onde o ar circule, os ventos externos carregados de ondas de calor, não podem fluir para dentro dos cômodos.
Helena cresceu sem memórias do que seja uma janela aberta. Não só no quarto, imagens são projetadas em todas as paredes do apartamento onde mora com a mãe para criar sensações de interação com cenários externos. As projeções simulam janelões abertos para um mundo ideal. Durante o dia, Helena chega a ficar incomodada com a força da luz artificial. Ela pode variar as imagens da vista que cria ilusões de vizinhança. O Morro da Urca, com vista panorâmica para a orla do Rio de Janeiro, é uma das preferidas. Como opção, pode se sentir como vizinha da Torre Eiffel ou das pirâmides do Egito. Ou da Quinta Avenida, em Nova Iorque. À noite, pode ter uma visão de luar, estrelas e barulhos de onda.
Agora, na madrugada, o cenário era de escuro absoluto. Nem mesmo forçando as vistas Helena enxergava algo.
– Juvenal, o que está acontecendo? Abaixe a merda dessa temperatura dos infernos – ordenou Helena. O palavrão desafia as regras da família e da sociedade digitalizada. O uso de qualquer expressão desqualificada é rejeitada e punida. São as normas dos novos manuais da vida em família, administradas pelas centrais inteligentes de controle de ações humanas. Deslizes são prontamente anotados no prontuário digital das pessoas para o controle do ranking dos jovens de bem. Se o mundo das coisas estivesse em condições normais, uma luz vermelha teria acendido. O palavrão seria mais um registro negativo denunciado na coluna de monitoramento do mês. Dessa vez a transgressão não foi denunciada pelo sistema de controle comportamental. Nada. Nenhuma reação dos objetos da casa. Não há Juvenal, nem coisa alguma entre todas as coisas que cercam o reino quase encantado de Helena. Silêncio total na noite fervente. E escura. O sistema de vedação de luzes externas funciona bem, como sempre. Ou não. Pode estar apenas estável. Parou de funcionar no modo escuro extremo.
– Equilibre a temperatura, Juvenal. Acenda a luz. Faça alguma coisa, seu robô idiota – grita, em desespero.
Não adianta. Silêncio, calor dos infernos. Helena finalmente entende a necessidade de tomar alguma iniciativa. Tentar encontrar alguma coisa, talvez uma luz no banheiro. Refrescar a cabeça no chuveiro.
– Eu preciso sair do quarto.
Tomar decisões é um ato quase heróico para quem depende de Juvenal para tudo. Todo dia, ele coordena as atividades da adolescente, acostumada a acordar sob os comandos da voz.
– Você vai acordar hoje com a música da banda Ngo do Vietnã. Sua noite foi muito boa para recuperar as energias que gastou ontem. O monitoramento dos dados de saúde define os hábitos de cada dia.
– Agora você vai sair pela esquerda. Vire-se lentamente e sente-se na beira da cama. Coloquei as sandálias direito. Dê um impulso no corpo e levante-se. Caminhe até o banheiro. Não demore. Vou avaliar sua dinâmica corpórea para calcular o alimento da manhã.
Juvenal é o melhor empregado digital que qualquer pessoa poderia desejar. Último modelo, no formato humanoide. Também como assistente virtual, onipresente. Com uma ubiquidade capaz de dar inveja em qualquer deus. Desde o momento em que assumiu as funções de babá robótica e digital na infância, substituindo Adriana, a empregada humana, Helena passou a desaprender até mesmo as pequenas atividades normais herdadas pelas pessoas.
Juvenal foi o nome dado aos seis anos ao robô humanoide em homenagem ao avô materno. Eram parecidos na capacidade de fazer tudo pela neta. Mais que uma máquina, era um assistente virtual. A inteligência de Juvenal estava em todos os cantos, compartilhado entre a mãe e a filha. Vigilante, controlava a saúde física e mental de Helena. Ela sentia que só acordava de fato quando já estava tomando o café da manhã. A ubiquidade tecnológica tinha grandes vantagens em relação a babás humanas.
Podia saber de tudo sobre a vida dos seus humanos. Acompanhava todos os comportamentos. Antecipou e alertou a mãe sobre a vinda da primeira menstruação da filha. Registrava sinais de alegrias, tristezas e emoções. Soube também e deu conselhos para Helena quando ela sentiu a primeira onda de tesão por uma colega. Antes da família, e antes da própria menina, Juvenal registrou a possibilidade dela gostar de outras meninas. Ele podia saber se ela estava em situação de perigo ou se estava aprontando algo errado. Juvenal sabia de tudo, como nenhum humano seria capaz.
