Ninguém irá à universidade para ter aulas. Apenas para ter momentos de convivência - foto: Pixabay
Ninguém irá à universidade para ter aulas. Apenas para ter momentos de convivência foto: Pixabay

Carlos Teixeira
Jornalista e futurista I Radar do Futuro

Em 2040, quantos anos terá uma criança nascida no ano de 2019? Parece muito distante? Então faça as contas: são 21 anos. Nessa idade, levando em conta padrões atuais do que seja uma história de vida, a pessoa deve estar próxima de terminar um curso universitário. Certo? Talvez não. Pelo menos da forma como conhecemos profissões, trabalho e processos de aprendizado.

Vamos considerar uma projeção de como pode ser a vida de Felipe, o filho mais novo do vizinho, nascido em 2019. Mãe médica e pai arquiteto, o menino será um típico representante da história de uma família de classe média, moradora de Belo Horizonte.

Vamos, então, a 2040. Aos 113 anos, a UFMG é comandada parcialmente por instituições de ensino privadas. Elas dão as cartas depois de assumirem parte da administração do campus da Pampulha. O centro de estudos da Pampulha está plenamente integrado a uma rede global de instituições de ensino. A antiga “federal” agora é “global”.

Convivência

Os campi acadêmicos são lugares onde os estudantes vão com muito pouca frequência. Não há necessidade, pois os cursos, acompanhados com simulações holográficas pela internet, são coordenados por professores reais e inteligência artificial. E com a participação de alunos de vários cantos do planeta. A instituição global é responsável pela incorporação das propostas de educação modular personalizada.

As idas de Felipe ao campus, uma vez por mês, são momentos de prazer. No calendário escolar, as raras atividades presenciais criam a oportunidade de participar de encontros com outras pessoas da mesma idade e ter referências físicas de lugares que ele conhece virtualmente.

A tecnologia, que está em tudo e promove integração global e instantânea, também sufoca as pessoas. Encontrar pessoas é, cada vez mais, algo essencial para os estudantes. Representa o resgate de um hábito do cotidiano dos seus pais e avós: as reuniões pessoais, envolvendo famílias numerosas, muitas vezes carregadas de emoção. Costume que foi deixado de lado desde que a evolução da realidade virtual e da holografia consolidou a possibilidade de realização de todas as atividades em casa. Do estudo ao trabalho, incluindo o lazer e as compras, nada estimula a humanidade a querer sair de casa.

Internet em tudo

Com internet poderosa e invisível como a eletricidade, é natural que as famílias, envoltas em relações de trabalho altamente informais, alto desemprego e insegurança crescente, abandonem as cidades em direção aos condomínios fechados. Os relacionamento também se dissolveram como decorrência da redução do tamanho das famílias. Felipe tem duas irmãs, mas faz parte de um caso raro de “família numerosa”.

Além das questões conjunturais, em 2040 o Brasil confirma as tendências de redução da sua população. A partir de Até 2060, a população brasileira viverá seu primeiro recuo – será de 218 milhões de pessoas, depois de bater em 228 milhões em 2030. O país caminha para ter a predominância de idosos. Em 2010, existiam 39 idosos para cada grupo de 100 jovens. Agora, são 153 idosos para cada 100 jovem.

Para a sociedade, o calendário de visitas de estudantes à unidade universitária serve, além de qualquer outro argumento, como uma forma de justificar a preservação do espaço que contribuiu, até os anos 2020, para formar milhares de profissionais. Ainda subsidiada por recursos federais, mas com recursos adicionais de outros países, a universidade foi se transformando em um lugar cada vez menos vinculado a edifícios e localizações. Foi inserida em novos modelos de integração com a sociedade, oferecendo formas inovadoras de conhecimento digital e tornando o ensino personalizado e disponível sob demanda.

Desde 2025, quando Felipe tinha apenas oito anos, o ensino universitário no Brasil deixou de ser focado em cursos, como vigorou por quase dois séculos. A experiência vinha sendo testada a partir de 2020. Estudantes passaram a fazer suas escolhas de futuro profissional com base na definição de áreas de interesse. Não mais medicina, por exemplo, mas saúde. Ninguém escolheria psicologia ou filosofia, mas ciências humanas. Cada aluno poderia traçar seu próprio roteiro de estudos, associando conhecimentos médicos com tecnologia, por exemplo.

Transmissão de conhecimento

Em 2040, o sistema já absorve novos modelos de transmissão de conhecimentos. Com interesses fortes em inteligência artificial e ciências da saúde, além de avançadas habilidades de raciocínio e de gestão de equipes integradas a robôs, para Felipe é natural seguir uma trajetória que o leve a executar cirurgias de implante de chips para o controle de comportamentos psicomotores.

Mergulhado no mundo dos smartphones e da internet desde os primeiros anos de vida, Felipe pode aproveitar as inovações implantadas no sistema de ensino. Ao contrário dos seus avós, a geração dele, mais do que qualquer outra anterior, tem a convicção de que a aprendizagem precisará ser contínua. Mesmo a atividade de implantação de chips cerebrais terá vida curta. Daí, a expectativa de que as universidades oferecerão uma educação cada vez mais personalizada, envolvida em resolução de problemas.

Qual será o fôlego para se renovar continuamente? A sociedade está angustiada, pressionada pela rapidez com que a tecnologia cria métodos inovadores de atendimento a demandas sociais. O desemprego é cada vez mais crescente. Encarar os próximos 100 anos é o desafio a ser encarado por Felipe.

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