Atualmente, são mais de 25 países do continente africano vivendo conflitos armados, questões de religião, instabilidade política e disputa por recursos minerais.
Waldenyr Caldas
Professor da Escola de Comunicações e Artes da USP
As relações internacionais e a política estão em descompasso. Melhor seria dizer, à deriva. Os líderes autoritários e oportunistas aproveitam este momento para dar ainda mais projeção ao seu transtorno de grandeza, ou delírio de grandeza, que, para psicólogos e psiquiatras estudiosos do comportamento humano, trata-se daquele indivíduo que acredita ser onipotente, superior aos outros, ter um talento excepcional; alimenta fantasias, obsessões, delírios e, entre outras coisas, atribui um grande poder a si mesmo. Algo assim, como se o planeta em que vivemos só a ele pertencesse, enfim, como se fosse o dono do mundo.

Pois não é nenhum exagero dizer que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se encaixa perfeitamente nesse perfil, como mostrarei mais adiante. Mas ele não está só. Outros governantes do século passado também se revelaram megalômanos e apresentavam transtornos bipolares bem acentuados, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial, mas não só. Não é necessário dizer que este comportamento do presidente americano é desagregador. Se considerarmos a importância e a magnitude do seu cargo, é plenamente possível percebê-lo no cenário político internacional como uma pessoa desprovida de razão e irresponsável em suas atitudes, uma vez que elas reverberam em todo o mundo de forma extremamente negativa e prejudicial a todos nós que também habitamos o “seu” planeta. Mas há, ainda, uma certa incompetência e insensibilidade em suas agressivas decisões.
A economia mundial, a política, a diplomacia e a própria sociabilidade entre os governantes, algo muito bom para os países, a harmonia e a paz mundial têm se deteriorado em face da pressão e da angústia a que são submetidos esses chefes de Estado, afetados por atitudes autoritárias e perniciosas, tudo isto em nome de uma estratégia extremamente agressiva e egoísta, quase sórdida, com o objetivo de fazer com que seu país permaneça reinando soberanamente sobre o resto do mundo. Uma das evidências está no slogan Make America Great Again (MAGA). Traduzindo, quer dizer: Faça a América Grande Novamente.
Sim, isto é aceitável e compreensível, mas não às custas da exploração absurda dos seus parceiros econômicos e de outros países de economia bastante modesta, se comparados com a opulência americana como vinha fazendo seu presidente, ao aplicar o chamado tarifaço de forma aleatória e desrespeitosa, sem nenhum critério econômico minimamente lógico e sem nenhuma conversa anterior com seus países parceiros econômicos. Mas, no decorrer dos acontecimentos, prevaleceu o bom senso da Suprema Corte Americana que, em fevereiro de 2026, declarou ilegal o tarifaço de Donald Trump. Para proteger a indústria de seu país, subitamente o governo aplicou altas tarifas para que produtos de outros países pudessem entrar nos Estados Unidos.
Foi isso, por exemplo, o que aconteceu com as exportações. A carne e o café brasileiros tornaram-se mais caros a partir daquele momento. Por conta disso, claro, ao encarecerem exageradamente, consequentemente, perderam competitividade. Por outro lado, sua política econômica do tarifaço em alguns momentos tem produzido efeito contrário. Primeiramente, a insatisfação do consumidor americano no tocante aos preços muito altos, mas também a aceleração da inflação nada desprezível e um leve aumento do desemprego, entre outros aspectos que impactam negativamente o cotidiano da população americana.
Ora, o presidente Trump perdeu a dimensão do processo histórico. Nenhum país se manteve ou poderá se manter hegemônico ad infinitum. Não, não é possível. A História da Civilização nos mostra que a hegemonia de uma nação é algo sempre transitório e isto deve ser visto com naturalidade. Em qualquer manual de História Geral suficientemente bem realizado, podemos entender esta trajetória da substituição hegemônica entre os países. Além disso, o governo de Donald Trump sabe que a China, ao contrário dos Estados Unidos, vem apresentando um crescimento econômico médio anual de 6,5% há mais de vinte anos. Bem, isto é assustador para quem, a qualquer custo, pretende manter seu país como o líder absoluto do mundo, ainda que em detrimento de outros países de economia mais modesta.
