fila de pessoas buscando empregos em são paulo. 
Foto: agencia brasil
Foto: Agência Brasil

Saiba porque os argumentos otimistas sobre o futuro da oferta de empregos não se sustentam

Carlos Plácido Teixeira
Jornalista I Radar do Futuro

Contra a corrente otimista dos evangelizadores de um mundo melhor, a minha percepção ao olhar para o horizonte dos mercados de trabalho os próximos anos é, diria, bem mais pessimista. Não quero ser o chato, o estraga prazeres ou o mal humorado da turma. Apenas considero que, se você deseja entender o futuro, não siga os ilusionistas, nem os iludidos. Precisamos ser otimistas, sim. Mas um pouco de senso de realidade também é bom.

Por que não serão criadas vagas de empregos suficientes para reduzir os efeitos da eliminação? Primeiro, os mesmos ilusionistas entram em contradição ao anunciar que não teremos empregos no futuro, mas trabalhos. Estes serão necessários inclusive para que o próprio capitalismo se mantenha. Perceba a contradição: o futuro é das atividades remuneradas sem vínculos “de carteira assinada”, em português objetivo. Logo, a expectativa é de que você, formado no que for, tenderá a ser uma “pessoa jurídica” ou autônomo, empreendedor ou simplesmente um informal. Sem acesso a direitos, férias remuneradas, fundo de garantia ou qualquer outra garantia.

Então, a conclusão é de que poderemos ter mais “vagas de trabalho”, sim. Mas não “vagas de emprego”. Ficou claro? A não ser, claro, que sua profissão seja relacionada, em determinado momentos e condições específicas, com escassez. Tipo assim: um desenvolvedor de algo com poucos especialistas e que, portanto, falte no mercado. Este poderá ter uma carteira assinada. Ou condições de pessoa jurídica em condições bem vantajosas. Mas também podendo lidar com a precariedade das relações.

Um parênteses importante: emprego e trabalho são coisas diferentes e há muito texto gerador de confusões. Uma questão raramente ressaltada no discurso dos evangelizadores da alienação. Emprego diz respeito à formalização das relações entre detentores de um negócio ou atividade e um prestador de serviços, vendedor de sua mão de obra. Pressupõe um contrato, carteira de trabalho, condições acordadas, horário de trabalho, presença comprovada. Trabalho, aqui, se relaciona com qualquer atividade de produção para terceiros, sem as garantias de uma relação formal.

A informalização e precarização são tendências globais, como efeito do esvaziamento do conceito de Estado como intermediário de forças desiguais. No mundo, o poder econômico se impõe na desregulamentação de atividades e profissões e do relacionamento com os trabalhadores. A legislação e a ideologia predominante favorecem a terceirização, contratações por hora ou por projetos. Em países periféricos, com baixa sofisticação produtiva, como o Brasil, a desindustrialização e a dependência de áreas de agronegócios, comércio e serviços, a predominância de atividades informais e mal remuneradas tende a ser ainda mais acentuada.

A revolução é digital

Outra confusão comum, propagada pelos otimistas do futuro do mercado de trabalho, envolve a realização de projeções lineares. “Nas etapas anteriores da Revolução Industrial, o desenvolvimento de novas máquinas gerou mais empregos”, dizem. Na realidade, o argumento leva em conta uma continuidade do movimento iniciado com o desenvolvimento das primeiras máquinas a vapor, construídas na Inglaterra durante o século XVIII, que viabilizam o aumento da produção de mercadorias. Cada inovação criada para a indústria levava à criação de novos empregos. Inclusive de novos trabalhadores responsáveis pelo acionamento de botões.

Hoje, é possível imaginar máquinas completamente automatizadas. No futuro, talvez sequer seja necessário alguém para ligar um fio na tomada para que a máquina funcione. E aí reside uma diferença fundamental. A revolução atual é isso mesmo, uma revolução, disruptiva por definição. Enquanto a era anterior tinha a marca do analógico, dos equipamentos físicos, mecânicos. O momento agora tem a marca da digitalização: a revolução é digital. Máquinas do passado precisavam de gente para apertar botões. As de hoje demandam programadores. Um processo que possibilita, pelo menos em tese, uma fábrica “100% free” de funcionários empregados.

