CARLOS PLÁCIDO TEIXEIRA
Jornalista, criador e produtor do Radar do Futuro
Encheu o pulmão, em quatro inspirações pausadas. A energia necessária para resgatar a concentração e o equilíbrio entra pelas narinas. Sente o desconforto de travar o pulmão durante sete segundos. Enquanto libera o ar, mantém o roteiro de pacificação interna. Conta um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete e oito segundos. Refaz o ritual. Conter a ansiedade é sobreviver em ambientes tóxicos. A juíza Eva mantém o olhar concentrado nas três bandeiras fincadas no suporte de madeira ao lado do plenário do júri. Brasil, São Paulo e Tribunal de Justiça do Estado. Panos, sim, são apenas panos, estáticos, impassíveis e coniventes com os desequilíbrios de forças entre a humanidade e a barbárie. Os panos atestam a decadência de cada uma das instituições, a fragilidade das leis. Testemunham mais uma sessão de julgamento, destinado a proteger a insanidade masculina.
Força de resistência, Eva registra mais uma condenação no enfrentamento do masculinismo. Ao assinar os documentos da sentença, celebra intimamente a expectativa de que, pelo menos provisoriamente, Adão do Nascimento seja um rato a menos no esgoto que rompeu os rios canalizados no século passado. Um homem a mais na cadeia, um macho encaminhado para o antro de receptação e manutenção de machos semelhantes, infestado de ratos e baratas que tornam os rios e os ambientes insuportáveis. Nas penitenciárias, os masculinistas são muitos. Basta tirar um de circulação de algum ambiente de poder para outro ocupar o lugar. Eva tenta controlar a ansiedade, o medo de que tudo seja mais um espetáculo inútil na sociedade que se alimenta ainda de ilusões e mentiras.
A juíza Eva conhece bem a história de Adão, filho de Divino.
Pouco depois das dez e meia da manhã de um dia de inverno de 1973, Divino recebeu o aviso sobre uma ligação telefônica. Interrompe a atividade rotineira na firma de engenharia onde trabalha como desenhista copista. Larga a régua “tê” e os esquadros, fecha as canetas nankin e apaga o cigarro esquecido ao lado do papel vegetal. Caminha até o escritório da administração, sem pressa. Dá bom dia para o chefe, sem prestar atenção nos colegas – com licença, seu Márcio – diz em voz baixa. Pega o telefone em cima da mesa da secretária, com a mesma ausência de pressa e o automatismo de quem desenha linhas em projetos de redes de água e esgoto de residências.
– Alô, pronto, quem é?
– Oi, Divino – dispara o vizinho – Queríamos falar com você desde cedo, mas só agora conseguimos. As suas meninas foram lá em casa pedir socorro porque a Amélia estava com muitas dores e contrações. Levamos ela para o hospital.
Nem deu tempo para Divino falar algo e o vizinho continuou, ansioso, quase gritando:
– O Adão estava com pressa mesmo. Foi nascendo logo. Mal descemos da Kombi e o bebê já estava nas mãos das enfermeiras.
– Vou pedir liberação aqui no trabalho e vou pra aí logo – disse Divino, elevando o tom de voz, para chamar a atenção do chefe e dos colegas que estavam em volta. Não fez perguntas sobre o menino, que ele já chamava de Adão desde o início da gravidez. E muito menos quis notícias sobre a esposa e as duas filhas, que ficaram na casa do vizinho. Tinha certeza de que seria um menino dessa vez. – Intuição masculina – ele dizia. Na época não existiam essas coisas de exames para identificação do sexo. Mas ele tinha convicção mesmo assim. Afinal, o homem sempre sabe.
Agradeceu formalmente a informação do vizinho, como se fosse um fato normal ser comunicado do nascimento de mais um filho. Enquanto desligava o telefone, girou o corpo lentamente em direção ao chefe. Pediu autorização para sair mais cedo do trabalho. Além de Márcio, o chefe, a secretária e o contador, concentrados em papeis em suas escrivaninhas, testemunharam o diálogo e o jeito um tanto teatral no pedido de liberação.
Estranhando a cena, ficaram imobilizados em suas cadeiras, sem expressar interesse ou parabenizar Divino pelo filho recém chegado.
– Foi como se o Divino tivesse recebido um aviso da chegada da marmita de almoço – comentaram com os outros colegas depois.
