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Tocar o futuro: “eu toco o futuro, eu dou aulas”

É no futuro que a semente que plantamos será colhida. É no futuro que tocamos sem saber

Rafiza Varão


Rafiza Luziani Varão Ribeiro Carvalho é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília. Professora do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UnB.

Em janeiro de 1986, o mundo esperava assistir a um espetáculo aeroespacial com a decolagem da Challenger, em Cabo Canaveral, na Flórida. Era ainda o período da Guerra Fria (1947-1991), e os Estados Unidos continuavam a se esforçar em se apresentar como os vencedores da corrida rumo ao espaço. O que se viu, no entanto, foi uma tragédia, transmitida ao vivo pela televisão. Setenta e três segundos após seu lançamento, a Challenger explodiu em pleno ar, matando seus sete tripulantes. Entre eles, astronautas, um detalhe chamava a atenção da criança de oito anos que eu era: a primeira civil a ocupar lugar numa astronave daquele porte era também uma professora, a norte-americana Christa McAuliffe.

Anos mais tarde, visitando o memorial dedicado à espaçonave, me detive em frente ao quadro com a imagem de McAuliffe. Abaixo da figura de uma mulher sorridente, com o uniforme da Nasa, estava escrito: “eu toco o futuro, eu dou aulas” (I touch the future, I teach, em inglês). Trinta e dois anos me separavam da criança que fui. Em meio a esses trinta e dois anos, me tornei, eu mesma, professora. Hoje, neste dia dos professores, é sobre a mensagem que está contida na frase de McAuliffe que convido, aos quase 3 mil professores da Universidade de Brasília, a refletir. 


Quando entramos em sala de aula na universidade – nos mais diversos formatos que ela possa ter –, ao contrário do que possa parecer, adentramos o início das vidas de nossos estudantes de muitas maneiras, ainda que muitos deles já sejam muito experientes, ainda que alguns estejam em suas segundas graduações, ainda que outros estejam aposentados; ainda que não se trate nem mais do primeiro semestre nem do primeiro dia de aula.

A sala de aula tem uma energia cosmogônica, que cria e recria a si mesma. A sala de aula é o presente (no sentido metafórico e literal), o momento vivido, o instante do contínuo renascer, de professores e estudantes. Nenhum dia é igual ao outro, nenhuma turma jamais idêntica à anterior. Parafraseando Carlos Drummond de Andrade, cada sala de aula é um estranho ímpar. No aqui agora ela se constitui. Mas ela avança. E passa a existir fora de seus próprios limites.  


Ela estende-se em direção ao futuro, o futuro que McAuliffe nos lembra, para o mundo que nossas pequenas ações cotidianas formataram, rumo aos anos vindouros. Conceitos, fórmulas, teorias, cálculos, explicações, grandes perguntas, experimentos. A beleza da ciência e o movimento do conhecimento pulsante em cada fala. Mas também os afetos, bons ou ruins, as risadas, as frustrações, os erros, as alegrias, as descobertas, os cansaços e as desilusões. A beleza da vida sendo apenas o que ela é. 


Cada compasso dado a uma sala de aula por um professor caminha a passos largos ou passos lentos em direção ao que os estudantes do presente se tornarão no futuro, que, sim, chega depressa demais. Nós, professores, sopramos essas embarcações, com maior ou menor força, mas constantemente – ainda que nós mesmos duvidemos de nossa capacidade. 


O medievalista Charles Homer Haskins, em seus estudos sobre as origens das universidades, chegou à conclusão – um tanto laudatória, claro, mas hoje é nosso dia, peço licença – de que “a raiz das universidades sempre foi, ao que tudo indica, um professor. Alguém se destacava no ensino de uma disciplina, e eis que a ele acorriam alunos de toda parte, seja para matar a curiosidade ou para obter desempenho superior em alguma profissão nobre (como advocacia, medicina ou teologia).

De fato, parece ser essa uma lei universal do empreendimento pedagógico: o professor é a pessoa mais importante, aquela que determina o sucesso e o fracasso das escolas e faculdades e, em última instância, do aprimoramento cultural de todo o mundo”.


É no futuro que a semente que plantamos será colhida. É no futuro que tocamos sem saber. McAuliffe, a professora astronauta, sabia disso nos anos 1980 e me abriu os olhos num longínquo 2018. É nesse futuro que tecemos que encontraremos os frutos maduros do nosso trabalho. Por isso, nosso tempo é hoje. Que ele siga sendo de lutas justas. Feliz dia do professor!

ATENÇÃO – O conteúdo dos artigos é de responsabilidade do autor, expressa sua opinião sobre assuntos atuais e não representa a visão da Universidade de Brasília. As informações, as fotos e os textos podem ser usados e reproduzidos, integral ou parcialmente, desde que a fonte seja devidamente citada e que não haja alteração de sentido em seu conteúdo.

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