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Quando as imagens não servem mais para provar as verdades

A evolução das fakenews, falsificações da realidade, elimina a credibilidade da crença de que imagens são testemunhas dos acontecimentos

CARLOS PLÁCIDO TEIXEIRA

 Exatamente dois séculos depois da primeira revelação fotográfica, assistimos entre assustados, conformados e alienados o falecimento do ditado “uma imagem vale por mil palavras”. Sua utilidade foi inegável. Durante décadas, usamos a frase para expressar a crença de que o registro de alguma coisa ou um acontecimento em uma foto ou vídeo representa uma verdade mais crível do que qualquer testemunho falado. Não havia contestação possível, pelo menos por pessoas normais.

Negacionistas sempre existiram, é verdade. Assim como as tentativas de falsificação de imagens e as verdades contidas nelas, que podiam ser desmascaradas com alguma facilidade. Como demonstrações sobre a existência de discos voadores. Ratificando, certas coisas só podem ter existência real quando há algum registro visual. Cabeça de bacalhau existe? Muita gente duvida porque nunca viu uma. 

Em 1826, a primeira impressão de imagem foi feita pelo francês Joseph Niépce. Também franceses, os irmãos Auguste e Louis Lumière são reconhecidos como os criadores da primeira exibição pública de cinema em 28 de dezembro de 1895, utilizando o cinematógrafo desenvolvido por eles para filmar cenas cotidianas, apresentadas como “A Saída dos Operários da Fábrica Lumière”. Antes das novidades, as pessoas podiam acreditar em qualquer mentira, desde que bem contada.

Soubemos que a Terra é azul e redonda graças às fotografias, as mesmas que também confirmam a nossa existência e por onde andamos no mundo. Posso provar que estive nas férias em Porto de Galinhas, no Pernambuco, há três anos. Mas posso parecer um mentiroso se disser que estive no carnaval de Olinda em 1987. Ou mesmo em Oriximiná, no interior do Pará. Não tenho como provar.

Como sabemos, fotos e filmes testemunham a história de fatos e acontecimentos positivos e negativos. Tanto relevâncias quanto irrelevâncias, como o casamento de alguns famosos na Ilha de Caras. Comprovamos atos de bondade, mas também de maldade. Por exemplo, os crimes de guerras, como os cometidos pelos Estados Unidos ao lançar bombas atômicas no Japão e no Vietnã, que mataram milhões de civis. Revelam os genocídios praticados na Europa por Hitler, na África pelos europeus e em Gaza, agora mesmo em Israel. 

Agora, vivemos a “era do fakenews”. A combinação da inteligência artificial com a ignorância humana pode matar a credibilidade das imagens estáticas e dinâmicas e, por consequência, do velho ditado popular. Aplicativos usam as tecnologias de transformação de pessoas e eventos reais em falsificação da realidade. Qualquer imbecil, em especial os mal intencionados, pode criar uma ilustração em que um Donald Trump seja convertido de aloprado presidente dos Estados Unidos em um messias salvador da humanidade. 

Graças à disseminação das tecnologias, somos alvo, desde já, de um tsunami de informações falsificadas. Até mesmo a fofoca, instituição tradicional nos ambientes familiares e de trabalho, deixará de ser disseminada no banheiro ou no espaço do cafezinho. Um dia, Roberto, perde o emprego de chefe de almoxarifado exatamente no momento em que estava preparando um discurso para receber a promoção para o departamento de compras por merecimento e tempo de casa.

Desempregado, recebe o vídeo que levou à demissão. Nele, aparece falando mal de todos os seus colegas e, principalmente, do dono da empresa. Pura montagem com imagens e áudio que deixam até mesmo o próprio Roberto e a esposa em dúvida se não teria sido uma gravação de verdade.

Agora mesmo, candidatos a cargos legislativos e do Executivo estão criando equipes capacitadas para produzir conteúdos favoráveis e as fakenews, para queimar o filme dos seus opositores. No seu Estado, o ex-governador saiu do cargo com o objetivo de disputar uma cadeira no Senado e pode ter uma equipe contratada. Por acaso, os eleitores começam a receber vídeos em que os adversários surgem consumindo fileiras de pó, pulando cerca em orgias, escondendo dinheiro na cueca e andando em carro dourado em Dubai, acendendo charuto com notas de cem dólares. Outros vídeos mostram o candidato em cultos religiosos, sendo batizado no rio Jordão e vestido com as roupas da humildade de Gandhi, convivendo com pobres. Tudo mais falso que promessa de congressistas do Centrão. Todo conteúdo pode ser manipulado. 

A grande novidade, a mais relevante a ser considerada, até mesmo pelos seus parentes que rezavam para pneus em acampamentos diante de quartéis, é que o excesso de imagens falsas tende a ser o remédio contra o mal que ele mesmo causa. É excesso de otimismo? Pode ser que sim. Porém, vale imaginar que  chegará um momento em que todas as pessoas duvidam de tudo. Talvez, então, se tivermos sobrevivido à ignorância dos tempos, a verdade será resgatada como prioridade humana.

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