É uma tolice dizer que convivemos com um excesso de diagnósticos sobre autismo e TDAH. O que existe é muita gente com necessidade de encontrar resposta para as suas dores.

CARLOS PLÁCIDO TEIXEIRA
Jornalista, criador e produtor do Radar do Futuro
Talvez por falta de um melhor consciência sobre as dores que atormentam o corpo e a mente da humanidade, assim como de jovens como ele, portadores da transição entre a infância e as novidades de futuro adulto, Lucas se matou. Aos 15 anos, completados recentemente, usou a criatividade e a curiosidade, traços mais reconhecidos de sua personalidade pelos parentes e amigos, para pesquisar alternativas de auto extermínio e tirar a própria vida. Lindo, segundo as avós, as tias orgulhosas e as meninas que o seguiam na escola e nas redes sociais, tinha o rosto ainda liso, sem fios de barba, de pré-adolescente, o cabelo preto-pretíssimo e a pele meio morena de uma remota herança indígena. Ainda não tinha tatuagem no corpo, como vários colegas já possuem, como sonho de consumo e de distinção.
Visto à distância, como a superficialidade das relações atuais estimula ao favorecer as relações digitais, parecia alegre. Um menino normal para a idade. Porém, hoje a gente entende que nem tangenciava os sentimentos de uma vida feliz. No sorriso de sempre, os dentes perfeitos do menino eram uma formalidade a mais que ele carregava ao encontrar familiares e amigos do pai:
– Lucas é tão tímido. É tão calado – diziam as avós e as tias durante as reuniões de família, destinadas ao culto de comidas, bebidas e às conversas superficiais de sempre. Talvez tenha faltado conhecimento sobre a dor mais profunda de Lucas. Nem mesmo a psicóloga com quem ele se tratava há alguns anos percebeu a força destrutiva da dor do jovem. Nas últimas sessões, tratavam dos sinais de aprofundamento da depressão decorrentes da trajetória do menino, marcada pela ausência da mãe, viciada em crak, sem endereço fixo. Viveu grande parte da história dividindo afetos com a irmã, sob os cuidados da avó por parte de pai, carinhoso, porém envolvido com o trabalho em obras de construção no interior. Atordoada pelas dúvidas, por uma culpa que não deveria sentir, como se fosse da responsabilidade dela impedir a ação de Lucas, pensava se faltou o rótulo capaz de estabelecer uma meta palpável como distração do desejo da morte adotado por Lucas.
– Quem sabe não faltou um diagnóstioco de autismo como “inimigo”, mais palpável, contra o qual lutar? – questionava a psicóloga, atordoada diante do túmulo.
– Estamos convivendo com um excesso de diagnósticos sobre autismo e TDAH – denunciam”, na mídia e nas redes sociais, médicos e comunidades médicas e e de especialistas“. O resultado de suas certerzas acrescenta pouco aos debates. Os que apontam excessos poderiam aproveitar as entrevistas promovidas pelos meios de comunicação tradicionais para colocar em evidência o fato de que a saúde mental é o verdadeiro problema enfrentado por indivíduos como Lucas e pelas milhares de pessoas que não tiveram diagnóstico a tempo e que se mataram. O excesso de pessoas confusas diante do ambiente próximo ou distante leva ao excesso de pacientes que acreditam que um diagnóstico de autismo, de TDAH ou depressão ou outro transtorno, seja a resposta para as suas dores.
Os denunciadores parecem desconhecer que a saúde mental dos jovens no Brasil em várias partes do mundo enfrenta desafios críticos, marcados pelo aumento de ansiedade e depressão, estigma social e pressão por desempenho escolar/digital. Dados do Unicef indicam que cerca de um em cada seis jovens, com idades entre 10 e anos, convive com transtornos mentais, agravados por desigualdade e falta de acesso a tratamentos.
Pessoas que buscam diagnósticos confirmam as estatísticas sobre a crise de saúde mental, apontada pela Organização Mundial de Saúde. A depressão é o mal da década. Dados são confirmados, na prática, por profissionais de saúde mental. Quem tem um diagnóstico de autismo, TDAH ou o que for, tem pelo menos uma bóia para se agarrar. Quem tem um diagnóstico, tem esperanca. Precisamos impedir o ” negacionismo sobre excesso dos diagnósticos” e conversar sobre as origens de tanto mal estar. É o sistema onde vivemos que está doente. É ele que precisa ser denunciado. É urgente pautar a discussão sobre a ausência de ética do sistema, que favorece a exploração de pessoas em sofrimento mental.
Entre dúvidas e angústias existenciais, na tentativa de encontrar sentido, pessoas buscam respostas em ambientes tão variados quanto consultórios de psicologia e de psiquiatria, igrejas, centros espíritas, grupos radicais e fornecedores de drogas. Hoje mesmo, em igrejas e templos espalhadas por todos os becos de bairros pobres das cidades brasileiras, pastores sem escrúpulo apresentam diagnósticos sobre “o diabo que tomou o corpo” de pobres confusos. Há excesso de diagnósticos porque há excesso de dúvidas, de dor de quem vive em busca de sentido para a existência.

