CARLOS PLÁCIDO TEIXEIRA
Jornalista, criador e produtor do Radar do Futuro
Zeca não sabe se a inveja ainda é pecado nestes tempos esquisitos em que as pessoas ditas religiosas trocaram o amai-vos uns aos outros por odiai a quem pensa diferente, enquanto padres benzem armas e pastores promovem shows para transferir dinheiro dos pobres para o bolso pessoal. Na dúvida sobre os valores predominantes na vizinhança e no mundo, concedeu-se salvo conduto para a possibilidade de invejar, como sentimento humano legítimo.
Mesmo que ainda seja pecado, espera não ser condenado ao inferno, graças a atenuantes. Crente nas próprias boas intenções, imagina ser perdoado. Afinal, não é aquele invejoso que cobiça coisas físicas e etéreas alheias. Muito menos que o outro, seja quem for, perca tudo. Não importa se o vizinho tem carro melhor que o dele. Também não demonstra despeito pela fortuna do trilionário e dono de empresa de foguetes Elon Musk, cuja ambição é ilimitada, como um pecador que atenta contra a humanidade. Não roga praga para que a mulher do chefe da repartição pule cerca com o motorista da família. Ou que a casa do patrão pegue fogo. Nada disso.
Zeca tem certeza de que é uma pessoa de bem e que existem invejas perdoáveis. Em crise existencial, confessa no final do domingo, para o dono do bar onde afoga as dores diárias, o “seu” Ronaldysson, com naturalidade, a inveja de pessoas de nome comum. “No trabalho, os colegas me apelidaram de José Carlos. Mas meu nome é Zeca mesmo. Como era de se esperar todos normalmente imaginam que o nome é apelido”.
Ele conta que sempre que precisa preencher alguma ficha é obrigado a esclarecer que foi vítima da invenção dos pais, criaturas de hábitos fora da caixa. Criativos, deram os nomes de Joca e Quel para os dois irmãos mais velhos. A caçula foi registrada como Rosana. Foi a consquência de um descuido do pai diante do tabelião no cartório de registro civil. O nome da recém nascida, que todos chamam de Nana no final das contas, foi anotado de forma errada.
“Eu gostaria de ser uma pessoa normal. Invejo quem tem uma história marcada por coisas certinhas”, desabafa Zeca, com o pedido da segunda cerveja. Por mais que tente, os problemas de concentração causam prejuízos em todas as atividades dele. Desde cedo, na escola foi aluno entre mediano e fraco, mesmo que inteligente em algumas situações.
Os professores riam da capacidade de distração do menino com qualquer coisa voadora ou rastejadora pelo chão. Com muito custo, conseguiu se formar em jornalismo. Não precisava estudar muito para passar de ano pois as melhores aulas ocorriam no buteco atrás da faculdade. Foi um repórter diferenciado: enquanto os entrevistados falavam, Zeca pensava na morte da bezerra. Seguiu pela vida afora como um desatento. A curiosidade pelos assuntos do mundo era quase a doença.
Só quem reconhece os próprios erros na vida ou faz terapia é capaz de entender o sentimento de Zeca ao invejar as pessoas que, diante de um espelho, nunca refletiram sobre as ações privadas e públicas delas. “Ter convicções e achar que tem sempre razão é uma benção”, fala em voz alta. Agora, mais angustiado, pede uma pinga para acompanhar a cerveja. Um dia, a prima Thaís, conservadora sem pé e sem cabeça, chamou a amiga psicóloga de ignorante: “De psicologia você até pode achar que entende. Mas de política e de economia eu que sei. E domino. Orgulhosa da presunção, Thaís nunca abriu um livro sobre os assuntos, claro. “Aliás, o que ela tem de mais parecido com um livro em casa são as revistas em quadrinhos do Tio Patinhas que herdou do avô”, espetou o Zeca.
“Tem horas que eu queria ser parecido com o meu cunhado, Andrinelson”. Sempre fazendo brincadeiras sem graça, parece se interessar apenas por três assuntos: futebol, cerveja e vídeos pornográficos. É aquele sujeito que aproveita um momento de distração de algum homem em um círculo masculino para sacar e colocar o celular no nariz dele, provocado a ver cenas quase ginecológicas de uma mulher de peitos grandes, coxas grossas e olhar teatralmente safado. “Olha que gostosa. Aposto que você não dá conta de domar uma potranca dessa”, diz ele, com a expressão facial de um maníaco do parque, testando a reação do interlocutor.
Suspeitar da virilidade alheia faz parte do cardápio com o objetivo de firmar a superioridade no reino animal. Mesmo sem ver direito a imagem do celular, o sujeito concorda, soltando uma frase machista, para reforçar a própria masculinidade. Mas pode ser que queira ficar livre daquele babaca, que adora contar piadas idiotas sobre os mesmos preconceitos de sempre.
Ser um estúpido deve ter lá as suas vantagens. Em um encontro de família, um amigo do cunhado entrega uma cerveja sem perguntar se Zeca quer e pergunta sobre o time de futebol que ele torce. Ao recusar a bebida e dizer que não gosta de futebol arranja encrenca.
“Ô Jorge, seu amigo aqui é viado”, grita o sujeito, rindo alto, como se fosse uma piada. No que o cunhado responde, berrando alto: “Ele não é meu amigo.” Os outros amigos também riem. Até mesmo a Alexa da casa.
“Veja se não é para sentir inveja”, retoma Zeca, já com a voz meio embaralhada. “Seu” Ronaldysson entrega a última cerveja, com o aviso de que vai fechar o bar. Sem prestar muita atenção, Zeca conta que se sente excluído do mundo. “Numa dessas reuniões, em um grupo de oito homens, eu era o único que não fequentava puteiro”.
Um deles, o que parecia mais conservador, trajando uma camisa com botões abertos para chamar atenção para a corrente de ouro com um crucifixo, se gabava da viagem recente ao Mato Grosso. “Depois da pescaria fomos à zona. Encontrei uma menina tão gostosa que paguei um mês de hotel aqui na cidade para ela me servir”, relatou, olhando para os lados para ver se o grupo de amigas da esposa estava distante. Exalava orgulho da façanha.
Durante segundos, Zeca deixou o mundo, os olhos vermelhos fixando o nada absoluto. De repente, como um momento de lucidez, Zeca riu com força: “É tudo brincadeira, seu Ronaldysson. Não invejo a babaquice humana. Prefiro continuar não pertencendo aos grupos dos homens normais”, filosofou, como os bêbados solitários fazem.
“E traz a conta que amanhã é segunda-feira.”

