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O tráfico de escravizados africanos foi ‘o crime mais grave contra a humanidade’, diz a ONU

O passado resiste: resolução aprovada em assembleia da ONU teve votos contrários dos EUA, Israel e Argentina e abstenções de países europeus como Reino Unido, Espanha e Portugal

Seria um contecimento histórico, capaz de criar alguma esperança sobre avanços civilizatórios. A Organização das Nações Unidas (ONU) definiu, na quarta-feira, dia 25, o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas da África como o mais grave crime registrado por países contra a humanidade. Apoiada por 123 países, inclusive pelo Brasil, a resolução apresentada por Gana recebeu 52 abstenções. Entre os indecisos, grande parte é de países europeus, inclusive Reino Unido, Espanha e Portugal, que sustentaram séculos de tráfico negreiro. Três países votaram contra: Estados Unidos, Israel e Argentina. Três patrocinadores dos avanços de movimentos de extrema direita, que rejeitam qualquer hipótese de construção de um mundo com maior equilíbrio econômico e justiça social.

Os mesmos EUA que se envolvem em guerras sucessivas pelo menos desde a segunda guerra mundial, firmaram a posição contrária ao reconhecimento de que 12,5 milhões de pessoas foram capturadas e vendidas como produtos da escravidão nas Américas. O embaixador dos EUA na sessão da ONU, Dan Negrea, afirmou que seu país se opõe ao “uso cínico de injustiças históricas como moeda de troca”. A tese, compartilhada com os europeus, é de “tanto os países da União Europeia quanto os Estados Unidos votaram contra porque a resolução poder implicar uma hierarquia entre crimes contra a humanidade, tratando alguns como mais graves do que outros.

Durante a votação, o presidente do país africano, John Dramani Mahama, acusou os Estados Unidos e europeus que se opuseram à medida de tentar “normalizar o apagamento da história da população”. A medida abre o caminho legal para que governos e grupos inteiros articulem pedidos de reparação e movimentos para debater uma nova relação entre ex-colônias e países europeus. Além do reconhecimento do crime, a resolução pede que governos considerem pedir desculpas pelo tráfico de escravos e que contribuam para um eventual fundo de reparações.

A questão financeira é um dos principais obstáculos do debate diante da rejeição dos europeus de se comprometer com qualquer erro do passado. O governo de Gana, porém, insiste que o dinheiro iria para fundos educacionais e outros mecanismos de compensação. A medida foi comemorada pelo movimento negro brasileiro, que recebeu apoio do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

A aprovação e a rejeição da medida pela comunidade formada por países que exerceram o poder de roubar e matar durante séculos de colonização, tudo por dinheiro, sinalizam a resistência dos grupos econômicos e políticos a iniciativas que tenham como objetivo alcançar avanços civilizatórios. O genocídio de Israel em Gaza não foi interrompido pela ação contrária dos governantes. Foi a conclusão da limpeza do terreno. Os Estados Unidos só vão interromper a agressão ao Irã porque os interesses de grupos econômicos estão sendo afetados com o aumento dos preços do petróleo. Sem resistência popular, em defesa da paz e contra toda forma de guerra, a barbárie venceu, vence e vencerá.

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