Rock Content: marketing de conteúdos dá as cartas no futuro do jornalista

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Com o trabalho de freelancers, empresas de marketing de conteúdos se consolidam como principais usuários dos profissionais de comunicação

Photo by Daniel Chekalov on Unsplash

Em abril, a empresa mineira Rock Content ganhou destaque no site da Forbes, uma das principais publicações de negócios e finanças dos Estados Unidos. A especialista em marketing de conteúdos adquiriu a norte-americana WriterAccess, prestadora de serviços de redação. O negócio faz parte de uma estratégia destinada a consolidar a presença da marca brasileira no segmento de marketing de conteúdos e expandir sua oferta para departamentos de marketing nas Américas.

A aquisição marca mais um passo na ampliação da presença da startup no mercado norte-americano, processo que começou com a compra de outra concorrente, a ScribbleLive, em 2019. Fundada em 2010 em Boston, Massachusetts, a WriterAccess desenvolveu um mercado de trabalhadores que fornece serviços de conteúdo para quase 2 mil empresas, incluindo Bank of America, DHL e Pitney Bowes, e tem mais de 500 agências parceiras. A plataforma da empresa usa algoritmos e inteligência artificial para combinar o estilo de escrita demandado pelos clientes para freelancers específicos.

Uber dos conteúdos

Segundo o site da Rock Content, 500 funcionários diretos são responsáveis pelo atendimento a 2 mil clientes. Criada em 2013 inicialmente para oferecer conteúdos para sites e blogs, ela virou uma empresa global, com inclusão de serviços como cursos e planejamento e softwares, além dos produtos tradicionais. “Hoje, somos uma empresa global, líder em marketing de conteúdo, com escritórios em quatro países e seis localidades pelo mundo”, anuncia a página institucional.

Um dado merece atenção especial: a Rock Content é o centro de uma rede de 80 mil trabalhadores, definidos como “especialistas criativos em nossa rede de talentos”. Ou seja, correndo por fora do circuito tradicional do mercado de comunicação e sem se vincular à área, a nova multinacional do marketing de conteúdos é uma das maiores geradoras de trabalho para profissionais de jornalismo, publicidade e marketing. E para outras pessoas, mesmo sem alguma formação especial, que passam por treinamentos e ganham diplomas como produtores de informações.

O modelo das agências de marketing de conteúdos representa a expansão e fortalecimento da tendência de “uberização da produção de conteúdos” como padrão de um mercado construído em torno da informalidade das relações de serviços profissionais. A Rock Content administra uma grande comunidade de trabalhadores.

No cenário de baixa oferta de alternativas e de crise, milhares de pessoas entregam seus tempos e os textos sem vínculos empregatícios — como freelancers, os frilas, em uma linguagem mais amigável. Recebem cerca de R$ 25 por um texto de 500 palavras — aliás, um modo anacrônico de determinação de valores. Um texto de 4 mil palavras pode até gerar um ganho superior a R$ 200. Mas são raros.

Os valores são significativamente inferiores aos propostos para uma lauda pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. A entidade sugere que jornalistas cobrem R$ 310 por cerca de 1.400 caracteres, correspondentes a cerca de 250 palavras. Portanto, caso fosse aplicada a tabela mínima dos profissionais de imprensa um profissional receberia mais de 600 reais pelo trabalho que vale R$ 25 na Rock Content. Vale dizer que valor pago é melhor do que o praticado por outros contratantes. Alguns concorrentes na intermediação entre produtores e empresas oferecem até sete reais pela produção de um texto.


É pior que um ‘Uber do jornalismo'”, diz a jornalista E.O., para quem o sistema de contratação da Rock Content tem um impacto negativo sobre o mercado jornalístico. “

Receber 25 reais por um texto de 500 palavras é uma violência contra tudo que aprendi até aqui, contra todo o conhecimento adquirido. Um desrespeito”, afirma a jornalista. Para ela, quem tem facilidade para copiar e colar, usando a receita de bolo deles, mas dando uma maquiada, tem uma “produção boa” e consegue ser um freela ativo, que sempre recebe tarefas.

Eu cheguei a procurar para aprender técnicas de SEO, pois o mercado pede muito hoje e porque houve um tempo em que eu estava desempregada e não podia escolher. Mas aquilo é tudo, menos jornalismo.


Cenário de expansão

Vale reconhecer que as empresas e especialistas de marketing de conteúdos desempenham atividades totalmente regulares. Elas souberam ocupar um espaço que, nos primórdios da internet, foi desconsiderado por jornalistas, publicitários e assessorias de comunicação e de imprensa. No início do século, com a introdução das novas mídias digitais, era evidente que as empresas investiriam em páginas próprias. Especialistas em negócios com visão de futuro previam que qualquer instituição passaria a adotar o perfil de empresas de comunicação, com a gestão de publicações e interação com seus públicos prioritários.

Os primeiros investidores nas inovações digitais, com formação em tecnologia e design, em especial, foram pioneiros ao embarcar na onda e criar novos modelos de negócios para blogs e outras publicações organizacionais. As agências de marketing de conteúdos são uma derivação do processo, que combina a roupagem de velhos nomes e produtos, como o próprio marketing, e a redefinição de regras sobre o desenvolvimento de métodos de solução de problemas para os compradores de seus serviços.

Assim, hoje há novos paradigmas de produção de textos, por exemplo, em que as regras de SEO, ou otimização de sistemas de busca, na tradução do inglês, dão todas as cartas do que seja um conteúdo de qualidade. Mais exatamente, texto bom é aquele que consegue o primeiro lugar na busca do Google.

Nos próximos anos, as agências de marketing digital tendem a ampliar a presença no mercado e a demanda por mão de obra dos produtores de conteúdos, se beneficiando da informalização das relações trabalhistas. As agências de comunicação e de imprensa tradicionais serão mais impactadas, pois as concorrentes têm maior domínio sobre os modelos de negócios que envolvem tecnologias e inovações estratégicas. Para jornalistas, publicitários e os novos especialistas, há a previsão de aumento da oferta de trabalho. Com relações cada vez mais informais e competição mais acirrada.

Tendências

Consultorias de negócios apostam, hoje, na continuidade do ritmo de crescimento do sistema baseado na informalidade entre agências e produtores. Na verdade, grande parte dos segmentos do setor produtivo tende a ampliar a adoção da demanda pelos autônomos. “Nos Estados Unidos, freelancer está em alta”, garante um estudo da consultoria Upwork. O número de trabalhadores em tempo integral cresceu de 28% em 2019 para 36% em 2020. E embora a pandemia possa ter acelerado as mudanças das formas de contratação, não está mostrando sinais de desaceleração. Os “autônomos” serão metade da força de trabalho total dos EUA até 2027, segundo o estudo.

A onda freelancer conta com o apoio do discurso dominante entre consultores e mídias de negócios. Para os formadores de opinião, as plataformas são o futuro do trabalho, pois atuam como facilitadores rápidos para a geração de empregos, combinando perfeitamente candidatos e provedores de emprego. 

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