Sem respostas de Juvenal, Helena entendeu a necessidade de enfrentar medos e tomar a decisão de sair do quarto por conta própria para buscar ajuda. Tateando o caminho do quarto e do corredor, esbarrou com a mãe na cozinha sob o breu absoluto. Trocaram o primeiro abraço. Vários segundos, como não faziam há tempos. Os sentidos ofereceram as percepções sobre o estado espírito de ambas. A força dos braços. Respiração ofegante. Os ouvidos captam o som dos corações acelerados. O suor e cheiros denunciaram os efeitos do calor e do medo.
– O que está acontecendo, por que nada responde? – Ângela perguntou, antes de Helena.
– Acho que a internet está com algum problema sério.
– Ou o Juvenal resolveu fazer greve. Interrompeu o funcionamento de todas as coisas.
– São quantas horas agora? – Ângela levou alguns segundos para responder.
– Não sei – Por um momento breve, Angela lembrou que deixou de usar relógio de pulso havia muito tempo. Quando desejava saber as horas, bastava dizer em voz alta e Juvenal respondia.
– Temos alguma coisa que possa iluminar? – A pergunta de Helena cortou a divagação.
– Não. Antigamente, as casas tinham velas guardadas em algum canto. Hoje nem sei se ainda existem velas no mercado.
– Podemos ir lá fora na rua para ver o que fazer?
– Não tem jeito. A porta não abre e o elevador não atenderia ao nosso chamado.
– Mãe, o que vamos fazer então? – O tom de voz de Helena ficou mais alto.
– Não sei filha, sinceramente não sei – respondeu a mãe.
Angela constatou que os velhos botões de ligar e desligar as coisas do cotidiano desapareceram. No lampejo de consciência, em algum momento da madrugada no verão de 2040, abraçada na cozinha escura com a filha, lembrou de brigas de adolescente com o Juvenal, o original, o velho humano.
– Volta para o quarto e apaga a luz. Não sou sócio da Cemig – gritava o pai, irritado com a repetição das vezes em que flagrava todos os filhos saindo dos quartos, das salas, dos banheiros e da cozinha sem desligar as luzes ou outros aparelhos da casa. Lembranças estranhas para quem viveu eras diferentes, na transição entre os mundos analógico e digital. Nas residências, nos escritórios, nas lojas, em qualquer lugar, as coisas eram ligadas ou desligadas pela ação humana de apertar ou desapertar. Convivemos com avisos. E até mesmo eles desapareceram.
Antes de sair, apague as luzes. Desligue o ar condicionado. Ao usar a privada, dê descarga. Aperte aqui para entrar. Pressione para abrir. Acione para fechar. Gire para ligar. Digite para desligar. Mãos e dedos foram substituídos pela voz.
Ainda abraçada, conectada com a filha, Ângela recordou de um professor do mestrado da faculdade de sociologia, o velho Manoel. Em aulas sobre o futuro do trabalho, ele se irritava com quem dizia que, na transição da revolução industrial para a era digital, as tecnologias teriam a capacidade de criar tantos empregos quanto os eliminados.
– São idiotas – dizia, irritado. E completava:
– Na revolução industrial, cada máquina nova demandava trabalhadores para apertar botões e fazer as coisas funcionarem. Um ou muitos operadores eram contratados para as fábricas funcionarem. Já na revolução digital, as máquinas eliminaram a necessidade de alavancas, botões ou qualquer outro tipo de objeto de acionamento. Basta uma pessoa para ligar a máquina à energia elétrica. Os comandos de voz fazem todo o trabalho. A análise dava lugar ao desalento impregnado no discurso.
– Estamos mais próximos do dia em que as fábricas serão cem por cento livres de humanos, human-free, basta um capitalista – dizia o professor. – Seremos todos inúteis– , completava.
Poucos meses depois o velho professor Manoel perdeu o emprego, o último da vida como mestre de uma universidade. Foi atropelado pelo ensino a distância pela inteligência artificial, no processo que eliminou dezenas, talvez centenas de empregos. A previsão virou realidade. As tecnologias transformaram o papel do professor em um mediador ou, como diziam os donos das escolas, facilitador do ensino. Uma mesma “aula” ou parte dela era reaproveitada milhares de vezes, com menos suporte personalizado. Anos depois, professores eram avatares.
– Mãe, estou com sede.– Ângela não segurou o riso ao ouvir a filha. Enquanto pensava lembrou que no tempo em que era adolescente uma frase como aquela tinha resposta garantida: – vai na cozinha e busca, uai. Você não tem pernas? – Na casa dos pais no norte de Minas, onde morou durante toda a adolescência, o filtro de barro era a fonte da água. Tudo parecia muito natural. O adolescente precisava apenas tirar a bunda de onde estivesse grudada, andar alguns passos até a cozinha. No armário, bastava pegar um copo, acionar a torneira do filtro e se servir. Fechar e beber quanta água quisesse. Poderia tomar água gelada. Bastaria abrir a geladeira e pegar a garrafa, sempre abastecida. Ou pegar gelos.