Mas de nada adianta tudo isto e não há como evitar. Economistas e cientistas políticos que se aprofundaram neste tema já acreditam que, até o ano de 2050, o PIB (Produto Interno Bruto) da China ultrapassará o dos Estados Unidos. São os casos, por exemplo, dos estudos feitos por Giovanni Arrighi e Marcos Cordeiro Pires. Como se sabe, o PIB é o melhor indicador da saúde econômica de um país. Quanto maior sua atividade econômica, mais consistentes vão se tornando os seus setores de produção. Acompanham esse aumento sistemático do PIB, o natural desenvolvimento tecnológico, a expansão comercial com a conquista de novos mercados para exportação de produtos e, evidentemente, a significativa melhora da própria infraestrutura socioeconômica do país. Além dessas questões, desde o início do seu segundo mandato, o presidente Trump tem empreendido uma política não só agressiva no plano internacional, mas também abominavelmente imperialista e expansionista.
Como pode o presidente de um país que se dizia o grande guardião da democracia, o paladino da justiça (agora não mais), se arrogar o direito de simplesmente invadir outro país, sequestrar seu presidente e levá-lo preso para os Estados Unidos acorrentado nos pés e algemado, como bem mostraram os media de todo o mundo? O pretexto para essa invasão do território venezuelano se baseou no argumento de que o presidente Nicolás Maduro era chefe de uma organização de traficantes de drogas, algo que não foi provado até agora, muito embora ele continue preso em território americano. Além disso, nada menos de 23 barcos foram explodidos em alto-mar, por ordem do governo americano, com a alegação de que seus ocupantes trabalhavam para o narcotráfico. Foram nada menos de 109 assassinatos que ficaram por isso mesmo. A ONU e as leis do direito internacional se calaram sobre a usurpação do direto à soberania de um país que, apesar de tudo, ainda se chama Venezuela.
Por trás dos argumentos de Donald Trump, é evidente, está o interesse pelo petróleo daquele país, o segundo maior produtor do mundo. Com relação a isto, sim, há provas evidentes. Um dos primeiros acontecimentos após a tomada armada do território venezuelano foi o início das instalações de empresas petrolíferas americanas nos poços de petróleo daquele país. Vale lembrar também o seguinte: com que autoridade o presidente de um país, poderoso ou não, pode desrespeitar as leis do direito internacional e a Carta da ONU de 1945 (as leis nesse caso são as mesmas) e simplesmente violar a soberania de outro país? Apenas para esclarecer melhor o leitor, transcrevo os dois incisos do Artigo 2 desta Carta, que tratam especificamente da igualdade soberana. Vejamos: Artigo 2, Inciso 1: “A Organização baseia-se no princípio da igualdade soberana de todos os seus membros.” Já o inciso 4 deste mesmo artigo esclarece que países membros da ONU não devem ameaçar e muito menos usar a força bélica como forma de violar a integridade territorial, a soberania e a independência política de qualquer outro país.
Bem, mas a Carta da ONU e o direito internacional parecem não servir para os Estados Unidos. Como se sabe, são diversos os países já invadidos pelas forças bélicas americanas e aproveito para lembrar que Donald Trump não é o único presidente sequestrador. Em 20 de dezembro de 1989, o presidente George W. Bush ordenou a invasão do Panamá, com o objetivo precípuo de sequestrar seu presidente, Manuel Noriega. A Operação Just Cause (uma farsa) realizou o sequestro em 3 de janeiro de 1990 e o levou para Miami. Lá, ele foi julgado e condenado a 40 anos de prisão, acusado de pertencer a um grupo de traficantes. Os dois presidentes americanos aqui citados não respeitaram as leis do direito internacional. Para situações como esta é que existe o Tribunal de Haia. Trata-se de um Tribunal Penal Internacional-TPI que julga as pessoas acusadas de cometerem crimes muito graves. Apenas como exemplo, em 21 de dezembro de 2024, o Tribunal de Haia emitiu mandado de prisão contra o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, por conta do genocídio que vem praticando contra o povo palestino.
Já em 1964 os Estados Unidos estavam prontos para invadir o Brasil, se os militares não derrubassem João Goulart da presidência da República. A chamada Operação Brother Sam, que apoiou ostensivamente o golpe militar daquele ano, estava pronta para agir contra o governo de Goulart. O presidente Lyndon Johnson mandou uma poderosa frota naval com porta-aviões, destróieres e alguns navios com material bélico e combustível para apoiar os militares que queriam depor o presidente brasileiro, legitimamente eleito pelo sufrágio universal. Todo esse arsenal se distribuiu estrategicamente pelo litoral brasileiro.
