Trump desnuda o espírito do capitalismo

No futuro, se houver, o presidente dos EUA, Donald Trump, será o personagem que revela a distância entre as teorias e práticas exercidas pelo sistema dominante

Os historiadores registrarão, no futuro, o papel extraordinário de Donald Trump na demonstração do verdadeiro caráter do capitalismo. Nos relatos dos acontecimentos sobre a decadência e queda do império, como ocorreu com Roma e a Inglaterra, a, atuação do presidente como “todo poderoso”, operando sem limites éticos, jurídicos ou morais dentro e fora do país que o elegeu, possibilita compreender e revelar, com clareza solar, os métodos utilizados pelos EUA para manipular, roubar e matar.  

Trump, em sua segunda gestão, decidiu – ou percebeu – que as sutilezas dos discursos e iniciativas eram desnecessárias. A verdade é um estorvo a ser desprezado. Arrancou qualquer pudor, como um pedófilo sem limites, que escondeu a sua trajetória, revelando a mão de ferro do capitalismo em sua forma mais crua. Transformou a geopolítica em um grande negócio imobiliário, capaz de apoiar o genocídio em Gaza para levantar resortes para milionários. 

Antes dele, durante décadas, governos republicanos e democratas alegaram a “defesa da democracia” e dos “direitos humanos” para aplicar estratégias de manipulação, intervenção econômica e destruição militar. 

“O capitalismo ficou nu em praça global”, dirão os historiadores no final da próxima década. A democracia nunca foi uma prioridade para os governantes norte-americanos — todos. Enquanto tenta neutralizar os avanços da China e a construção de um sistema multipolar, o que a retórica trumpista explicitou, despindo as nuances da diplomacia liberal, foi o cardápio completo das ações que garantiram a hegemonia norte-americana durante séculos com desprezo absoluto pelos direitos dos povos. Sob o pretexto do “America First”, os métodos de imposição de interesses privados deixaram de ser discursos para se tornarem a própria política de Estado.

Os historiadores contarão como Trump demonstrou a farsa dos principais conceitos das ciências econômicas baseadas em teses financistas. Explicitou, mais do que nunca, como a crença na concorrência como princípio superior do capitalismo só existe nos manuais de ensino das escolas vinculadas aos banqueiros. Fora da teoria, no jogo real, as elites empresariais desejam o monopólio. No capitalismo, os governos atuam a favor da preservação e concentração do poder econômico, político e social. Quando for do interesse do sistema dominante, o protecionismo não é pecado. Se o dinheiro não for suficiente, que sejam usadas as armas.

O capitalismo existe para defender quem domina o dinheiro. E, para isso, não respeita qualquer questão ética ou humanitária. Extensão da direita, descarta os pobres quando eles deixam de ser necessários para apertar botões nas fábricas ou limpar o chão dos shoppings. Representa as corporações de extração de petróleo, de tecnologia e da indústria de armas.

O estrangulamento financeiro e o sequestro de bens de populações inteiras servem aos interesses dos capitalistas. Trump explicitou que o sistema financeiro global não é um bem público, mas uma arma de coerção. Através de sanções unilaterais, congelamento de ativos e exclusão do sistema SWIFT, os EUA asfixiam nações soberanas, forçando-as à submissão ou ao colapso humanitário, roubando-lhes o futuro para garantir a obediência política.

A história vai descrever a extração predatória de recursos como prioridade de governo. A diplomacia foi reduzida à chantagem do espólio. Seja exigindo o controle de reservas de lítio, a entrega de campos de petróleo ou a imposição de tarifas punitivas para drenar a riqueza industrial de aliados e rivais, o método é o da acumulação pelo roubo. 

Nações inteiras são tratadas não como soberanas, mas como subsidiárias a serem espoliadas.

A coerção militar seletiva e o terror de Estado servem como instrumento de abastecimento e domínio das corporações sobre o petróleo e outras riquezas. A manutenção de bases militares em mais de 70 países, as intervenções em territórios soberanos e o apoio irrestrito a golpes e ditaduras locais, sempre que o lucro ou a hegemonia regional estejam em jogo, são parte da moralidade explicitada por Trump. A morte de populações inteiras no Oriente Médio ou na América Latina não é um “dano colateral” para a mente trumpista; é o custo aceitável da manutenção do império.

Os historiadores terão a oportunidade de contextualizar a chave mestra condutora da nação opressora e decadente: o conceito de Destino Manifesto. Cunhada em 1845, a expressão não foi apenas o pretexto ideológico para o genocídio dos povos originários e a invasão do México no século XIX. 

O Destino Manifesto é a estrutura psíquica e moral do capitalismo representado por lideranças norte-americanas. É a crença inabalável na excepcionalidade — a ideia de que os Estados Unidos não estão sujeitos às leis universais que regem as outras nações, pois possuem uma missão divina e histórica de “civilizar” o mundo.

O Destino Manifesto foi a superestrutura ideológica que justificou a expansão contínua do capital. Ele transforma o saque em “missão”, a invasão em “libertação”, e a exploração em “ordem”. O “Outro” (o indígena, o mexicano, o soviético, o terrorista árabe, o imigrante latino) é sempre desumanizado, reduzido a um obstáculo no caminho da grandeza americana.

A crença de fundo religioso do século XIX assombrou e guiou as ações do governo Trump, com a fusão entre o Destino Manifesto e o niilismo corporativo.

O presidente dos EUA perdeu todo verniz missionário como representante maior do capitalismo. Ele não quis mais “salvar” o mundo; ele quis possuí-lo.

A mentalidade que moveu as ações de Washington é a de que o mundo é um vasto território a ser cercado, privatizado e explorado. Com o objetivo de impedir a divisão do mundo com outros protagonistas, em especial com a China, patrocinou destruição. 

A soberania alheia é vista como uma ofensa ao direito natural americano de expansão. Se no século XIX a fronteira era o Oeste selvagem, hoje a fronteira é o espaço cibernético, as rotas marítimas globais, as mentes das populações via big tech, e os bolsos dos contribuintes europeus e asiáticos.

Debruçados na análise de documentos, os historiadores vão registrar o grande paradoxo, a ironia suprema: ao tentar fazer da América uma fortaleza intransponível, Trump acabou por atuar como o maior delator do sistema. Ele mostrou que o capitalismo, em sua essência imperialista, não conhece fronteiras, não conhece piedade e não conhece limites. Se houver o futuro a ser descrito é porque o capitalismo finalmente foi superado.

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