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Futuro da Enfermagem: presente e futuro da profissão

Entre o reconhecimento e a realidade: lutas, avanços e desafios da força de trabalho em enfermagem no Brasil

Hercules de Oliveira Carmo e André Almeida de Moura, professores da Escola de Enfermagem da USP e líderes do Grupo de Pesquisa em Gestão e Força de Trabalho em Saúde e Enfermagem, e outros autores*

Hercules de Oliveira Carmo – Foto: Arquivo pessoal

O Dia da Enfermagem,, celebrado em 12 de maio, campanhas internacionais e mobilizações nacionais colocam em evidência o reconhecimento de uma profissão essencial para o funcionamento dos sistemas de saúde e para o atendimento das necessidades de saúde da população. No entanto, para além das homenagens e do simbolismo que marcam a data, a enfermagem brasileira revela um cenário mais complexo, no qual se entrelaçam lutas históricas, avanços importantes e desafios persistentes relacionados à força de trabalho no País, especialmente após a visibilidade alcançada durante a pandemia de covid-19.

No cenário global, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) têm reiterado o papel estratégico da enfermagem para o alcance da cobertura universal de saúde e para a sustentabilidade dos sistemas de cuidado. Os profissionais de enfermagem constituem o maior contingente da força de trabalho em saúde e atuam em todas as etapas do cuidado, da promoção à reabilitação em saúde. Ainda assim, a escassez de profissionais, a distribuição desigual e as condições de trabalho adversas seguem como desafios estruturais que comprometem a qualidade da assistência e ampliam desigualdades em saúde.

Camilla Pastorelli – Foto: Arquivo pessoal

Nesse contexto, o Conselho Internacional de Enfermeiros (ICN) lança, em 2026, a campanha “Nossos Enfermeiros. Nosso Futuro. Enfermeiros Empoderados Salvam Vidas”, reforçando que o fortalecimento da enfermagem passa, necessariamente, pela garantia de ambientes de trabalho seguros, autonomia profissional e participação nos processos decisórios. Mais do que reconhecimento simbólico, o tema explicita a necessidade de mudanças estruturais para que a enfermagem possa exercer plenamente seu potencial na proteção da vida e no enfrentamento de crises globais, como as mudanças climáticas, os conflitos e o aumento da demanda por cuidados.

No Brasil, o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) também contribui para esse debate ao definir, para a Semana da Enfermagem de 2026, o tema Técnica, Ética e Política: pilares inegociáveis do cuidado de enfermagem. A proposta reforça que o exercício profissional não se sustenta apenas na dimensão técnica, mas exige compromisso ético e posicionamento político diante das condições concretas de trabalho e das necessidades de saúde da população. Ao destacar esses três pilares, o Cofen chama atenção para a importância da qualificação profissional, da responsabilidade no cuidado e da participação ativa da enfermagem na defesa do Sistema Único de Saúde (SUS) e na formulação de políticas públicas (Cofen, 2025).

Andreia Silva Oliveira Simeão – Foto: Arquivo pessoal

87ª Semana Brasileira de Enfermagem, promovida pela Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), reforça essa agenda ao adotar o tema ABEn 100 anos: lutas, avanços e perspectivas. Realizada entre os dias 12 e 20 de maio, a Semana se consolida como um dos principais espaços de mobilização e reflexão da categoria, destacando a trajetória da enfermagem como marcada por resistências, conquistas e pela defesa do trabalho digno, da formação crítica e do fortalecimento das organizações profissionais.

Se, por um lado, as agendas global e nacional apontam para o reconhecimento e a valorização da enfermagem, por outro, os dados recentes evidenciam um conjunto de desafios estruturais que tensionam essa realidade. No mundo, a força de trabalho em enfermagem cresceu nos últimos anos, mas de forma desigual entre regiões: estima-se que cerca de 78% dos profissionais estejam concentrados em países que abrigam menos da metade da população mundial, enquanto se projeta uma escassez de milhões de enfermeiros até 2030. Esse cenário coloca em risco a sustentabilidade dos sistemas de saúde.

No Brasil, a enfermagem reúne mais de três milhões de profissionais e desempenha um papel central no funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS). Embora tenha havido expansão dos postos de trabalho de enfermagem em todos os níveis de atenção à saúde, especialmente na atenção hospitalar e na atenção primária, persistem desigualdades regionais significativas, com maior concentração de profissionais nas regiões mais desenvolvidas do País. Além disso, observa-se a coexistência de múltiplos vínculos de trabalho, jornadas extensas e condições frequentemente marcadas por sobrecarga, baixa remuneração e insegurança no trabalho.