O presidente ficou acuado e sem alternativas. Diante do quadro político interno irreversível, uma vez que ele não tinha maioria de deputados no Congresso Nacional, João Goulart renunciou à presidência da República, embora não tenha oficializado sua renúncia. Se retirou de Brasília e não mais voltou. Situações como estas parecem fazer parte da cultura militar norte-americana. O fato é que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial até nossos dias, temos visto sistematicamente este país fazendo vítimas, praticando atitudes imperialistas em busca dos mais variados interesses ilegais e suspeitos. Foi assim com o Vietnã, Iraque, Afeganistão, Síria, Líbano, Panamá, Cuba, Nicarágua, entre outros, totalizando 64 intervenções que este país realizou logo após o fim da Segunda Guerra Mundial.
O presidente Donald Trump, sem dúvida, incorporou muito bem o aprendizado imperialista do seu país e, mais do que isso, vem aprimorando seus conhecimentos sobre esta prática abjeta. Adicionando mentiras como vem fazendo na guerra contra o Irã, agressividade, blefes, desrespeito e ódio em seus pronunciamentos, ele se reporta e trata governantes de outros países como se fossem cidadãos pertencentes a um estágio civilizatório inferior e, portanto, desimportante para o seu país todo-poderoso. Foi assim, de forma desrespeitosa e truculenta, que ele tratou o Papa Leão XIV, quando disse a toda a imprensa internacional que “o Papa é fraco no combate ao crime e terrível em política externa”. As infelizes frases de Trump foram ditas após o Sumo Pontífice não concordar com os bombardeios norte-americanos no Irã. Furioso com a discordância, ele arrematou: “Não quero um Papa que ache aceitável o Irã ter armas nucleares”. Convém registrar que o Vaticano além de ser o grande templo da Igreja Católica, é oficialmente um país com o nome de Estado da Cidade do Vaticano. Além disso, o Papa é a maior autoridade da Igreja Católica e certamente merece mais respeito.
Mas, se observarmos melhor, a política imperialista e expansionista do governo Trump tem trazido mais dissabores e derrotas do que vitórias ao seu país. Com a justificativa de que a ilha da Groenlândia, oficialmente território da Dinamarca, está localizada em uma região estratégica para a defesa dos países ocidentais especialmente contra Rússia e China, o presidente americano simplesmente tornou pública a sua tresloucada decisão de tomar a Groenlândia da Dinamarca. E mais: se esta ilha não fosse cedida ao seu país, ele a iria tomar à força, colocando o arsenal americano em direção a Nuuk, capital da ilha, para dela tomar posse oficialmente. Mais uma vez Trump comete um erro contumaz, um erro de obstinação pelo alheio. Mais uma vez também, desrespeitando as leis do direito internacional e da Carta da ONU, mas agora com um agravante extremamente grave e perigoso.
A Dinamarca, tanto quanto os Estados Unidos, são membros fundadores da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em 1949 e, sendo assim, iria desrespeitar não só o direito internacional e a Carta da ONU, mas também o próprio estatuto da sua entidade. Seu plano não deu certo. Sem exceção, todos os países-membros dessa organização apoiaram a Dinamarca incondicionalmente, e isso fez o presidente americano recuar de seus delírios expansionistas.
Provavelmente percebendo que o desgaste político seria incomensurável tanto junto à Otan quanto no plano internacional, Trump recuou, talvez alertado por seus conselheiros políticos. Por quanto tempo não se sabe, é provável que nem ele mesmo saiba. Afinal, seu plano ainda mais ousado de tomar Cuba e transformá-la em um satélite americano, nos mesmos moldes em que fez com a Venezuela, tem avançado como prioridade. O presidente americano isolou o país caribenho e, nessas condições, sua população vive uma situação verdadeiramente caótica. Não tem como exportar nem importar nada. Apenas a Rússia conseguiu levar um navio-tanque com combustível, mas isso conta muito pouco. Nesse momento, Lula procura formar um grupo de países que deverá conversar com autoridades americanas para que o governo suspenda o bloqueio econômico a Cuba.
