Nos EUA, indústria de armas lança fuzil JR-15, a AR-15 especial para crianças. É verdade

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Para os defensores de restrições do negócio das armas, é o exemplo mais descarado já visto de marketing do produto. A AR-15 é a preferida dos matadores em massa

Enquanto jovens se mobilizam contra as armas, em “marchas pelas nossas vidas”, o sistema de produção e comercialização de armas impõe a sua força – Foto:
Frypie

Carlos Plácido Teixeira
Jornalista Responsável I Radar do Futuro

O setor de produção e comercialização de armas perdeu todo e qualquer pudor. Ou enfrentamos e acabamos com a força dele, ou ainda seremos vítima dos seus produtos destrutivos. Para quem tem pelo menos um mínimo de racionalidade, reagir e confrontar devem ser as atitudes necessárias diante da divulgação do lançamento de um fuzil AR-15 destinado ao público infantil. A falta de limites do setor, tão ou mais influente do que a indústria petrolífera e o sistema financeiro na economia e na política dos Estados Unidos, com efeitos globais, foi demonstrada em fevereiro, em uma feira anual de esportes de tiro. Não há qualquer surpresa no fato de que a crítica e resistência ao produto não ganhou repercussão na sociedade e, em especial, na mídia.

Segundo o site Fast Company, especialistas norte-americanos em segurança e defensores de restrições ao acesso às armas definiram a iniciativa “como o exemplo mais descarado de marketing de armas para crianças que eles já viram”. A ausência de limites é preocupante ao sinalizar como o mercado naturaliza a estratégias que estimulam a violência.

Violência patrocinada

Nos EUA, mortes por armas de fogo atingiram nível mais alto dos últimos 30 anos. Em 2021, foram 693 ataques em massa, que resultaram em 3.545 vítimas. Novas gerações aderem a movimentos contrários à liberdade de comercialização do armamento. Coalizões de jovens, como o movimento “March For Our Lives” (marcha por nossas vidas), reivindicam uma legislação restritiva. Mas enfrentam o conservadorismo político e o poder econômico.

Enquanto isso, os tiroteios em escolas continuam a aumentar: entre agosto e dezembro de 2021, houve 136 casos de tiros nas dependências da escola, a taxa mais alta em um período de 5 meses desde que o grupo de defesa Everytown for Gun Safety começou a rastreá-lo em 2013.

Vale destacar: 70% dos atiradores escolares têm menos de 18 anos. São filhos de famílias com muita liberalidade em relação ao uso de armamentos. No jargão do mercado e dos profissionais de marketing, o lançamento da JR-15 é uma oportunidade aproveitada pela WEE1 Tactical, uma ramificação da Schmid Tool and Engineering, que vende componentes de AR-15 há 30 anos. “Nossa visão é de desenvolvimento de uma linha de plataformas de tiro que ajude com segurança os adultos a introduzir as crianças nos esportes de tiro”, diz o texto de divulgação da indústria.

Sob a justificativa do entretenimento, a indústria cria um rifle cuja “ergonomia é voltada para crianças”. Ainda segundo a empresa, um produto mais leve que uma versão adulta. Pesa 1,2 kg, 20% menor e com um mecanismo de segurança patenteado, não padrão nos AR-15, que precisa ser puxado “com alguma força” e girado antes de disparar. Pequenos ajustes à parte, a empresa se gaba de que “opera exatamente como a arma da mamãe e do papai”.



Iniciação precoce: JR-15

O JR-15 é um rifle de calibre .22, o que significa que leva balas de .22 polegadas de diâmetro. Rifles de calibre .22 são comuns como armas iniciais porque seus tiros são um pouco mais lentos do que os cartuchos usados ​​em um AR-15, com menor recuo – menos doloroso para ombros pequenos. Para especialistas, a segurança é um mito.


Tendências

A matéria da Fast Company reitera que o lançamento de um novo rifle destinado a crianças surpreendeu até mesmo especialistas envolvidos na revisão da legislação do setor, que acompanham as campanhas direcionadas ao público infantil. Indignação define a reação diante do “exemplo mais descarado já visto de marketing do produto”, abertamente anunciado como uma versão infantil do AR-15 — o estilo de rifle usado em 11 dos 12 tiroteios em massa de maior destaque nos Estados Unidos.

“Há jovens atirando com armas há 80 anos, mas nunca houve um AR-15 jovem”, diz Ryan Busse, ex-executivo de armas de fogo, agora consultor sênior do Giffords, um dos principais grupos de prevenção à violência armada, cofundado pela ex-deputada Gabby Giffords. “Nunca vi um que fosse apenas uma arma de guerra flagrantemente tática e ofensiva”, acrescenta Busse, autor de Gunfight, um livro que discute a radicalização extremista da indústria.

