Vendas no dia das crianças e crise energética são variáveis determinantes para sinalização dos cenários dos próximos meses

Governo do Distrito Federal autoriza a abertura de shoppings, com regras rígidas de higiene e afastamento social

Carlos Plácido Teixeira
Radar do Futuro

Outubro abre o quarto e último trimestre do ano com duas incertezas centrais para a sociedade brasileira. Primeiro, os resultados das vendas do Dia das Crianças, a terceira data mais importante no calendário de negócios do comércio. Atrás apenas do Natal e do Dia das Mães. O outro acontecimento que tende a ser marcante neste mês, menos incerto, é a iminência da crise hídrica. São acontecimentos capazes de definir expectativas e tendências dos próximos meses e, também, de 2022.

Os comerciantes revelam expectativas de que as vendas para o Dia das Crianças sejam melhores do que as do ano passado, primeiro ano da pandemia. Desde o final de setembro, a imprensa apoia o comércio com as matérias tradicionais, que incluem desde projeções sobre o desempenho até sugestões de presentes. O otimismo dos varejistas varia, neste ano, de módicos 3%, segundo pesquisa da Câmara dos Dirigentes Lojistas de São Paulo, capital, até 20%, na região de Franca, no interior paulista.

Porém, o comércio terá de enfrentar fatores adversos, inclusive a queda da renda e o receio do cidadão sobre o futuro. Por exemplo, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC), medido pela Fundação Getúlio Vargas, caiu expressivamente em setembro, confirmando a interrupção da tendência de recuperação iniciada em abril, após a segunda onda de covid-19. A queda foi determinada pela combinação de fatores que já vinham afetando a confiança em meses anteriores, como a inflação e desemprego elevados, e de novos fatores, como o risco de crise energética e o aumento da incerteza econômica e política com impacto mais acentuado sobre as expectativas em relação aos próximos meses

O cenário do curtíssimo e curto prazos também será impactado fortemente pelos efeitos da provável crise hídrica. Anos de poucas chuvas e de esvaziamento da capacidade de planejamento do setor público contribuem as perspectivas negativas. Em setembro, os reservatórios registraram das hidrelétricas brasileiras nas regiões Sudeste e Sul chegaram ao pior nível histórico, abaixo mesmo do patamar de 2001, quando o país enfrentou um severo racionamento de energia.

Para especialistas, o cenário torna elevado o risco de apagões, ainda mais em momentos de picos de consumo, que ficam mais frequentes com a volta do calor. A projeção negativa é considerada provável porque o sistema já está operando no limite, com o acionamento de mais térmicas para compensar a quantidade menor de energia gerada nas hidrelétricas e o uso intenso das linhas de transmissão.

Cenários: o que esperar do final de ano?

A projeção de cenários leva em conta duas hipóteses para cada variável:

Sobre comportamentos do consumo:

  • Dia das Crianças registra boas vendas
  • Dia das Crianças frustra as expectativas

Sobre a crise hídrica:

  • Fortes chuvas criam expectativa de afastamento da crise hídrica
  • Apagões e reservatórios baixos confirmam a crise hídrica

Cenário 1

Bons sinais para o final de ano

  • Dia das Crianças registra boas vendas
  • Fortes chuvas criam expectativa de afastamento da crise hídrica

Nas primeiras semanas de outubro, comerciantes respiram aliviados. Os consumidores compensam as dificuldades enfrentadas no dia a dia e aproveitam o fim do isolamento com o questionamento de qualquer limite. Comprar presentes para as crianças será uma forma de compensação para todas as dificuldades enfrentadas nos últimos 18 meses. Lembrando que para muitos pais e avós, a data foi comemorada em 2020 por videoconferência.

A inflação em alta, parentes desempregados e dificuldades financeiras não são problemas, pelo menos para a parte da população que se mantém protegida contra a crise econômica. A pequena queda do desemprego, de 15,1% para 13,7% em junho, segundo o Ipea, pode explicar em parte uma melhor expectativa dos consumidores.

Impacto possível

E chuvas fortes são um argumento forte para reforçar um maior otimismo em relação ao final do ano. Então, a possibilidade de afastar o risco da crise energética e os bons resultados nas vendas do Dia das Crianças sinalizam para a cadeia de varejo e atacado a possibilidade de um bom fim de ano nas vendas.


Cenário 2

Ambiente de dúvidas

  • Dia das Crianças frustra as expectativas
  • Fortes chuvas criam expectativa de afastamento da crise hídrica

Chuvas fortes no início do mês fazem com que o governo adie medidas que impactam a população, em especial a divulgação de novos aumentos de preços das tarifas de eletricidade ou alguma forma de racionamento. A população se mantém alheia aos problemas do abastecimento de energia.

