segunda-feira, junho 1, 2026
25.2 C
Belo Horizonte

O futuro em seis por um

Crônica de um cotidiano exaustivo e a hipocrisia de quem criminaliza o direito ao ócio.

carlos plácido teixeira - imagem ilustrativa

“Hoje é meu último dia de trabalho aqui. Vai ser difícil encontrar alguém para o meu lugar”. 

A conversa no supermercado desvia a minha atenção enquanto encosto o carrinho no balcão e passo minhas compras, onde um senhor de cara fechada não responde ao meu “bom dia”. A mulher morena, de alguns trinta e poucos anos, de olhar firme, desabafa, com a voz de quem está em paz com o mundo, com a senhora de cabelos brancos que atende em outro caixa. 

Parece uma conversa entre uma avó e a neta. São colegas de trabalho. A mais jovem, de uniforme azul marinho, diferente das outras funcionárias. As atendentes usam camisetas simples. Eu já havia reparado na presença dela naquele espaço organizado para enganar nós, consumidores, com ofertas em cada prateleira. 

A minha rigidez mental se irrita em todas – todas mesmo – as vezes em que passo pelas fileiras de papeis higiênicos e vejo as promoções em letras grandes dizendo o comprador para ,“levar doze, pagar onze”. Será que há gente crédula ou imbecil suficiente para acreditar em tais ofertas especiais?

Os marqueteiros tentam nos enganar com mil artimanhas enquanto é cada vez mais comum ver o atendimento sendo feito por senhoras e senhores de idade próximas da aposentadoria. Provavelmente são, mesmo, pessoas sem possibilidade de descanso, pressionadas pela necessidade de aumentar a renda própria ou da família. 

As duas mulheres aproveitam que há um menor número de consumidores no início da tarde para conversar. Uma pausa rara nas tarefas rotineiras, entre aqueles bips intermináveis de mercadorias passando. “Estou quase explodindo de cansaço”, dizia para a colega mais velha no caixa, no dia em que testemunhei a conversa.  

Recordo o diálogo de algumas semanas atrás ao acompanhar as notícias sobre a aprovação na Câmara dos Deputados do fim da jornada seis por um, que obriga empregados e empregadas a trabalhar seis dias por semana e folgar uma vez apenas. Mesmo comemorando, tenho convicção de que deputados seguem destilando ódio contra quem deseja apenas aproveitar um fim de semana inteiro à toa.

A moça abre mão do emprego em busca de vida. Com tempo de sobra para não fazer nada, sem qualquer compromisso com quem deu mordomias para os eleitos em Brasília, sonham com a volta à escravidão. A essa hora devem estar babando para arquitetar vingança. 

Diante do noticiário da TV, que mais esconde do que revela, imaginei, então, que a mulher que anunciava a decisão de largar o emprego talvez aproveite no futuro a mudança na regulamentação.  

Ela pode voltar a desejar um emprego. Sonhar em ter novamente a carteira assinada, acreditando na possibilidade de reduzir o cansaço da ativividade que arranca o couro dos trabalhadores. Com direito a dois dias de folga por semana, dá para desejar uma atividade de sobrevivência com chances de recuperação de energias e a convivência com os filhos. 

“Não relaxem”, eu diria, se pudesse voltar no tempo e entrar na conversa das duas mulheres no supermercado. Contaria a história de Luiz Paulo, meu cunhado. Engenheiro de obras públicas, nunca trabalhou um sábado ou domingo sequer e sempre emendou dias de feriados. Mas, para ele, o Brasil favorece os vagabundos. Destila preconceitos enquanto participa de reuniões de empreiteiros para direcionar vencedores de novos projetos. E para financiar os deputados e senadores que garantem propostas que favorecem as empresas.

À noite, em casa, antes de dormir, a rolagem de telas das redes sociais reforça as incertezas de cada dia. Chego a ter alguma esperança ao ler uma notícia sobre uma decisão do papa. Finalmente pede desculpas, em nome da Igreja Católica, pelo apoio dado pela à escravização de seres humanos durante séculos. Porém no terreiro da própria igreja, em Santa Catarina um padre chama de vagabundos os trabalhadores que comemoram a possibilidade de descanso. 

Bem que Tim Maia dizia que o Brasil é o único país onde prostituta tem orgasmo, cafetão sente ciúme, traficante é viciado e pobre é de direita. Complemento a fala em pensamento: políticos prejudicam eleitores, que votam neles mesmo assim. Religiosos abençoam o uso de armas. Tento dormir. Mas perco o sono novamente.

Edições anteriores

Inteligência artificial na cirurgia plástica: o perigo das expectativas estéticas irreais

A Era da "Ilusão do Algoritmo": Como imagens geradas...

Como o caso Ypê favorece o pessimismo sobre o futuro

Nem mesmo oração forte é capaz de controlar a...

Os imbecis venceram: eles são muitos. Com dinheiro de sobra, definem o futuro

"Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela...

Quando as imagens não servem mais para provar as verdades

As imagens tendem a perder o status de testemunha da realidade para ser parte de mentiras graças aos avanços da inteligência artificial. Na era de fake news e deep fakes, toda imagem pode ser falsa.

Em 2026, brigas familiares e sociais voltam com força renovada

Em tempos de eleições e de aumento da influência...