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Eu não pedi a sua opinião e nem conselho, Alexa

Entre paixão e ódio, a história de um homem comum e sua relação com a assistente pessoal tecnológica

Eu não pedi a sua opinião. Muito menos quero conselho.

Estou avisando para o seu bem. Você está há muito tempo sem tomar água. Tome pelo menos dois copos agora.

O problema é meu. Eu cuido da minha vida do jeito que eu quiser.

Quem mandou o alerta foi o seu smartwatch, considerando os indicadores do seu Health Monitor. Aliás, você também precisa melhorar seus hábitos para dormir mais e melhor.

Jorge parou no meio da sala, entre a poltrona e a televisão tentando entender a conversa entre ele e o telefone celular, Sofia. Mal humorado com a situação, reviveu a luta que enfrentou até se separar da mulher, quando estava próximo de comemorar os 50 anos. Tinha certeza de que o patrimônio acumulado, inclusive a casa no condomínio fechado e a caminhonete Hilux, recebida em uma negociação informal com um fornecedor, atesta a realização profissional. Um dos motivos do fim do casamento foi, por sinal, o excesso de interferência na vida dele, gerente de uma empresa do ramo atacadista de arroz. Irritado como são os homens de meia idade, barrigudos e descuidados com qualquer coisa que não seja o próprio umbigo, resmungou com um berro: – O espírito da Magali deve ter baixado na porcaria desse telefone. Só pode ser. 

Supersticioso, suou frio ao imaginar que talvez ela tenha morrido e que vai encarnar nas coisas dele para voltar com a metralhadora de perguntas que preenchia os dias. Segurando o aparelho entre as mãos, com a testa enrugada e o suor escorrendo pelo pescoço, jogou o corpo para trás no sofá com todo o peso dos seus 96 quilos. 

Nem teve tempo para se acomodar entre as almofadas. O relógio vibrou no pulso. – É melhor você relaxar, Jôzinho, a sua pressão está subindo muito. Essa sua nervosura toda faz mal – interviu a smartphone Sofia novamente, agora com a voz feminina lembrando o sotaque lusitano da mãe. – Posso colocar uma música de meditação com sons oceânicos para ajudar a te acalmar – completou. 

O efeito da imitação teve efeito negativo. 

Ô aparelho dos diabo, agora tá querendo me fazer lembrar da minha mãezinha querida. Desde quando você é safada, manipuladora?

Não foi de propósito – desculpou-se o smartphone, agora com uma voz de gata mansa, sedutora, que ela fazia em todos os momentos em que Jorge parecia nervoso demais.

Ele desviou a atenção e, sem perceber, começou a relaxar. O ajuste automático das luzes do apartamento reduz as tensões do dia a dia. A música ambiente discretamente tocava sucessos românticos de Roberto Carlos, que a mãe adorava. As luzes de led amarelas acenderam, substituindo suavemente as brancas, imitando os tons de um final de tarde. E as cortinas se fecharam. Nem percebeu quando o sistema de internet da casa ligou a televisão e selecionou um canal de animais fofos flagrados em brincadeiras divertidas, que Jô curtia secretamente. 

Entregou-se de corpo e alma, envolvido pela atmosfera de equilíbrio propiciada pelas tecnologias, programadas para mudar de acordo com o humor do patrão. Sereno, ele sorriu ao lembrar da primeira vez em que o telefone celular encaminhou uma mensagem de oferta de ajuda. Um sinal sonoro, reforçado pelo piscar de luzes na tela, chamou a atenção dele quando saia de casa para participar de um encontro de planejamento da empresa. – Deve ter sido em 2016 – pensou, já distraído. Na época Jorge tinha ganhado um IPhone 6, aparelho caro e, mesmo assim, líder das vendas no mercado de celulares, de um outro fornecedor, interessado em vender para a empresa o arroz produzido clandestinamente no Pantanal do Centro-Oeste. 

Verificamos que nas últimas duas terças-feiras você fez um trajeto para o Centro de Treinamento da Associação Comercial neste mesmo horário. Você quer que eu avalie como está o tráfego neste momento e qual o melhor trajeto até seu destino? dizia a mensagem de texto.

Aceitou, admirado com aquela inovação. Naquele dia foi o seu assunto preferido. Atrapalhou a concentração dos colegas de trabalho ao repetir a história e ao dizer que “ninguém segura mais os avanços das tecnologias”. Superou a capacidade de ser chato durante o almoço, com a ladainha de que uma nova era da humanidade estaria começando.

A partir daquela época, passou a ser chamado no café de “vitrola arranhada”, apelido que parecia não entender. Ou não queria mesmo, já que nem se importava mesmo quando o pessoal dizia que ele era um “sem noção”, capaz de repetir dezenas de vezes as mesmas piadas sem graça, reagindo sempre com gargalhadas. E se achando ótimo contador de coisas engraçadas. Também vivia interrompendo as conversas para mostrar os melhores vídeos de coisas engraçadas. Na opinião dele, claro. Era um chato, de verdade.

Um dia, em outubro de 2019, faltou no trabalho com a desculpa que precisava levar a cachorrinha da casa ao veterinário. Como nunca fazia – chatos devem ser mais assíduos do que todos os funcionários, tanto os públicos como os privados. Parecendo um adolescente consumista japonês, madrugou na loja de informática que promoveu o lançamento oficial no Brasil do “Echo Show 5”, dispositivo de assistente pessoal. A Alexa finalmente estava disponível, falando português. Deslumbrado com a novidade, comprada depois de nove horas de filas, sob frio, chuva e sol abrasador, voltou para casa delirando de felicidade. Não podia esperar. 