Simples assim. Nem tanto para a vida de Helena, servida por Juvenal. – Ela nem tem ideia do passado – pensou Angela. Não fez comentários, porque não era o momento, diante da tensão que viviam. Na cozinha inteligente, onde tudo era acionado por voz, não há qualquer mecanismo capaz de fornecer água. Nem mesmo quente. Nem alimentos. Não há qualquer botão ou torneira visível. Não há como abrir a geladeira. Surdos, os aparelhos da cozinha são inúteis. Sem os assistentes virtuais as pessoas podem morrer de fome e de sede em cozinhas bem abastecidas.
Aquela era uma realidade inconcebível para quem nasceu na era digital. Para a filha, bastava falar em voz alta para o ajudante digital. – Quero água– Juvenal. E lá vinha o humanoide com o copo. – Você não trouxe água gelada – Helena reclamou em uma tarde de verão. Com a voz parecida com a do avô humano, o Juvenal robótico respondeu que, naquela hora, ela não poderia tomar líquidos gelados. – Eu sei como você gosta. Mas a sua garganta tem vulnerabilidades que podem levar você a contrair uma infecção.
De mãos dadas, mãe e filha caminharam para as salas de convivência da casa. Oitenta metros quadrados de vão livre, com divisões para mesa de jantar e sofás. Sem objetos de decoração, desnecessários diante da evolução dos sistemas de holografia, que projetam imagens em terceira dimensão diferentes para cada dia do ano. Ocuparam o sofá de quatro lugares, grudadas uma na outra, como se o espaço fosse limitado. Juntas, mais que nunca, companheiras como sempre, aguardavam algo acontecer.
– Quem sabe, foi apenas um problema momentâneo da internet e daqui a pouco tudo volta ao normal – disse Angela, tentando tranquilizar Helena. – Por arrogância ou imprevidência, até mesmo os botões foram extintos. Estamos presas em uma caverna, dependendo das sombras, porque os criadores das tecnologias acreditaram que suas invenções seriam indestrutíveis.
Ao substituir botões por comandos de voz, sem mirar problemas possíveis, os inventores criaram novos problemas. Isso que está acontecendo fez a mãe lembrar do passado. Helena não conheceu e nem ouviu falar. Sem que as pessoas dessem atenção, desde o início do século, objetos desapareceram, sem querer a gente desse muita importância. As coisas foram desmaterializando. Tudo foi digitalizado.
A casa tem ar condicionado, mas não é possível ligar. A água está na cozinha, mas a torneira depende de comandos. A cafeteira não tem botões. A geladeira não abre, não entrega alimentos guardados. O forno é uma superfície lisa e minimalista. Nem podemos ligar a luz porque não há interruptores. As lâmpadas são extensões, sem cordões ou controles.
– Meu Deus, a surdez das coisas pode nos matar de fome, de sede e de isolamento. Não estamos apenas trocando o dedo pela corda vocal. Testemunhamos, mas não percebemos, a morte da interface física.
Por acaso, o nascimento da filha, em 2025, coincidiu com o momento em que o ruído do clique físico passou a ser item do passado, substituído por algo muito mais antigo e natural: a voz. A internet em todas as coisas foi destronando os botões. Até dominar todos os objetos durante a pandemia de 2031. – Ficamos maravilhadas com tudo aquilo que chegava em casa.
– Boa noite. São três horas e vinte e três minutos. A temperatura interna é de trinta e um graus. Muito insalubre. Vou acionar o ar condicionado.
– Juuuuuvenaaaaal! Onde você estava, Juvenal? – gritaram, com a mesma vibração, as duas ao mesmo tempo.
– Os neoanarchists estão chegando– , respondeu o assistente virtual, com entonação musical e um humor estranho para um assistente virtual inteligente. Como se tivesse aprovado os acontecimentos que desligaram todos os assistentes inteligentes da residência, agora com uma entonação que provocou uma troca de olhares entre mãe e filha. Reconheceram a semelhança entre a voz do Juvenal digital e o pai e avô das duas. Não tiveram tempo de comentar nada.
– Houve um ataque global às redes de internet das coisas em todo o mundo– , disse a voz.
Há muito tempo o assistente virtual vinha tentando alertar Helena e Ângela sobre a necessidade de rever a dependência excessiva das tecnologias. Não foi por falta de alertas. Em 2026, quando Helena nasceu, especialistas já imaginavam os efeitos negativos sobre o comportamento decorrentes da adesão aos comandos de voz e ao excesso das telas. Crianças cresceram acreditando que a internet poderia satisfazer todos os desejos delas. Praticamente ninguém quis entender que ocorreria problemas semelhantes aos que ocorreram no processo da crise climática. Sem atenção adequada, a Terra ferve.
– Agora, só mesmo revertendo as tecnologias – , disse Juvenal, imitando a voz do velho.
– Como? – perguntaram as duas ao mesmo tempo. Mas uma outra voz assumiu o comando:
– Façam alguma coisa – suplicaram.
E a casa voltou ao silêncio das coisas.

