Cenário global em 2020: as incertezas favorecem a instabilidade

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No cenário geopolítico, os acontecimentos giram em torno da capacidade dos Estados Unidos, agora sob Donal Trump, gerarem instabilidades frequentes. Foto: Pixabay
No cenário geopolítico, os acontecimentos giram em torno da capacidade dos Estados Unidos, agora sob Donal Trump, gerarem instabilidades frequentes. Foto: Pixabay

Carlos Teixeira
Editor I Radar do Futuro

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mantém, em 2020, a cadeira de personagem central da história do planeta. Onde deve continuar nos anos seguintes, caso consiga a recondução nas eleições que serão realizadas em 3 de novembro. O republicano é o arranjador de encrencas, disseminador de intrigas e crises por todos os cantos, no jogo das forças e interesses globais, com o determinante apoio de militares e setores empresariais, como indústria de armas e de petróleo. E a garantia de que o ano será marcado por incertezas econômicas e políticas, acima de tudo.

Há uma certa unanimidade, entre analistas, sobre as chances de confirmação da previsão nebulosa no cenário geopolítico. “O ano de 2020 não terá carência de situações tensas, dramáticas”, define Daniel Franklin, editor da publicação anual sobre perspectivas globais da revista The Economist. A edição de “O Mundo em 2020” e outras consultorias reiteram a avaliação. Para a empresa de aconselhamento de investimentos Global X, “a incerteza é a única certeza” em relação às expectativas para o próximo ano.

Ao propor uma lista das grandes tendências, o jornalista da The Economist avalia que o ano será marcado pela “hora do julgamento” de políticos e políticas adotadas pelo mundo. Um fenômeno duplamente verdadeiro para o presidente Donald Trump: primeiro no Congresso, com o desejo dos democratas de removê-lo do cargo (o Senado controlado pelos republicanos o salvará), depois em uma eleição febril em novembro.

Para Daniel Franklin, o resultado do julgamento pelos eleitores será negativo: “A inteligência artificial que consultamos considera que Trump perderá”, prevê. Será o preço a pagar pela plantação geral de instabilidades. No final das contas, sob a influência do império que perde a força, mas que tenta resistir como líder global da economia e da política, a negatividade é ascendente.

Conflitos na agenda

No mesmo ambiente da guerra comercial entre Estados Unidos e China, o pessimismo é tão negativo que há o receio quanto aos resultados da revisão quinquenal do Tratado de Não Proliferação Nuclear, 75 anos após o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki. Mais exatamente, cresce o medo de uma nova corrida armamentista, que aumentará à medida que os acordos de controle de armas nucleares se desgastarem.

Possibilidade de um conflito no Golfo Pérsico, envolvendo a Arábia Saudita, animosidades crescentes entre Índia e Paquistão, guerras cibernéticas envolvendo a disseminação de informações falsas pela internet e batalha pela supremacia tecnológica, em uma espécie de corrida armamentista, são algumas das variáveis que asseguram as piores expectativas. Para completar, há toda a instabilidade vivenciada hoje pelos países da América Latina.

Outra projeção frequente é a de que os Estados Unidos flertarão com a recessão. Há uma desconfiança global de que a economia não se sustenta diante da ausência de regulação dos sistemas financeiros, das prioridades governamentais e da fragilidade dos sistemas produtivos locais. Mas como a marca do ano é a incerteza, Daniel Franklin considera a possibilidade de haver até uma surpresa e o desastre não ocorrer. Quem sabe, um novo vigor do mercado, seja lá o que isso for.

Divisão global

O grande problema do império norte-americano e do candidato a imperador do momento ou mesmo de outro eventual vencedor na disputa eleitoral é a China. O ambiente de fundo é a divisão do mundo entre potências com o objetivo de assegurar influências. Um jogo do qual o Brasil se afasta cada vez mais ao se alinhar com os interesses dos Estados Unidos.

No sistema formatado por polaridades, o que tende a gerar atritos é, para o jornalista da The Economist, o fato de que a China representa a positividade. Os chineses alegarão ter atingido a meta de “prosperidade moderada” até 2020. Outros países terão que descobrir como se posicionar, no comércio e na tecnologia, entre uma esfera de influência chinesa, que tem a Rússia ao lado e atrai a Alemanha, e uma norte-americana, que pode até resultar em ações militares.

Transição

O fenômeno mais surpreendente de 2019 foi, sem dúvida, a emergência de protestos em diferentes partes do mundo. Ondas de raiva e agitação popular registradas em Paris, Hong Kong e em países da América Latina, entre outros lugares, e o renascimento de grupos de extrema direita evidenciam a existência de uma crise do capitalismo e da democracia, o que pode ser uma marca determinante do que será o cenário dos próximos anos.

O mundo tende a viver um período prolongado de protestos e agitações, como o resultado da ausência de soluções para os problemas da maioria da população. Inclusive, para a falta de empregos de qualidade, tanto nos países periféricos quanto nos centrais. No final das contas, parte do mundo reflete a insatisfação com as heranças criadas pelas políticas e pelos politicos que comandaram os destinos dos países nas últimas décadas.

O pacote de heranças negativas, fomentadoras de irritação, mobilizações e protestos, inclui a aceleração do processo de concentração de renda global, que tende a se alastrar na próxima década com a adoção de tecnologias que vão afetar os 80% de empregos baseados em rotinas, os mais propensos a passar por ondas de robotização ou automação. As populações também tendem a ampliar os protestos contra cortes em benefícios sociais, por conta de prioridades de políticas econômicas que ainda persistem e sugerem, inclusive, mudanças profundas em sistemas de previdência.

No balanço entre oportunidades e ameaças do futuro, o resultado parece bem claro: As tensões vão predominar. E podem ser crescentes. O que talvez possa levar a uma combinação de problema e solução importante. E boas perspectivas para o futuro.

De um lado, a crise do capitalismo reflete o sentimento de que o sistema atual não resolve as demandas mais comuns da maioria da sociedade. Inclusive da geração de boas oportunidades de trabalho — não precárias, em síntese. E a crise da democracia reflete a percepção de ausência de representatividade dos que integram os poderes executivos, legislativos e judiciários. O que é bem evidenciado pelos rumos das discussões sobre as questões ambientais. A boa notícia é que depois do caldo escuro que começa a sair das tubulações saia finalmente uma transformação a médio prazo.

 

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