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Ou nos rebelamos contra o militarismo ou morreremos todos

O resgate de movimentos pacifistas, que combatam os aumentos dos gastos militares, é urgente para impedir que a barbárie supere os escassos ganhos civilizacionais

CARLOS PLÁCIDO TEIXEIRA

Se eu tivesse força para mobilizar movimentos sociais e para influenciar jovens, eu iniciaria uma campanha imediata a favor do pacifismo, contra a total supressão de militares do planeta. Utopia, sim. Mas necessária diante da expansão do poder das forças armadas. Pelo 11º ano consecutivo, o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo registrou aumento dos gastos militares globais anuais desde o fim da Guerra Fria, em um contexto de multiplicação de conflitos e tensões. A elite brasileira que se comove com investimentos contra a desigualdade social, não se impressiona com o fato de que despesas militares cresceram 13% em 2025, totalizando 23,9 bilhões de dólares – mais 119 bilhões de reais.

Sem reação popular, a tendência é de que as coisas caminhem mal para pior. Os impactos negativos da ausência de ações contra o sistema sustentado pela militarização são confirmados por uma série de reportagens investigativas publicadas pelo site ICL Notícias. A primeira matéria resgata a história e confirma o caráter do regime. Ao realizar ações em residências suspeitas, militares aproveitavam para roubar itens como brinquedo de criança, poltronas, estantes, sapatos, dinheiro, canetas, armas e até um carro. Durante as revistas, buscas e prisões de militantes da luta armada a pilhagem atingia até pessoas que não integravam grupos de oposição à ditadura. São novas evidências sobre os estragos deixados por militares durante a ditadura, que impactam o presente e o futuro.


Roubos de residências fazem parte da lista de crimes cometidos por integrantes das forças armadas no cenário de autoritarismo da ditatura militar.


Pedro Aleixo, vice-presidente do Brasil durante o governo do Marechal Costa e Silva, acertou, mas também errou, ao expressar a desconfiança em relação aos efeitos do Ato Institucional nº 5 (AI-5) em 1968, no momento mais repressivo da ditadura militar brasileira. “Desconfio é do guarda da esquina”, teria dito o civil, apoiador do golpe militar, para a cúpula que dominava os destinos do Brasil. Estava certo em relação na interpretação de que o ato permitia a qualquer autoridade de menor escalão — policiais, praças e delegados — a cometer atos ilegais contra os cidadãos, de tortura, prisões arbitrárias. Aleixo errou, entretanto, ao acreditar que o descontrole estaria restrito aos cargos de baixa qualificação.

O roubo e o uso para fins pessoais de produtos também fazia parte da prática dos militares envolvidos com a repressão. E com a ciência de intetrantes de alta patente. Segundo a matéria publicada no ICL Notícias, a denúncia dos crimes consta do depoimento de Israel Sturne, sargento do CIE, tomado em 17 de fevereiro de 1970 pelo coronel Cyro Etchegoyen no informe “Irregularidades na Seção de Operações”. Além dos assaltos, Sturne denunciou um estupro feito por um colega durante uma ação para prender integrantes da ALN em dezembro de 1969. O documento integra o arquivo secreto do oficial que é publicado pelo ICL Notícias no projeto “Bandidos de farda” produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio.

O esquema contava até com o uso de um apartamento na Rua Tenente Possolo, no Centro do Rio, utilizado para “encontros ocasionais com pessoas do sexo feminino”. Um dos militares do CIE, de acordo com a denúncia, chegou a usar os objetos furtados para pagar seus caseiros em um sítio de Teresópolis. Alguns bens, após o assalto, eram levados para a sede do Centro de Informações do Exército (CIE), no Palácio Duque de Caxias, no centro do Rio, mas também para um outro escritório secreto que o órgão mantinha na Avenida Presidente Vargas, mobiliado com móveis furtados.

A lista de crimes cometidos pelas forças armadas cresce sob absoluta impunidade. Pior, no Brasil de mais 60 anos depois do início da ditadura, a militarização ocupa espaços nas escolas, onde crianças são filmadas em atividades que exaltam a agressividade como padrão de conduta. A mentalidade violenta, estimulada em quarteis das polícias militares e até em cultos religiosos, reforça a violência contra as populações pobres, mesmo com todos os fiascos de intervenções do Exército em favelas no Rio de Janeiro. Notícias sobre vínculos de autoridades e parlamentares com grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) ou Comando Vermelho (CV) mostram o tamanho do desafio a ser enfrentado.

Perto de completar 70 anos, sem saber o que está mais próximo, se é o fim da vida ou da vida no planeta, sinto que, independente da hipótese vencedora, tudo vai acabar sem que a civilização supere a barbárie. Os conflitos armados e o genocídio praticados pela convergência de interesses geopolíticos e econômicos dos Estados Unidos e Israel, além dos avanços dos grupos de extrema direita, irmãos univitelinos do machismo, favorecem a descrença sobre a capacidade da inteligência humana sair vitoriosa no embante com a dissonância cognitiva que prospera no Ocidente sob a lógica de interesses militares, financiados por interesses de grupos econômicos privilegiados.

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