Em outros momentos, fabricantes lançaram armas destinadas para crianças e jovens. A maior diferença é, segundo a comunidade que defende restrições no mercado, a agressividade da WEE1 ao mirar as crianças com um produto que é explicitamente um AR-15 inicial. Algo nunca visto antes. A empresa perdeu o medo de fazer propaganda subliminar. E o apelo para as crianças é claro: o logotipo colorido da WEE1 é composto por dois crânios, representados como um menino e uma menina, chupando chupetas e com uma mira sobre um olho. Os logotipos também aparecem em bonés de beisebol infantis que brilham no escuro.

São duas tendências envolvidas no processo. Primeiro, a formação de novos consumidores em potencial. As vendas no setor oscilam, por conta de mudanças de comportamento da sociedade. Em 1997, 33% dos domicílios tinham caçadores , caindo para 17% em 2018. Isso também significa um declínio na posse de armas, de 32% nesse período. Assim, diz a matéria da Fast Company, a indústria criou outras rotas para aumentar as vendas: concentrando-se mais em autodefesa, proteção de liberdades e visando jovens – em um esforço para garantir a próxima geração de defensores de políticos pró-armas.

A indústria de armas também aposta fortemente no aumento do extremismo político, patrocinado por republicanos, liderados pelo ex-presidente Donald Trump. E compartilhado pelo brasileiro Jair Bolsonaro. A convergência da decadência da economia interna, do aumento da concentração de renda e da perda de influência dos Estados Unidos no mercado internacional estimula a formação de novas gerações do que a direita tradicional define de patriotas, pessoas que enxergam inimigos em qualquer espaço de convivência.

A lógica econômica da indústria de crimes

A morte de milhares de crianças provocada por tiroteios ou acidentes não comove, nem é argumento suficiente para reverter o poder das indústrias de armas nos Estados Unidos. Elas se beneficiam do poder de influência econômica e política. E de uma cultura que naturaliza a violência como normal. O lobby permanente de grupos de defesa das armas evita mudanças significativas.

Os gastos com lobby desses grupos estabeleceram um novo recorde em 2021 , de acordo com um relatório da OpenSecrets, segundo matéria publicada pelo site da Fortune. Grupos de defesa de armas gastaram US$ 15,8 milhões em lobby, em comparação com apenas US$ 2,9 milhões em lobby de grupos de controle de armas. Isso é mais de cinco vezes mais. No primeiro trimestre de 2022, grupos de defesa de armas gastaram US$ 2 milhões e grupos de controle de armas apenas US$ 609.000.

Esse número de 2021 é o maior total de grupos de direitos de armas desde 2013, quando o controle de armas era um tópico central após o ataque de 14 de dezembro de 2012 na Sandy Hook Elementary School em Newtown, Connecticut, que matou 20 crianças e seis adultos.

O setor se vale de argumentos sobre “liberdades individuais”. E da participação da atividade na economia dos Estados Unidos. A Associação Nacional de Rifles (ANR) assinala que o impacto econômico total da indústria de armas de fogo e munições nos Estados Unidos aumentou de US$ 19,1 bilhões em 2008 para US$ 70,52 bilhões em 2021, um aumento de 269%, de acordo com um relatório divulgado pela NSSF, a associação comercial da indústria de armas de fogo.

Em uma base anual, o impacto econômico do setor aumentou de US$ 63,5 bilhões em 2020 para US$ 70,52 bilhões. O total de empregos aumentou em mais de 33.000 no mesmo período, de 342.330 para 375.819.

Como enfrentar um massacre

Resultado de uma investigação secreta de três anos, uma matéria do site All Jazira revela como a National Rifle Association lida com a opinião pública após ataques mortais com armas. O manual instrui os defensores do mercado sobre a melhor forma de responder às indagações da mídia ou de instituições.

O primeiro passo é adotar o silêncio: não diga nada.

Se as consultas de mídia persistirem, parta para a “ofensa, ofensa, ofensa”, recomenda o manual. O objetlivo é pressionar os grupos de controle de armas com agressividade, invertendo responsabilidades. 

A proposta é de utilização de declarações parecidas com estas: “como você ousa ficar nos túmulos dessas crianças para apresentar sua agenda política?” “Se sua política não é boa o suficiente para se sustentar, como você ousa usar as mortes deles para levar isso adiante.

No Brasil, aumento de assassinatos políticos é parte da tendência, confirmada pelo crescimento exponencial do número de clubes de tiros nos últimos anos.

Violência anual provocada por armas de fogo

Todos os anos, 7.957 crianças e adolescentes são baleados nos Estados Unidos. 

  • 1.839 crianças e adolescentes morrem vítimas de violência armada
  • 992 são assassinados
  • 6.294 crianças e adolescentes sobrevivem a tiros
  • 2.788 são baleados intencionalmente por outra pessoa e sobrevivem
  • 693 morrem por suicídio com arma
  • 166 sobrevivem a uma tentativa de suicídio com arma
  • 10 são mortos por intervenção legal
  • 101 são baleados por intervenção legal e sobrevivem
  • 99 são mortos sem querer
  • 2.893 são baleados sem querer e sobrevivem
  • 38 morrem, mas a intenção era desconhecida
  • 380 são e sobrevivem ao tiro, mas a intenção é desconhecida

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