O fato real é que não adianta querermos “dourar a pílula” e procurarmos amenizar as críticas ao presidente americano. Suas recorrentes atitudes extemporâneas e irresponsáveis são incompatíveis com o importante cargo de presidente do país mais poderoso do mundo. É uma situação que deixa toda a comunidade internacional em permanente insegurança sobre o dia seguinte. Para ele o direto internacional não é levado a sério, não respeita a Constituição de seu país, muito menos as relações internacionais e, em termos de geopolítica, suas ações são extremamente abusivas, como vimos no caso da Groenlândia.
Enfim, é um homem realmente belicista. Suas decisões verbalizadas são agressivas, quase sempre passam por uma opção pelo uso da força armada para tentar resolver situações de conflito. Nesse momento, estamos presenciando exatamente isso. A guerra no Oriente Médio com o Irã é absolutamente desnecessária, como a grande maioria de todas as guerras. Os interesses dos Estados Unidos e de Israel nessa região poderiam, antes de todo este belicismo que vemos hoje, serem exaustiva e insistentemente discutidos com a mediação da ONU e de outros países que já se propuseram a fazê-lo. Muito melhor do que a morte de tantas pessoas na guerra, é usarmos o verbo como arma contra a desinteligência, contra a malquerença. Se assim fizéssemos, em algum momento vislumbraríamos a paz com a clareza necessária para celebrarmos esse momento.
E aqui quero fazer uma observação que precisa ser levada muito a sério por quem acompanha a política internacional, mas também por todos nós. Há algo de bastante preocupante no entorno de toda a beligerância do presidente Trump. Trata-se da sua saúde mental. O psicólogo John Gartner, da Universidade de Johns Hopkins, afirmou categoricamente que o presidente está com sua saúde mental comprometida e vem apresentando “transtornos mentais” há pelo menos dez anos. É isso o que diz a matéria do jornalista Iker Seisdedos Garcia, publicada no jornal El Pais.
Mas John Gartner não está só nessa afirmação. Em um estudo coordenado pela psiquiatra e professora Bandy Lee, da Universidade de Yale, ela reuniu 27 colegas seus, todos psiquiatras especializados em saúde mental. O argumento unânime entre esses estudiosos aponta para uma instabilidade mental perigosa do presidente Donald Trump. Este trabalho resultou em um livro de 2017 com o seguinte título: The Dangerous Case of Donald Trump (O Caso Perigoso de Donald Trump).
Ainda em 2017, o jornal The New York Times recebeu carta de um grupo de psiquiatras, mostrando sua preocupação com a saúde mental do presidente Trump. Este documento discorre sobre sua notória instabilidade emocional e isso o impediria de continuar na presidência dos Estados Unidos. Em 14/4/2026, o jornal Folha de S. Paulo publicou artigo do The New York Times, onde democratas e ex-aliados do presidente entendem que ele deveria passar por um exame “sobre sinais de demência e declínio cognitivo”. De fato, não é sem motivo que se questiona a saúde mental de Donald Trump. Convenhamos que desrespeitar o Papa da forma acintosa e grosseira como o fez, não é um bom sinal de equilíbrio mental.
Apenas para citar mais um pronunciamento estapafúrdio do presidente, quero lembrar sua frase infeliz sobre o Irã, uma gravíssima ameaça ao país por não concordar em desistir de realizar o enriquecimento de urânio para obter energia nuclear. Disse o presidente: “Uma civilização inteira morrerá esta noite”. Não podemos esquecer que a civilização iraniana tem sua origem na Pérsia, antigo país que deixou um legado cultural em todos os setores da ciência dos mais preciosos. Que se pense, por exemplo, na área da arquitetura, nos famosos palácios de Persépolis e nos direitos humanos, o chamado “Cilindro de Ciro”, sempre celebrado como um tipo de “marco zero” dos direitos humanos, exaltando a liberdade religiosa, hábitos, costumes e tradições dos povos conquistados. Não há maior estultice do que essa.
O presidente Trump exacerbou em sua ameaça ao falar da destruição total da cultura iraniana. A essa altura, é bastante provável que psiquiatras e psicólogos observadores do seu comportamento tenham uma grande dose de razão em seus respectivos diagnósticos. É o caso do psicólogo John Gartner, um dos seus maiores críticos, que o classificou como um “narcisista maligno”, sociopata e paranoico. Esta expressão foi criada em 1964 pelo psicanalista e sociólogo alemão Erich Fromm, integrante da Escola de Frankfurt e, posteriormente, mais estudada pelo seu colega também psicanalista Otto Kernberg na década seguinte. Ambos concordam que esta patologia compreende ainda comportamento sádico e antissocial, impulso incontrolável de dominar e aniquilar o seu oponente. De fato, percebe-se nos pronunciamentos de Donald Trump um prazer mórbido e arrasador de humilhar seus adversários, o que caracteriza claramente seu sadismo e uma condição social de alto risco. Portanto, é lamentável, não há maior estultice do que essa. Os herdeiros da cultura persa merecem o respeito com o qual faltou o presidente americano.