O Dia das Crianças tem resultados fracos. Apenas o comércio de produtos de maior valor registra vendas suficientemente positivas. Sentindo os efeitos da inflação em alta e da queda da renda familiar, mesmo a classe média faz a opção pela compra de produtos de baixo valor. Lembrancinhas para as crianças, para não deixar passar a data e compras pela internet são as preferências.

Impacto

O desempenho apenas fraco, mas não negativo, assegura a continuidade das incertezas para os meses de final de ano, especialmente para o provável comportamento das vendas no Natal.


Cenário 3

Alguma esperança, com pé atrás

  • Dia das Crianças registra boas vendas
  • Apagões e reservatórios baixos confirmam a crise hídrica

A sensação de que a crise gerada pela pandemia está sob controle deixa os consumidores mais animados a sair de casa para frequentar shoppings e lojas. Depois de tanto sacrifício, as pessoas farão tudo pelas suas crianças. É a compensação como motor do consumo.

A crise de energia não terá força suficiente para impedir que pais e avós ofereçam presentes para os seus filhos e netos. Porém, os apagões passam a preocupar os moradores das regiões Sudeste e Sul. O governo anuncia uma campanha de racionamento para tentar reduzir os efeitos dos primeiros apagões nas regiões Sudeste e Sul. A população começa a entender que mais um problema se arma pela frente.

Impactos

Os resultados positivos das vendas do Dia das Crianças não conseguem reverter a preocupação sobre os efeitos de mais uma crise na vida do cidadão brasileiro. Planejar o futuro continuará sendo um exercício complexo. Ainda mais que os apagões introduzem a possibilidade de retração de atividades econômicas.


Cenário 4

Insatisfação e revolta

  • Dia das Crianças frustra as expectativas
  • Apagões e reservatórios baixos confirmam a crise hídrica

O pessimismo ganha maior força no mercado interno. Não bastassem os aumentos dos preços dos alimentos, dos combustíveis e do gás de cozinha, o aumento da miséria, o desemprego elevado, agora são os apagões. A insatisfação é cada vez maior entre a população, que atribui ao governo a sucessão de crises.

Assim, é natural que as vendas foram inferiores às previsões do mercado, mesmo que um pouco melhores do que no primeiro ano da pandemia. O comércio eletrônico se beneficia, vendendo apenas produtos baratos. O que frustra ainda mais o comércio tradicional.

Impactos

Um Dia das Crianças de resultados fracos vai sinalizar a tendência de piora dos ambientes social, político e econômico, com efeitos para o próximo ano. Nessas condições, o Natal será marcado pelo pessimismo. Já agora, mesmo o mercado financeiro aponta para a tendência de crescimento fraco da economia brasileira em 2022.

Nem mesmo um eventual controle da pandemia será capaz de alterar a possibilidade de um período acirramento da rejeição ao governo, apontado como incapaz de reverter os problemas vividos pela população.


Tendências

Lazer lidera as preferências dos consumidores para o pós-pandemia

Pesquisa realizada pela Bain & Company mostra que, com a perspectiva do fim das restrições impostas pela pandemia, os cidadãos ficarão mais propensos a ir aos cinemas (57%), frequentar bares e restaurantes (65%) e fazer compras em lojas físicas (40%). A volta à “normalidade” encontra o brasileiro com maiores dificuldades de renda e com mudanças de comportamento, diz o estudo.

A Bain & Company revela que a situação financeira pode ser um fator criador de restrição, uma vez que a renda do brasileiro foi mais impactada do que a de outras economias. No Brasil, o número de pessoas que guardaram menos dinheiro foi 28% maior do que o de entrevistados que pouparam mais. Nos Estados Unidos, por sua vez, o número de pessoas que guardaram mais ou muito mais dinheiro foi 16% maior. 

Nos EUA e Europa, as pessoas conseguiram poupar mais. Já no Brasil, houve o contrário. Isso em razão do impacto da menor atividade econômica, do emprego e da renda. Um dos elementos relevantes dessa tendência é indicar quanto o poder aquisitivo irá diminuir, e como as pessoas estão saindo dessa pandemia com dinheiro no bolso. 

A pandemia da covid-19 impactou a maneira como o consumidor se relaciona com seus hábitos de compra, e muitos desses comportamentos adquiridos devem se prolongar após o fim da pandemia, mostrou o estudo. De acordo com a Bain, hábitos relacionados ao ambiente doméstico, com as pessoas realizando atividades em casa, ainda devem permanecer relevantes mesmo após o fim da pandemia.

Dentre essas atividades detectadas, a pesquisa indicou que cozinhar (84%), assistir televisão (77%) e cuidar do lar (64%) foram as principais razões mencionadas pelos consumidores durante a pandemia. Também houve um aumento em atividades relacionadas à saúde, como a prática de exercícios (56%) e de aulas fitness virtuais (54%).

 

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