Antes de ir à maternidade, o pai de menino foi celebrar a chegada de Adão no bar do Quincas, na rua da Paquequer. Pagou uma rodada de cerveja e duas de pinga para desconhecidos. Bêbado, finalmente demonstrou alguma alegria. Menos pelo recém nascido e mais por uma sensação de potência masculina. Inspirado pela crença de que a vitória de macho deve ser devidamente comemorada, saiu do boteco, virou à direita e, apenas cinco passos depois, entrou no Hotel Brilhante. Contratou duas meninas para reafirmar o contentamento em colocar um saco roxo no mundo. Dessa vez não ouviria brincadeiras tradicionais dos ambientes dos homens. Ninguém diria “eta, Divino, passou de usuário a fornecedor”, a brincadeira tradicional dos colegas e amigos machos quando nasceram as duas filhas.
O gênio explosivo de Adãozinho ficou evidente logo após o primeiro aniversário. Não aceitava um não, uma desatenção, algum aviso para não enfiar o dedo na tomada ou não puxar a toalha da mesa e para não jogar a comida no chão. Parecia ter consciência do poder que exercia sobre a mãe e sobre as irmãs. Divino achava engraçado quando o menino berrava para exigir colo da mãe, barriguda novamente, cansado do trabalho da casa e das exigências do marido.
– A senhora precisa levar o Adãozinho a um psicólogo – recomendou a diretora da primeira creche por onde a criança passou. A sugestão não representou uma surpresa para Amélia. A mãe estranhava a quantidade de brinquedos que o menino dizia ganhar das professoras. – Ele gosta de tomar as coisas das outras crianças – disse a diretora, com a doçura possível de momentos assim. Aos cinco anos, era o próprio capeta na forma de guri.
Além de achar os casos de Adão engraçados – afinal, quem nunca fez algo parecido –, desde os primeiros casos Divino resistiu à possibilidade de levar o filho a um especialista em comportamento infantil.
– Vamos colocar o Adãozinho em outra creche – decidia. – Filho meu não precisa de tratamento com psicólogo. Quem faz terapia acaba parecendo mocinha. Fica complicando as coisas, pensando na vida e vira maconheiro ou viado – dizia todas as vezes que os casos de agressividade e desobediência se repetiam, desde a primeira creche até os anos seguintes, quando Amélia era convidada para reuniões por conta do comportamento do menino. Inicialmente em creches e depois em escolas. Primeiro, tomando brinquedos, depois, arrumando brigas com outros meninos. Até se vangloriar de bater em meninas.
– Conheci o capeta em forma de guri – cantavam todos com quem ele convivia, inspirados em uma música famosa dos tempos de Jovem Guarda.
Conheceu a zona da Mirtes aos 16 anos. Tal pai, tal filho, frequentadores do mesmo puteiro onde Divino foi celebrar a chegada do filho. Nascido em um lar evangélico, ele repetia com frequência, em casa, no bar, com os amigos, depois do futebol e com os pastores da igreja do Universo que aceitaria tudo na vida, menos ter um filho viado. – Eu mataria um filho chegado numa rola – dizia com a naturalidade do mundo masculino. Desde quando Adão tinha onze anos, o pai prometia que levaria o menino para passar a vara nas putas na zona que ele frequentava uma vez por mês, quando o patrão entregava o dinheiro do salário. No dia do pagamento, quase sempre na primeira sexta-feira do mês, corria até o banco, depositava no caixa e retirava a quantia suficiente para o ritual de comemoração e para o pagamento de algumas despesas pessoais e da casa.
– Meu véi me levou pra zona do Centro e pagou uma velha pra me ensinar a trepar – contou aos companheiros de rua, entre gargalhadas histéricas.
– O trouxa acha que eu nunca bimbei antes.
Era verdade, Divino não tinha a menor ideia do prontuário e muito menos das vocações de Adão. E mesmo as aprontações que chegavam aos ouvidos eram recebidas como “coisas de adolescentes”, o rótulo que durante décadas relativizou todo o comportamento de gerações de meninos. Não só havia experimentado o sexo. Forçava beijos de meninas. Usava os músculos para obter sexo. Ria quando trepava com elas sem consentimento. A violência já era a sua marca pessoal.
