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Idadismo: preconceito contra o envelhecimento é universal e impacta saúde e economia

Discriminação na velhice é banalizada, mas afeta todas as pessoas, segundo Egídio Dórea

Breno Marino *
Jornal da USP

O envelhecimento é um processo natural e comum na vida de todos os seres vivos. Entretanto, essa jornada não é devidamente valorizada, rodeada de preconceitos que demonizam esse momento da vida. Esse processo prejudicial e discriminatório, contra a velhice, recebe o nome de idadismo.

O termo foi criado em 1969 pelo gerontólogo Robert Butler e se refere ao preconceito ou discriminação com base na idade, especialmente contra pessoas idosas. Egídio Dórea, coordenador do programa USP 60+ da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP, comenta que o idadismo não é só sobre estereótipos negativos. “É a ideia de que ser velho é sinônimo de fragilidade, irrelevância ou incapacidade. Ele também aparece em atitudes paternalistas, como tratar idosos como crianças, ou em expectativas irreais, como glorificar a juventude eterna.”

Impacto universal

Diferentemente dos outros preconceitos, o idadismo afeta a vida de todas as pessoas, visto que o envelhecimento é algo universal e inevitável. A discriminação é frequentemente ignorada e banalizada, mesmo em meio ao seu impacto notório na sociedade. Uma das razões para esse fenômeno está na cultura, de acordo com Dórea.

“Propagandas idolatram a juventude, enquanto a mídia raramente mostra idosos como protagonistas ativos. No Brasil, por exemplo, apenas 2% dos personagens de novelas têm mais de 60 anos, segundo estudos da USP, apesar de os idosos representarem 15% da população”, afirma. O idadismo afeta a saúde, a autoestima e as oportunidades. Frases como “você está velho demais para isso” ajudam a naturalizar esse preconceito e reforçar estereótipos que demonizam o envelhecimento.

Estágios do preconceito

De acordo com o médico, existem quatro níveis de manifestação do idadismo. O primeiro é o individual, que corresponde ao preconceito internalizado, em que os próprios idosos acreditam que são menos capazes de algo por conta de sua idade. Por outro lado, o interpessoal se manifesta nas interações sociais. O terceiro é o comunitário, quando a comunidade reforça estereótipos, como bairros sem infraestrutura para idosos.

Por fim, o nível institucional corresponde ao preconceito nas estruturas da sociedade. No mercado de trabalho, por exemplo, idosos enfrentam discriminação na contratação – no Brasil, apenas 5% das vagas formais são ocupadas por pessoas acima de 60 anos, segundo o IBGE.

A Teoria do Encorpamento também é um dos fenômenos que impactam diretamente o idadismo. A teoria sugere que estereótipos negativos sobre a velhice, absorvidos ao longo da vida, moldam como envelhecemos. Segundo Dórea, ao ouvir que idosos são frágeis durante o crescimento, inconscientemente, as pessoas passam a adotar comportamentos que confirmam isso, como evitar exercícios ou se isolar.

“Se a sociedade diz que idosos não aprendem tecnologia, muitos podem nem tentar, reforçando o estereótipo. Um estudo da Universidade de Yale mostrou que idosos expostos a mensagens positivas sobre envelhecimento, como ‘a idade traz sabedoria’, tiveram melhor desempenho em testes de memória e caminharam mais rápido”, detalha o médico.

Combate à discriminação

O idadismo gera enormes consequências, seja na saúde das pessoas ou, até mesmo, economicamente. Idosos são excluídos do mercado de trabalho, mesmo sendo produtivos. No Brasil, a discriminação no emprego leva a uma perda estimada de R$ 100 bilhões por ano em produtividade, segundo a FGV.

Dessa maneira, o combate a esse tipo de discriminiação é fundamental. O questionamento a estereótipos e evitar a utilização de falas que reforçam o preconceito são maneiras individuais de combate.

“Coletivamente, leis contra discriminação por idade no trabalho e mais investimento em saúde e acessibilidade são necessários. Além disso, melhorar a representação dos idosos em produções midiáticas, como filmes e séries, também podem ser uma forma de combate”, defende Dórea.

*Sob supervisão de Cinderela Caldeira e Paulo Capuzzo

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