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O que fazer quando as profissões morrem?


Em reportagem da Rádio UFMG Educativa, especialistas indicam caminhos para trabalhadores enfrentarem as mudanças sociais e tecnológicas que provocam o fim de suas ocupações

Ruleandson do Carmo
Rádio UFMG

Cerca de 30% dos empregos serão afetados negativamente pela Inteligência Artificial (IA) em países de baixa renda, como o Brasil, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Além da IA, outras mudanças sociais e tecnológicas também têm provocado o fim de diversas ocupações.

Uma delas é a atividade de cobrador de ônibus: há cerca de 15 anos, diversas linhas metropolitanas em todo o Brasil iniciaram a substituição de trabalhadores encarregados de cobrar as passagens por catracas automáticas, com pagamento feito por cartões pré-pagos. Em Belo Horizonte, a motorista de caminhão Valéria Theodoro foi uma das pessoas que perderam, em 2010, o emprego de trocadora. “A empresa avisou com anos de antecedência que a nossa profissão acabaria e nos deu a opção de fazer um curso, custeado pela organização, para tirarmos a carteira de motorista de ônibus e continuarmos empregados. Assim, eu me qualifiquei e me tornei motorista de ônibus e, depois, de caminhão, que é a minha atual profissão”, explica.

De acordo com o professor Jorge Alexandre Neves, da linha de pesquisa Economias, Organizações e Desigualdades do Programa de Pós-graduação em Sociologia (PPGS) da UFMG, as mudanças e os avanços tecnológicos são os principais responsáveis pelo fim das profissões. “No entanto, a tecnologia traz uma questão dialética, porque o desenvolvimento tecnológico também permite que a gente trabalhe menos, com menos esforço e ocupando menos tempo. A questão não é se opor à tecnologia, mas encontrar um equilíbrio, permitindo às pessoas se qualificarem e ocuparem novas posições”, defende Neves.

O pesquisador ressalta, ainda, a importância da tecnologia e da automação de determinadas tarefas para conquistas trabalhistas, como o fim da escala 6×1, em discussão no Congresso Nacional, e a implementação de escalas como a 5×2 ou a 4×3. “Temos visto um grande aumento de discursos em defesa da família no Brasil. Permitir que as pessoas trabalhem menos é uma das principais formas de garantir tempo de qualidade em família. Se adotada de forma equilibrada, a tecnologia pode contribuir para isso”, explica Neves.

Quando a sociedade muda, as profissões mudam

Há três décadas, pesquisadores do Núcleo de Estudos sobre as Transformações no Mundo do Trabalho (TMT), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), dedicam-se a investigar e entender as modificações pelas quais as profissões passam. Professora aposentada da UFSC e integrante do TMT, Bernadete Wrubleviski reconhece a importância da tecnologia para extinguir ocupações, mas defende a ideia de que são as mudanças sociais que mais impactam esse cenário.

“O fim da escravização de pessoas no Brasil é resultado de um movimento social que não aceitava mais pessoas sendo escravizadas, o que levou ao fim de ocupações dedicadas ao tráfico de pessoas. Quando as pessoas passam a desejar comprar roupas prontas e têm a opção de, horas antes de uma festa ou de um evento, comprar roupas de pronta-entrega, em vez de esperarem dias ou semanas para que alguém tire as medidas e produza peças para elas, a profissão de alfaiate começa a perder importância.”

Em Belo Horizonte, uma mudança social no entendimento sobre o bem-estar animal levou ao fim de uma ocupação: o trabalho de carroceiro com tração animal está proibido na capital mineira devido à Lei 11.611/2023, em vigor desde o fim de janeiro. Se antes era socialmente aceito um cavalo ter as patas perfuradas por ferraduras e, sob o sol, durante horas, carregar e puxar entulhos e cargas com peso muito superior ao próprio peso, sob chicotadas, o entendimento social hoje, a partir dos avanços da medicina veterinária, é de que a prática configura maus-tratos, conforme avaliação da Subsecretaria de Bem-Estar Animal da Prefeitura de Belo Horizonte.

Por isso, as tradicionais carroças estão sendo substituídas por carros elétricos, veículos que também são fruto de uma mudança social e tecnológica e impactam positivamente o meio ambiente, devido à diminuição da poluição provocada por veículos movidos a combustíveis fósseis.

Os impactos da Inteligência Artificial

Nas postagens em redes sociais e nas conversas informais entre trabalhadores, a Inteligência Artificial tem ocupado grande espaço e se tornado uma “vilã”, em especial pelo medo de que substitua vagas de emprego. Os dados apontam que o receio pode, sim, se justificar. Segundo estudo da Organização Internacional do Trabalho, 25% das vagas de emprego em todo o mundo serão negativamente afetadas pela Inteligência Artificial, em especial a IA generativa, aquela capaz de produzir conteúdos, como textos e imagens (estáticas ou em movimento), popularizada por ferramentas como o ChatGPT e similares.

Para o presidente da Sociedade Internacional de Inteligência Artificial na Educação, o professor do Instituto de Ciências da Matemática e da Computação da Universidade de São Paulo Seiji Isotani, a IA provoca dois movimentos em relação às vagas de emprego: “A Inteligência Artificial está, sim, provocando demissões e extinguindo algumas ocupações, como as que podem ser substituídas por automação. Já estamos vendo grandes companhias tecnológicas em todo o mundo demitindo milhares de pessoas por isso. Mas, ao mesmo tempo, a IA também cria carreiras e oportunidades, especialmente para a construção de novos processos dentro das organizações. Portanto, pessoas que conseguem desenhar processos e decidir o que será automatizado ou não vão se destacar no mercado”, projeta. Além disso, Seiji acredita que a IA pode proporcionar um modelo social em que as pessoas tenham mais tempo livre, assim como acredita o professor do PPGS da UFMG, Jorge Alexandre Neves.

Como se preparar para o presente e o futuro

Os especialistas ouvidos pela reportagem concordam que cabe ao poder público investir na capacitação da mão de obra brasileira para o uso qualificado da Inteligência Artificial, para que as pessoas não percam empregos. Eles também indicam outros caminhos, mais autônomos. Segundo a pesquisadora Bernadete Wrubleviski, “a classe trabalhadora deve se unir e usar a criatividade para criar novas ocupações, novas atividades e, conjuntamente, traçar estratégias de sobrevivência no mercado de trabalho”.

O presidente da Sociedade Internacional de Inteligência Artificial na Educação, Seiji Isotani, concorda e acrescenta: “É hora de testar, abrir o computador e o celular e brincar com a Inteligência Artificial generativa, ver o que se consegue fazer com ela, automatizar o trabalho e capacitar-se para saber usar as novas tecnologias”. Tudo isso, tranquiliza o professor da Universidade de São Paulo, sem desespero: “Sim, a Inteligência Artificial generativa consegue produzir conteúdos e entregar resultados mais rapidamente do que a mente humana, mas o que ela entrega é mediano. Só o ser humano tem a capacidade de entregar com excelência, e está aí o nosso diferencial”, finaliza.

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