André Almeida de Moura – Foto: Arquivo pessoal

A estrutura da força de trabalho também evidencia transformações importantes, como o aumento da qualificação profissional e a redução gradual da participação de auxiliares de enfermagem. No entanto, esse processo convive com desafios relacionados à precarização das relações de trabalho, à expansão acelerada da formação, especialmente na modalidade a distância, e às dificuldades de regulação da qualidade do ensino.

Outro aspecto central refere-se às condições de trabalho e à proteção dos profissionais. A violência no ambiente de trabalho, o adoecimento físico e mental e a exposição a riscos ocupacionais permanecem como problemas recorrentes, agravados pela insuficiência de recursos e pela intensificação do trabalho. Soma-se a isso o fato de a enfermagem ser uma profissão majoritariamente feminina, o que evidencia a necessidade de uma análise interseccional que considere as desigualdades de gênero e raça presentes no mundo do trabalho em saúde. Esses elementos têm implicações diretas para o cuidado em saúde.

Dayana Carneiro – Foto: Arquivo pessoal

Evidências mostram que níveis inadequados de pessoal de enfermagem estão associados ao aumento da mortalidade, à ocorrência de eventos adversos e à redução da qualidade assistencial. Além disso, a sobrecarga e a insatisfação profissional impactam a retenção de trabalhadores e a sustentabilidade dos serviços de saúde, que dependem fortemente da atuação da enfermagem para garantir acesso e continuidade do cuidado.

Necessidade de políticas públicas

Diante desse cenário, torna-se evidente que a valorização da enfermagem não pode se restringir ao reconhecimento simbólico. É necessário avançar na formulação e implementação de políticas públicas que assegurem condições dignas de trabalho, dimensionamento adequado de pessoal, remuneração justa e oportunidades de desenvolvimento profissional. O fortalecimento da liderança em enfermagem e a participação desses profissionais nos espaços de decisão também são fundamentais para a construção de sistemas de saúde mais equitativos e resilientes.

Entre o reconhecimento e a realidade, a enfermagem brasileira segue em movimento, impulsionada por lutas históricas e contemporâneas que expressam a busca por valorização e condições dignas de trabalho. Entre as principais pautas, destaca-se a efetiva implementação do piso salarial nacional, instituído pela Lei nº 14.434/2022, ainda marcada por desafios no financiamento, tensões institucionais e insegurança para os trabalhadores. Complementarmente, há a reivindicação da categoria profissional por uma jornada de 30 horas semanais, entendida como condição essencial para reduzir a sobrecarga e garantir descanso adequado diante de rotinas intensas e múltiplos vínculos.

As lutas também se estendem às condições de trabalho e à segurança dos profissionais, com denúncias recorrentes de precarização, assédio moral, violência nos serviços de saúde e insuficiência de recursos. Nesse cenário, ganha relevância a defesa da autonomia técnica da enfermagem e o fortalecimento das entidades representativas (associações, sindicatos e conselhos profissionais) na garantia de direitos, na regulação ética do exercício profissional e na construção de uma agenda coletiva para o futuro da profissão.

Nesse campo, iniciativas acadêmicas e científicas desempenham papel estratégico. O Grupo de Pesquisa em Gestão e Força de Trabalho em Saúde e Enfermagem (Geforte), da Escola de Enfermagem da USP, liderado pelos professores Dr. André Almeida de Moura e Dr. Hercules de Oliveira Carmo, tem contribuído para a produção de conhecimento sobre as dinâmicas, os desafios e as potencialidades da força de trabalho em enfermagem. Estudo recente, como a publicação Demografia e Mercado de Trabalho em Enfermagem no Brasil, coordenada pelo Ministério da Saúde e com a participação dos líderes do Geforte e de outras instituições nacionais, oferece evidências para subsidiar políticas públicas e orientar a gestão do trabalho em saúde.

Mais do que celebrar, o Dia da Enfermagem convida à reflexão e à ação. Reconhecer a enfermagem implica enfrentar, de forma concreta, os desafios que atravessam o seu cotidiano de trabalho. Valorizar quem cuida é condição indispensável para garantir sistemas de saúde mais seguros, equitativos e sustentáveis e, sobretudo, para assegurar o direito à saúde da população.

* Camilla Ferrari Pastorelli, Andreia Silva Oliveira Simeão e Dayana Carneiro dos Santos, são membros do Grupo de Pesquisa em Gestão e Força de Trabalho em Saúde e Enfermagem


(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)


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