Não há nenhuma prova de que o Irã tenha armas nucleares, ou a intenção de tê-las. Pois bem, senhor Donald Trump, o ideal mesmo é que nem os Estados Unidos, nem Israel ou qualquer outro país em todo o mundo tenham armas nucleares. Tê-las não é uma virtude, mas também não deve ser privilégio. Seu país, Israel, Paquistão, Coreia do Norte, Rússia, França, Reino Unido, China e Índia formam o grande “Clube da Morte”. É isto sim, uma desgraça para a humanidade. Não esqueça que seu país lançou as bombas atômicas em Nagasaki e Hiroshima. Esta sim, é uma grande mancha na história da humanidade. Este sim, foi o ato mais espúrio, mais covarde que alguém pôde até hoje praticar. E o povo americano que nada tem a ver com a brutalidade dos atos de seus governantes, que não aprovou e nem aprova, carrega o constrangimento do genocídio em Nagasaki e Hiroshima. Espero que as ogivas atômicas de seu país e de seus aliados jamais sejam novamente usadas e se tornem peças obsoletas de museu, mas marcando seu tempo na história da civilização.
E a Organização das Nações Unidas (ONU), como age nesses conflitos? A cada dia que passa está mais desprestigiada. Desmoralizada e sem o devido respeito dos seus membros. Cada vez mais obsoleta e empoeirada. Talvez ainda possa servir como uma espécie de “escritório da paz” para mediar pequenas causas, nada mais. Recentemente, na Alemanha, em viagem de negócios entre os dois países, o presidente Lula propôs uma reforma de base em sua Carta mencionando, entre outras coisas, o refazimento do seu Conselho de Segurança. Com todos os méritos, recebeu longos aplausos de quem o ouvia. Concebida em 1945 pela China, ex-União Soviética, Reino Unido, Estados Unidos e mais 47 países, entre eles o Brasil, esta instituição tinha objetivos de grande relevância que, se hoje respeitados, teríamos um mundo completamente diferente e nada conflituoso. Sua Carta escrita em 26 de junho de 1945, é composta de nada menos que 19 capítulos e 111 artigos enfatizando especialmente o compromisso de seus membros com a segurança, a igualdade social, a paz e a segurança internacionais, os direitos humanos, a soberania dos seus países-membros, a resolução pacífica de conflitos, a autodeterminação dos povos, entre outros aspectos não menos importantes. Agora só falta os países-membros desta organização respeitarem o documento que elaboraram e assinaram. Mas, uma coisa é o que está escrito no papel, outra coisa é como agem os signatários desta Carta, o documento mais importante para as relações internacionais, a política entre os países em todo o mundo e, por decorrência, também para a compreensão e a harmonia de toda a civilização. Isso não acontece, evidentemente.
Enquanto vivemos três guerras (Ucrânia x Rússia, Israel x Hamas, Estados Unidos e Israel x Irã) que ocupam o espaço midiático de todos os veículos de comunicação no mundo, o continente africano enfrenta um momento caótico com guerras terríveis como, por exemplo, acontece no Sudão em conflitos ininterruptos entre o exército do Estado, contra as Forças de Apoio Rápido (RSF), cujo resultado ainda parcial é de milhares de mortes, não apenas em consequência da guerra, mas também da situação miserável em que se encontra a população sudanesa, onde morrer de fome tornou-se algo recorrente e, portanto não a assusta mais. Para esta gravíssima crise humanitária o que temos é uma razoável ação da ONU, algo muito semelhante ao que aconteceu com a República de Biafra entre os anos de 1960 e 1970. Mas o Sudão não é um caso isolado. Atualmente, são mais de 25 países do continente africano vivendo conflitos armados, questões de religião, instabilidade política e disputa por recursos minerais. Não é o caso de os países ricos se solidarizarem à ONU e, juntos, amenizarem o sofrimento indelével de uma população que vem sendo dizimada diariamente pela fome e pela bala?
Pensemos juntos nisso, caro leitor.________________
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