Talvez alguns prestadores de serviços sejam mantidos, assim como supervisores de alta qualificação, responsáveis mais pelos negócios do que pelo chão de fábrica propriamente. O que leva a outro argumento contra o otimismo e otimistas. Tais funcionários – prestadores de serviços — podem, já hoje, desempenhar suas funções a distância. A tecnologia favorece o desempenho de tarefas remotamente. Em mineradoras, apenas um funcionário é capaz de administrar vários caminhões de grande porte usando, como interface, vídeos instalados em centrais.

Não há como a inteligência artificial criar oportunidades capazes de compensar todos os cortes que serão gerados pelo seu caminho. Ao contrário, imagino que sistemas inteligentes serão capazes de eliminar, com o tempo, funções que ela mesma cria. É a lógica de um conceito que tem dentro dela mesma um segmento chamado de “machine learning”. Ou seja, aprendizado de máquina. Até mesmo os tecnólogos podem correr riscos no futuro.

Apenas para ilustrar como o processo autofágico da tecnologia ocorre, temos pelo menos um exemplo. Na área de desenvolvimento da internet, por volta do ano 2000 cada novo site criado demandava a participação de programadores, com especialidades, por exemplo, em linguagem de marcação de hipertexto (HTML, da sigla em inglês), utilizada como marcação para desenvolver páginas e documentos eletrônicos. Hoje, sistemas de gerenciamento de conteúdo (CMS, do inglês), possibilitam a construção de sites rapidamente, sem qualquer intervenção dos seus criadores, os tecnólogos.

Rotina: alvo prioritário

Leve em consideração que máquinas são criadas para isso mesmo, aumentar a produtividade. Como jornalista especializado em cobertura de economia, negócios e finanças, sempre tive a impressão de que empresários só têm orgulho do número de empregos criados quando anunciam novos investimentos. No mundo real, podemos chamar isso de “conversa para boi dormir”. A matéria “Futuro do trabalho: a agenda oculta das elites“, publicada pelo Radar do Futuro em janeiro de 2019, com base em informações da The New York Times Magazine, comprovou a diferença entre discursos públicos e privados durante o encontro anual do Fórum Econômico Mundial.

“Sim, as principais lideranças empresariais do mundo desejam eliminar empregos, ao contrário do que dizem em ambientes públicos, onde demonstram preocupação com os impactos da automação e da inteligência artificial. Nas rodas de conversas privadas, os altos executivos deixam claro que o corte de trabalhadores é prioridade nas metas das organizações”, diz o texto. Kevin Roose, colunista da revista, assegura que eles nunca admitem isso em público. “Mas muitos dos seus chefes querem que as máquinas substituam você o mais rápido possível.”

Na época, um relatório do Fórum Econômico Mundial estimava que, dos 1,37 milhão de trabalhadores projetados para serem totalmente deslocados pela automação na década de 2020, apenas um em cada quatro pode ser lucrativamente reutilizado por programas do setor privado. O resto, presumivelmente, precisará se defender sozinho ou depender da ajuda do governo. “A escolha não é entre automação e não-automação”, disse Erik Brynjolfsson, diretor da Iniciativa sobre a Economia Digital do MIT. “É entre usar a tecnologia de uma maneira que crie prosperidade compartilhada ou mais concentração de riqueza.”

No cenário de decisões que levam em conta, acima de tudo, os acionistas e os interesses do sistema financeiro, é bastante razoável repetir a percepção de que tudo o que puder ser automatizado, robotizado ou digitalizado, será. Aí reside novo argumento sobre a capacidade de criação de empregos que compense as perdas. Rotinas são o alvo prioritário das companhias de todos os setores, interessadas em assegurar aumento da produtividade e, consequentemente, de ganhos.

Caixas de supermercados, vendedores de lojas, faxineiras, porteiros, assistentes administrativos, motoristas de caminhão e operadores de máquinas estão, neste momento tendo suas atividades descritas em operadores de ‘se/então’ e digitalizados, o que vai possibilitar a substituição por sistemas. O tamanho do impacto é enorme. Dez profissões representam quase 30% dos empregos formais no Brasil. São mais de 10 milhões de pessoas em postos de trabalho com maior risco de extinção nos próximos anos.

Mesmo que todos se qualifiquem para buscar oportunidades em novas funções, em um cenário em que a economia anda a passos lentos e há ausência de investimentos públicos e privados, as perspectivas de criação de emprego são as piores possíveis. Mesmo em setores de profissões médias e de nível superior. Cada vez mais, ser otimista com a capacidade de criação de empregos no futuro será uma tolice caso não ocorra uma mudança de mentalidade do sistema.

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