A Rádio do Inconsciente informa

O inconsciente está sempre tentando enviar um e-mail para nós. A trilha sonora é o anexo da mensagem

“Eu desisto. Não existe essa manhã que eu perseguia. Um lugar que me dê trégua ou me sorria. E uma gente que não viva só pra si. Só encontro gente amarga mergulhada no passado, procurando repartir seu mundo errado”. Eis que um velho Taiguara, apresentado a mim por meu pai há uns 60 anos, retorna à minha mente como melodia enquanto acompanho as notícias sobre a insanidade geral que toma conta do planeta submetido à severidade climática, aos delírios imperiais de Donald Trump, ao genocidio realizado por Israel, o  avanço da extrema direita na Europa e América Latina, a dissonância cognitiva do bolsonarismo, militarização, feminicídios e riscos de guerra de grandes dimensões.

A música resgatada pela mente, muito mais autônoma do que acreditam os humanos racionais, acompanha e se manifesta a cada acontecimento ou percepção cotidiana. Digo que é o som ambiente cerebral, o “DJ Interno” responsável pela exposição do inconsciente. Canções registram e sintonizam as emoções e afetos com as histórias individuais. Nos filmes, nas peças de teatro e outros espetáculos são as músicas de fundo ou incidentais. Elas dão o tom do ambiente em cada cena, refletindo o estado de espírito que contamina o espectador – no caso, o portador do cérebro.. 

Cantamos, assobiamos ou ouvimos as nossas “rádios internas” sem nos dar conta, quase sempre, da tradução de percepções em que memórias internas se manifestam através das tais trilhas sonoras. Preste atenção na sua voz ou em quem canta e tenha a possibilidade de compreender sentimentos.

Se alguém me pergunta, digo que não desisto. Mas o desalento gerado pela insanidade humana atropela o desejo de ser otimista e se manifesta quando soa “O universo no teu corpo”, de 1970, música do cantor, compositor e pianista uruguaio radicado no Brasil. A lembrança expressa, em momentos bastante específicos, as sensações de fragilidade e esgotamento diante da força do poder político e econômico dominante.  

O artista foi um dos mais censurados durante a ditadura militar brasileira. Se destacou nos festivais de música dos anos 1960 e 1970. Dono de sucessos como “Hoje” e “Helena, Helena, Helena” e “Que as crianças cantem livres”. De forma geral , as músicas de Taiguara ressoam na caixa craniana em momentos de tensão para alertar sobre a urgência da resistência psíquica diante do mundo das sombras responsáveis pela destruição. 

Vira e mexe flagro um João Gilberto interno reverberando a possibilidade de desafinar na tal caixa de som interna, canções relacionadas com acontecimentos, sensações e pensamentos cotidianos, de momentos ou tempos longos. Desafinados sentem imensa dor. O ego, a parte racional que precisa trabalhar, pagar contas, se adequar ao mundo ou sentir alegria conflita com as dores latentes. O inconsciente salta como manifestação da dissonância cognitiva entre os mundos ideal e o real. E lá vem o chato do João Gilberto para não deixar passar as lembranças. 

Você pensa em chutar o balde e o seu  “DJ Interno” aciona versos de “Deixa a vida me levar, vida leva eu”, o tom afinado com as tentativas de superar crises pessoais e angústias sufocantes, pela negação ou superação. Popularizada pelo cantor Zeca Pagodinho, a estrofe se adequa ao desejo de entregar o corpo e a alma ao fluxo natural das coisas. “Pense apenas no presente e no futuro, confie”, diz sua força interna: o destino vai acomodar as melancias na caçamba até a chegada na feira.

Em momentos em que a esperança supera o medo, em que a civilização consegue dar mais um passo evolutivo, mesmo que tímido, o DJ recorre a “O bêbado e o equilibrista”. Você ouve perfeitamente Elis Regina, como se estivesse em uma apresentação atrás dos seus olhos: “Mas sei que uma dor assim pungente, não há de ser inutilmente. A esperança dança na corda bamba de sombrinha e em cada passo dessa linha pode se machucar”. 

Agora mesmo, enquanto escrevo de madrugada, recebo mais um recado. A rádio do inconsciente toca Gonzaguinha: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar, a alegria de ser um eterno aprendiz. Ah meu Deus!, eu sei, eu sei, que a vida devia ser bem melhor e será. Mas isso não impede que eu repita: É bonita, é bonita. E é bonita”.


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