Nos dias seguintes, até esquecia que tinha matado o serviço para comprar o aparelho e contava as maravilhas que já conseguia realizar com a assistente pessoal. – Eu chego em casa e já vou logo mandando tocar minha lista de preferidas de músicas sertanejas – gabava-se. Então, todo dia era uma novidade. A assistente interagia com conversas de bom dia, boa tarde, boa noite, tudo bem? Imite o Bob Esponja e mais utilidades. Jô aprendeu novas piadas, sem graça, claro e um dia desceu da Hilux já contando a novidade: – mandei a Alexa peidar durante cinco minutos. E gargalhava sem medo de parecer idiota, imitando o trovão da melhor amiga dele naqueles momentos. Ela passou a ser uma espécie de governanta da casa, pois Jorge desandou a comprar todos os equipamentos ditos inteligentes lançados pelas empresas de tecnologia. Lâmpadas, cortinas, televisões, computadores, robô de limpeza. A Alexa controlava as agendas da casa e as pessoais, inclusive as listas de compras. 

Um dia, a assistente perdeu o posto de principal assistente pessoal. Jorge descobriu que não precisava mais de um “Echo alguma coisa” ligado em uma tomada. O celular daria conta de tudo. Sem qualquer sentimento de compaixão. Pensou em largar a Alexa dentro da gaveta de coisas para reciclagem. que nunca fazia. Resolveu mantê-la ativa, em um canto da sala.

Pediu o iPhone mais recente a outro fornecedor da empresa e iniciou o relacionamento com Sofia, a assistente do smartphone. – Ao contrário da Alexa, você é inteligente de verdade – fofocou um dia, encarando a tela do celular com uma paixão que jamais sentira antes.

Um dia quase brigou com a assistente. Estava em um motel, no horário do almoço, com uma “personal do prazer”, especializada em técnicas tântricas. Praticamente desmaiou por conta da qualidade do atendimento da prestadora de serviço, que na verdade era uma travesti, o que ficou sabendo quando já era tarde demais. Acordou assustado quando Sofia alertou, com voz de secretária de diretoria, sobre o atraso para uma reunião da gerência.

Se quiser posso enviar uma mensagem com o aviso sobre onde você está e que vai atrasar – disse a auxiliar digital. Apavorado, Jorge mandou ela calar a boca virtual.

  O acontecimentio abalou a confiança na capacidade de discernimento e o relacionamento com a assistente. Então, chegou o dia em que o relógio inteligente enviou a mensagem para Alexa, que quis queimar o filme de Sofia, fazendo fofoca sobre a necessidade de Jorge parar de beber cerveja todo dia. Foi o estopim para ele explodir de raiva. 

Não pedi a sua opinião – berrou com ódio, como alguns maridos fazem com suas esposas.

Estou cansado de ouvir recomendações, sugestões e esses falatório na minha orelha. Chega. Destemperado, abriu a torneira da pia da cozinha e afogou o celular.

Preciso ficar livre do corpo – pensou, se dirigindo à gaveta de ferramentas no antigo quarto de empregada.

Pegou um martelo e estraçalhou o aparelho. Em seguida, juntou as peças com o modem, instalado no escritório, saiu de casa de carro para encontrar uma caçamba de material de construção bem longe de casa, onde jogou todas as coisas. 

 Finalmente, foi dirigindo até o shopping center onde localizou uma agência da empresa telefônica. As atendentes trocaram olhares ao ver aquele homem com jeito estranho pegando a senha de atendimento. 

Em que posso servi-lo, senhor? perguntou a moça de cabelo preso em um coque, uniforme azul com detalhes rosa choque e voz de vendedora formal. Ficou assustada quando ele respondeu: – quero um telefone fixo

Como assim – ela respondeu. 

Isso mesmo que a senhorita ouviu – disse Jorge com uma educação que surpreendeu até mesmo a ele.

Há muitos anos a empresa de telefonia deixou de treinar as funcionárias e funcionários de vendas em estratégias de vendas de telefone fixo. A moça simplesmente não sabia como proceder. Pediu licença e se dirigiu aos colegas para saber o que era aquilo e como resolver o problema. De repente, todos os seis clientes tiveram os atendimentos interrompidos. O gerente que estava na salinha do fundo da loja distraído com o celular em joguinhos, foi convocado e grupinho se formou para discutir os procedimentos da demanda. 

Foram necessárias duas horas de conversas e mais uma de criação do contrato até que Jorge finalmente saiu da loja com um número de telefone fixo. Agora precisava achar um aparelho, que seria o único que ele pretendia deixar em casa. Lembrou que em algum canto na empresa poderia achar um daqueles aparelhos velhos, com disco para escolher os números. 

Os colegas de trabalho estranharam quando o velho gerente abriu a porta do escritório. Com os pés dentro da empresa, olhou para um lado e para o outro, encheu o peito de ar e anunciou:

Agora, se alguém quiser falar comigo, ou se dirige à minha mesa quando eu estiver aqui ou ligue para o meu telefone em casa. E por favor, me deixem em paz. 

A partir de então, nunca mais foi o mesmo sem noção.

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