Futuro da educação: forças geradoras das tendências de curto prazo

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A tecnologia acelerou o futuro da educação em todo o mundo. E pode criar uma ilusão de que resolve os problemas do ensino

Photo by bill wegener on Unsplash
Photo by bill wegener on Unsplash

A crença de que as tecnologias tiveram desempenho aprovado durante a pandemia, ao socorrer as escolas de todos os níveis com ferramentas para a realização de aulas remotas, tende a ser o maior risco que estudantes correm no período em que ocorre o retorno a alguma normalidade das atividades presenciais. Como consequência mais inesperada, o laboratório de experiências forçadas demonstrou, por vias tortas, que há condições suficientes de infraestrutura de máquinas, softwares e internet para antecipar inovações que seriam adotadas nos próximos dez anos.

O maior perigo é a antecipação indiscriminada de projetos que envolvem interesses econômicos, sem uma avaliação adequeda dos objetivos e da ética dos investimentos realizados por corporações privadas e por administradores públicos. A precaução é justa. Uma investigação global conduzida pelo Observatório de Direitos Humanos (HRW, da sigla em inglês) concluiu que 49 governos autorizaram empresas de tecnologia educacional, as edtechs, a introduzir plataformas que colocam em risco ou violam diretamente os direitos de crianças e de suas famílias.

Segundo o estudo, sob a justificativa da urgência em viabilizar o ensino virtual durante o período de isolamento, 164 plataformas de ensino online promoveram desvios de informações, entregues para empresas de publicidade na internet. Ao acelerar as tendências de inovação no setor de educação a partir do ano de 2020, como outros segmentos induzidos a realizar adaptações de urgência para manter os seus serviços, a pandemia criou estímulos para a nova corrida do ouro do setor educacional. As edtechs certamente estão tão alvoroçadas quanto os grandes grupos empresariais de ensino.

Os produtores de inovações do segmento de ensino tendem a interpretar que foi dado o sinal para a consolidação da era da educação digital. Por tal ponto de vista, não é mais necessário esperar a implantação das redes de quinta geração (5G) para efetivar as lições aprendidas durante o período em que os estudantes foram forçados a conviver com as aulas remotas. E, mais grave, recursos inovadores são implantados sem a análise sobre conceitos e práticas da educação do futuro.

Educação como oportunidade

É verdade que as redes de transmissão de dados e o poder de processamento disponível nos computadores possibilitaram a realização de aulas emergenciais com o uso da comunicação online, especialmente para a população de renda média alta e acima.

Os problemas registrados nas “salas de aula virtuais não foram provocados pelos recursos digitais disponíveis. Se houve ineficiência foi a falta de preparo dos educadores para lidar com a modalidade do ensino remoto. Nas escolas públicas, as dificuldades foram decorrentes da pobreza da população, sem acesso a redes de internet e a computadores.

Prova da aceleração antecipada, instituições de ensino já anunciam, com apoio da mídia, iniciativas criadas no País. As publicações anunciam que a sala de aula “do futuro” pode estar mais próxima do que imaginamos. “Com o avanço da tecnologia de realidade aumentada e o empurrãozinho que a pandemia deu para o ensino remoto, universidades e escolas no Brasil e ao redor do mundo começam a explorar o recurso do Metaverso”, diz a matéria “Universidades brasileiras já apostam no metaverso para ensinar“, publicada pelo site Isto É Dinheiro.

Edtechs aceleram o desenvolvimento de inovações para a educação

As forças antecipatórias

Seis grandes forças explicam a perspectiva de aceleração das mudanças nos ambientes de ensino e aprendizado. A primeira é a compreensão de que há potência tecnológica suficiente para fazer a máquina digital funcionar. Em síntese, o poder de processamento das máquinas, cada vez mais próximas da computação quântica, estimula a corrida das “edtechs” — as startups de base tecnológica — rumo ao desenvolvimento de novas soluções destinadas às instituições do setor educacional.

As máquinas hiperpoderosas encontram capacidade de armazenamento suficiente para absorver as demandas geradas pela produção de conteúdos de ensino baseados em textos, áudio e vídeo. E o ambiente adequado para a adoção intensiva de recursos digitais na educação se complementa com o poder de transmissão de dados, que possibilitou a interação emergencial entre professores e alunos durante o período de maiores restrições de mobilidade durante a pandemia.

FORÇAS DE ACELERAÇÃO
Potência tecnológica
Devagar. E de repente
Enfim, internet em tudo
Cenário edtech
Transição social
Trabalho sem vínculos
Megatendências 2022+:
Radar do Futuro

Outra variável de aceleração abrange a percepção de que as transformações parecem ocorrer quando menos se espera: “devagar, e de repente”. E a internet intensifica o seu caráter de ubiquidade, como mais uma força. A onipresença se transforma em algo ainda mais avassalador, com realidade virtual e assistentes de voz alterando os nossos conceitos de interatividade. A virtualização é expandida em todos segmentos sociais. Embaladas pelo cenário, as escolas passam a ser vistas como instituições tecnológicas.


Tendências: os impactos das forças

As forças de aceleração transformam o cenário ensino e geram as transformações do futuro. Confira abaixo as cinco tendências mais importantes com as quais a comunidade de educação deve se familiarizar.

1. Potência tecnológica

A constatação de que o poder das tecnologias é suficiente para garantir o funcionamento da educação no ambiente digital tende a levar à implantação antecipada de projetos que seriam adotados a partir da segunda metade da década. Na prática, é a transição definitiva do ensino da revolução industrial para a era digital. Ocorre a mudança de modelos de negócios e de produção e transmissão de conhecimentos.