Aos 18 anos, Adão surpreendeu a família, inclusive o pai, ao anunciar a descoberta de uma vocação: ser policial militar. Poder lutar contra bandidos, portar armas, matar. A carreira na polícia, onde Adão entrou em 1991, parecia destinada ao sucesso. De porte atlético, destacou-se no manuseio de armas de fogo e fez diversos cursos de aperfeiçoamento, dentre eles o de atirador especialista do Grupo de Ações Táticas Especiais. Logo foi classificado como “um bom matador”, pelos colegas. Prezava a fama. Dizia para os colegas que policial bom tinha pelo menos três mortes no currículo.
– Meus parentes diziam que sou vagabundo demais para conseguir subir na vida. Não vou ter a vida de merda do meu pai. A profissão de Divino, desenhista copista, nem existia como antigamente. No final do século, o computador exigiu adaptações que ele não conseguiu entender. Perdeu o emprego, nunca a pose.
– Adão é foda – definia Divino, orgulhoso da paternidade genética e moral. Compartilhava cervejas em celebrações do filho. Ouvia com prazer adolescente as histórias sobre as ações em que seu representante da lei era o justiceiro, o heroi Imaginava cenas como os filmes de polícia e bandido e de guerra de Hollywood. Lamentou quando Adão avisou que se casaria com uma companheira de quartel, Gisele.
– Mulher é problema – comentou. – Melhor ter muitas do que uma.
– Quem disse que vou ficar só com uma? – contestou Adão, irônico, com a arrogância de sempre.
Apresentada à família e companheiros de farda e farra como a eleita, Gisele tinha 29 anos. Foi escolhida logo ao iniciar a carreira na polícia. Desde a adolescência sentia paixão pelas fardas. Loura artificial, alta de olhos muito negros e corpo de quem passou anos cultivando a forma física, não resistiu ao assédio do militar e professor de 45 anos. Casaram-se em seis meses. Ele tinha pressa. Ela, nem tanto. Queria viver, subir na carreira. Oito anos depois estava morta, com as fotos publicadas nos sites de notícias. Mais um feminicídio. Uma mulher a mais vítima do machismo e do conservadorismo saído das cavernas como praga da década iniciada com a pandemia de Covid..
O caso repercutiu amplamente nas redes sociais e na imprensa tradicional, como mais uma repetição da onda masculinista. A mulher queria a separação. Não suportava mais a agressividade do marido, além das traições. Mensagens revelaram o relacionamento abusivo, onde o oficial exigia submissão e a ameaçava. Amigas da vítima relataram à Justiça que Gisele já demonstrava medo de ser assassinada pelo marido.
– Você tem fazer o que eu mando, porque você é minha mulher e eu sou o macho-alfa – dizia em mensagens registradas no WhatsApp.
– Meu cliente sofre de ‘Síndrome do Machismo Hereditário’. O pai o criou para ser assim. Ele é vítima de uma sociedade que o fabricou – argumentou o defensor ao apresentar a defesa final. Em 2032, quando finalmente Adão foi levado a julgamento, advogados adotavam a alegação de doenças ou transtornos mentais hereditários como atenuantes para as ações de seus clientes. – É a estratégia de defesa “moderna” – diziam os defensores dos matadores de mulheres.
Entre os juízes, homens, a tese era aceita. Eva resistia à força patriarcal. Atua no ambiente de conformidade, onde os colegas de magistratura aceitam as sentenças brandas, destinadas a preservar o status quo. A insanidade masculina tem proteção.
– A sociedade que o fabricou é a mesma que seu pai aprovou, que seu treinamento na PM exacerbou e que você escolheu reproduzir quando espancou Gisele e simulou o suicídio por conta de uma crença de superioridade masculina – discursa ao condenar Adão.
– Alegações de ‘herança maldita’ não anulam a sua capacidade de tomar decisões. Você não é um produto. Você é o fabricante do próprio crime.
Condenado como assassino, Adão mantém a pose, impassível e arrogante, com o olhar ameaçador. É condenado como mais um entre vários. Adão, filho do Divino, herdeiro do conservadorismo que não só resiste, mas se expande, infiltrado nos ambientes sociais, preservando o seu legado. Eva é a resistência. Mas outros virão com os mesmos crimes, a mesma arrogância dos machos que se imaginam justiceiros.

