A crise vai se agravar no ensino superior brasileiro imagem: Pixabay
A crise vai se agravar no ensino superior brasileiro

Carlos Teixeira
Jornalista I Futurista

Em 2019, as instituições de ensino superior privadas brasileiras viverão o agravamento do cenário de incertezas e problemas com os quais já convivem hoje, com a queda do número de matrículas. Ou a constatação de que a crise se consolida como um uma quadro estável e de longo prazo.

Um cenário político repleto de instabilidades e incertezas, uma economia que não reage suficientemente para gerar oportunidades de trabalho e um ambiente social repleto de desconfianças, insatisfações e radicalismos vão construir o cenário negativo para o setor, essencial para o futuro de todos os países.

Na verdade, no Brasil, haverá simplesmente a continuidade de problemas detectados nos últimos anos. Dado marcante, já em 2018, é o fato de que boa parte dos 733 mil estudantes que ingressaram no Ensino Superior em 2014 com financiamento do governo, através do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), deve se formar.

Financiamento estudantil: retração

Sem recursos públicos, que serão cada vez mais escassos, o número total de matrículas, que foi impulsionado pelo ingresso desses estudantes, tende a voltar a cair. Para o sociólogo e consultor em educação, Carlos Monteiro, quando sair o resultado do censo da Educação Superior, a sociedade perceberá que 2017 foi mais um ano com matrículas em queda e evasão em alta, o que ele define como uma dupla explosiva.

Mas é em 2018 que vamos verificar a consequência do gigantesco número de estudantes com Fies concluindo seus cursos. “A perspectiva é de uma queda ainda mais acentuada”, avalia o consultor em matéria publicada no site GauchaZH.

Além do passivo anterior, há em frente o cenário de mudanças das regras do financiamento, com a adoção do “Novo Fies”. Sob o argumento de aprimorar sistemas de financiamento dos estudantes, as regras geram novas dificuldades tanto para estudantes quanto para as universidades e faculdades privadas. A Federação Nacional das Escolas Particulares prevê uma redução de 20% no número de estudantes que recorrem aos recursos públicos para alcançar um diploma.

Histórico

Responsáveis pelo ingresso de três em cada quatro alunos de graduação no país, as instituições privadas de Ensino Superior encontram-se em um labirinto. Pela primeira vez desde 1991, os dados aprofundados sobre faculdades, centros universitários e universidades brasileiras, divulgados pelo Ministério da Educação (MEC), referentes a 2016, mostram que o número total de matrículas nos cursos presenciais diminuiu.

Nas particulares, a queda, no país, foi de 2,5% em 2016. Em todo o Brasil, o número de matrículas na educação superior havia tido média anual de 4% de crescimento nos 10 anos anteriores, entre 2006 e 2015. Na realidade da crise recente do País, a educação a distância (EAD) tem sustentado o aumento de matrículas na graduação.

Com previsão de crescimento de 10% a 15% ao ano, podendo chegar a 1,96 milhão de matrículas em 2018, a EAD é uma das principais tendências da educação superior no Brasil.  Em 2016 os matriculados em cursos presenciais eram 3 milhões, contra quase 1,5 milhão de estudantes matriculados em cursos a distancia.

Cenário negativo

O último levantamento sobre o tema, realizado pela Associação Brasileira de Ensino a Distância, em 2015, mostra que as instituições que oferecem cursos totalmente online respondem por 50% da total de taxa de evasão no ensino superior brasileiro. Nos cursos semipresenciais e presenciais a proporção é de 25%.
Os motivos apresentados pelos alunos para a desistência são falta de tempo, questões financeiras e dificuldade de adaptação. Tempo e dinheiro são justamente os fatores que aumentaram a taxa de matrículas no EAD.

A expectativa é de que, diante de um terreno fértil moldado por nova regulamentação do setor, crise econômica e mudanças nas regras do financiamento público estudantil, a EAD saia do patamar atual de 18,6% para 50% do total de matrículas em faculdades e universidades daqui a pouco mais de 10 anos, se igualando aos números do ensino presencial.

Culto à informalidade

A partir de 2019, a tendência de retração das matrículas em instituições privadas de ensino se consolida com uma queda de jovens interessados em frequentar uma faculdade. Será o resultado de uma percepção de que a educação superior não tem mais a capacidade de cumprir as “promessas” de melhoria de vida para grande parte da população.

Sem o crescimento econômico esperado, muitos dos que se formaram nos últimos anos formarão um contingente de exemplos da falta de sentido em investir e assumir dívidas e ter diplomas pendurados na parede. Se a universidade já não protege o jovem do desemprego, por que assumir, então, uma dívida com o objetivo de ter um diploma universitário?

Além das questões conjunturais, há a perspectiva de avanço de uma ideologia da informalidade. Se você é habilidoso o suficiente, pode obter um emprego no Google sem um diploma universitário. Histórias tornadas públicas vão demonstrar, com frequência crescente, que faculdades não têm nada a ver com o desempenho do trabalho.

O mesmo vai valer para o empreendedorismo. Para o jovem, que percebe a ausência de oportunidades para os membros de sua geração, a saída será o trabalho independente, free lancer. Ao invés de investir em profissões com perspectivas indefinidas, será crescente a prioridade para as iniciativas individuais, o que tende a ser uma das marcas do mercado de trabalho na próxima década.