Os computadores e a internet já vinham mudando a forma como alunos podem acessar não apenas as informações, mas até mesmo as aulas. Entre 2009 a 2019, o número de matriculados em graduações à distância saltou de 330 mil para 1 milhão e meio de estudantes. Atualmente, há mais alunos matriculados em cursos remotos do que presenciais.

Em resumo, a própria comunidade dos estudantes estimula o uso mais intensivo das tecnologias. O crescimento das capacidades tecnológicas significa que uma variedade de meios de comunicação e ferramentas de apoio à aprendizagem ganhou legitimidade para oferecer educação com novas formas e conteúdos.

Devagar. E de repente

As mudanças dentro e fora das salas de aula vão surpreender alunos, professores e pais, como consequência de que a tecnologia está disponível para novos saltos de inovação. A palavra que define o processo é exponencialização. Entramos na segunda metade do tabuleiro, onde em cada quadro colocamos o dobro de arroz do quadro anterior.

Quando menos se espera, as instituições de ensino terão desenvolvido e implementado estratégias próprias de inovação. Por exemplo, a adoção do metaverso como ambiente de ensino. Ou a inteligência artificial terá aplicações para ajudar a melhorar o desempenho dos alunos no dia a dia. Ou as crianças terão as primeiras aulas com tradução instantânea de um professor chinês.

Mudanças “inesperadas” tendem a envolver outros ambientes humanos. A questão climática tende a criar impactos em salas de aula, assim como a possibilidade de novas crises de saúde.

Empresas de ensino são tecnológicas

As organizações de ensino abraçam definitivamente a transformação digital como um fator de sobrevivência. A adoção digital reforça a capacidade de competição no mercado. Na esteira da pandemia, as pessoas começaram a perceber o poder de longo alcance da tecnologia orientada à educação. Como o mundo digital exige que os educadores encontrem novas formas de incorporar e integrar a tecnologia nas práticas de ensino, as escolas que gerenciam isso da melhor forma naturalmente se superarão as outras.

Assim, não bastará um departamento de informática para resolver problemas e demandas pontuais. As instituições tenderão a ter um perfil de produtor e aplicador de soluções tecnológicas. Haverá não só maior investimento, mas também a priorização das inovações em novos modelos de atuação com base em aplicação de sistemas informatizados.

Internet em todas as coisas

Com hardware e software amplamente disponíveis, os papeis de todos os atores do ambiente educacional são afetados pela ubiquidade. Não é só a internet que vai receber grandes investimentos das instituições de ensino a curtíssimo prazo. Dentro de sala de aula, há a tendência de ampliar o uso de novos sistemas de apresentação de conhecimentos, com o desenvolvimento de sistemas robóticos de apoio aos professores.

Novas propostas pedagógicas exploram, por exemplo, plataformas de interface baseadas em realidades virtual, aumentada e mista, em cenários de metaverso. Além de sistemas de inteligência artificial que possibilitam o melhor acompanhamento do desempenho dos alunos e a interação com pais e gestores escolares.

Há algum tempo, as atividades de ensino e aprendizado tinham dois momentos completamente distintos: o tempo dentro de salas de aula e outro do exercício do aprendizado. Com o avanço do ensino virtual, as linhas que separam as atividades tendem a ser cada vez mais diluídas. A relação ocorre, cada vez mais, em todos os momentos, graças à onipresença da internet.

A educação é um processo intermediado pela internet. À medida que a tecnologia cresce, também muda a forma como os professores se relacionam com seus alunos e suas salas de aula. Com uma riqueza de informações na ponta dos dedos, os alunos ganham mais ferramentas necessárias para descobrir a enorme quantidade de fatos e conhecimentos de forma independente. Os professores tendem a agir mais com um papel facilitador. Seu trabalho evoluiu lentamente para uma posição em que eles ajudam os alunos a entender como aprender, amar aprender e como descobrir e entender as informações que encontram.

Isso pode apresentar alguns desafios para os professores, que devem trabalhar suas próprias habilidades sociais de liderança e resolução de problemas. Eles devem aprender a promover conversas e criar um ambiente que valorize o trabalho em equipe.

Trabalho: relações precárias

A pandemia acelerou a precarização das relações de trabalho, antecipando o cenário de transição para a economia digital. A tecnologia elimina funções ou, mesmo, profissões, muda outras e cria novas atividades e rotinas. Fortalece o culto ao empreendedorismo como saída à informalização e precarização de relações e queda de renda. Gera desemprego, mas tem carência de especialistas. Globaliza as demandas e estimula as atividades remotas.

A educação tende a normalizar a crise, com o risco de acreditar que a tecnologia é o centro das mudanças necessárias para corrigir os rumos da qualidade do ensino. A crise sanitária e a estratégia do governo de negar os problemas sociais deixaram em segundo plano as análises da implantação do Novo Ensino Médio, uma proposta de mudança que imagina um sistema de ensino que iguala escolas privadas e públicas.

Transição social

Processo de seleção de estudante para universidades federais, o Enem viu a redução do número de inscritos nos últimos anos. É o resultado do cenário de crise econômica, social e política, agravado pela pandemia. Os desafios que existiam na educação brasilera foram agravados pela ausência de ações governamentais. Com efeitos mas graves entre a população de baixa renda, incluindo, especialmente, mulheres e negros.

O sistema educacional, assim como toda a sociedade, tende a ver a ampliação das diferenças sociais. De um lado, uma imensa maioria que se prepara para um mercado de trabalho incerto. São os usuários de sistema público esvaziado de recursos e que prepara trabalhadores para atividades informais e para funções de rotina, que serão alvo preferencial de investimentos em automação e robotização. De outro lado, as escolas privadas investem fortemente em ensino de qualidade, com o foco em aplicação de recursos tecnológicos avançados.

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