No cenário de continuidade de crises, além das econômicas a sanitárias, a mobilização da extrema direita e a polarização tendem a se agravar

Carlos Plácido Teixeira
Jornalista I Radar do Futuro

“Para muitos norte-americanos, as mudanças econômicas das últimas décadas trouxeram diminuição da estabilidade no emprego, aumento das horas de trabalho, menos possibilidades de mobilidade ascendente e, portanto, um crescente ressentimento social. O ressentimento alimenta a polarização.” Extraído do livro “Como as democracias morrem”, o texto inicial deste parágrafo auxilia a compreensão sobre as origens da confusão promovida por seguidores de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, ao invadir o Capitólio, o congresso dos Estados Unidos.

O ódio tende a gerar conflito. E a sociedade precisa entender as origens e impactos da irracionalidade das multidões. O ressentimento é uma das variáveis motivadoras dos que se fantasiaram para pressionar os congressistas contra a transição do governo para os democratas. E é a marca do momento atual e sobre o futuro em variados cenários, incluindo no Brasil, onde políticos agem contra a política. Os sinais são de acirramento dos conflitos sociais nos próximos anos, em que o desempenho fraco da economia da maior economia capitalista do mundo se mistura com os efeitos da pandemia e da queda da qualidade de vida nos ambientes sociais.

Os autores do livro, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, professores da universidade de Harvard e estudiosos importantes da ciência política, argumentam que a falência do modelo de democracia ocidental é evidenciada pela forma como os seus partidos e partidários passaram a lidar com os oponentes. “Os políticos tratam agora os seus rivais como inimigos, intimidam a imprensa livre e ameaçam rejeitar o resultado das eleições”, já antecipavam os autores em 2018. Segundo Steven e Daniel, “eles (os políticos) tentam enfraquecer as salvaguardas institucionais de nossa democracia, incluindo tribunais, serviços de inteligência, escritórios e comissões de ética”. Os governos agem como bombeiros prontos para atiçar o fogo com gasolina.

Na verdade, os apoiadores de Trump, assim como de Bolsonaro, no Brasil, rejeitam a possibilidade de perda de espaço para outros grupos sociais, identificados como os inimigos de suas causas. Não é sem razão o ódio às mulheres, à defesa de políticas de gênero e de raça, ao politicamente correto, aos imigrantes, aos universitários, aos cientistas e às vacinas. E aos chineses, identificados genericamente como comunistas, em uma tentativa de reeditar a guerra fria, que marcou as relações dos Estados Unidos e a União Soviética até os anos 1980.

Masculinistas

Em entrevista para o site da BBC Brasil, a antropóloga brasileira Rosana Pinheiro-Machado, professora da Universidade de Bath, no Reino Unido, identifica no grupo de homens que invadiram o Capitólio fantasiados os representantes do “tribalismo masculino”, ou “masculinismo”. Como a imagem de um homem branco, musculoso e tatuado com o torso nu, a cabeça envolta por chifres e pelos de bisão, o rosto pintado com as cores da bandeira dos EUA e as pernas cobertas por tecido leve e da cor da pele se tornou o ícone da invasão.

Estudiosa do tema, ela diz à BBC que “o princípio dos grupos tribalistas masculinos, ou masculinistas, é primeiro um ódio às mulheres, uma ideia de que as mulheres são objetos para reprodução humana simplesmente. Muitos dos integrantes dos grupos norte-americanos defendem que as mulheres têm que ser caçadas, literalmente, e que nós só servimos para reprodução”, diz.

Para o historiador Yuval Harari, um liberal que se propõe a enxergar o mundo com um viés alargado, a sensação de desorientação e catástrofe iminente é exacerbada pelo ritmo acelerado da disrupção tecnológica. “Políticos e eleitores mal conseguem compreender as novas tecnologias, que dirá regular o seu potencial explosivo”, afirma em seu livro “21 lições para o século 21”. Ao acelerar a adoção das soluções informatizadas, o sistema encontrou seu argumento para ampliar a automação, que vai expandir a substituição dos humanos no mercado de trabalho. E tornar irrelevantes aquelas pessoas que sonham com o trabalho como um caminho para a riqueza, como imaginavam as pessoas que aderiram à campanha de Trump e à sua palavra de ordem, que prometia fazer a “a América grande de novo”.

As pessoas tendem a ser super simplificadores da leitura do mundo. Não somos movidos exatamente pelas reflexões sobre o mundo, mas pelos nossos erros e ilusões de análises. Harari avalia que os humanos pensam em forma de narrativas e não de fatos, números e equações. E quanto mais simples a narrativa, melhor. O problema, agora, é que sem reconhecer exatamente o enredo descortinado pela revolução tecnológica na sociedade e no mercado de trabalho, as pessoas percebem a perda de relevância. E reagem com o pouco arsenal disponível de reflexões, mirando os seus inimigos.

Um exemplo: o ódio compartilhado por bolsonaristas e trumpistas aos chineses. Como se a China fosse responsável por roubar os seus empregos ao atrair as suas indústrias. Sem entender, primeiro, que a decisão da transferência de fábricas para a Ásia foi determinada pelas empresas, interessadas na mão de obra barata como alternativa para baixar os seus custos. E que, posteriormente, com o aumento dos salários chineses, as indústrias retornam às suas origens, ao “Made in USA”, sem gerar a mesma quantidade de empregos.

Tendências

A polarização entre grupos politicos e sociais deve crescer nos próximos meses e, provavelmente, anos. A tensão envolvida na posse de Biden na presidência dos Estados Unidos é reveladora da expectativa da eclosão de atos políticos extremos. A crise decorrente do baixo crescimento econômico global é uma variável a considerar nas expectativas de crescimento dos movimentos de extrema-direita. A crise atual do capitalismo, iniciada em 2008, com a quebra do sistema financeiro, não foi resolvida. Os Estados Unidos não conseguem romper, nas últimas décadas, o paradoxo de ser o país mais rico do mundo e, ao mesmo tempo, contabilizar alguns dos piores índices de pobreza no grupo dos países desenvolvidos.

São 40 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza, cerca de 12% da população. A mudança de governo, com a saída de Trump e a posse de Biden, não altera o quadro, pelo menos a curto prazo. A perspectiva continua sendo de aumento do desemprego e queda da renda. A precarização das relações de trabalho, com cortes de direitos, vai continuar crescendo, enquanto os governos relutam em retomar políticas de desenvolvimento que favoreçam o bem-estar de suas populações.

A continuidade dos efeitos da pandemia, mesmo com a vacinação emergencial, tende a agravar a dificuldade de recuperação de algum mínimo de equilíbrio das relações de força internas e entre os países. Em sentido contrário, há uma forte tendência de aumento das desigualdades, inclusive com maior pobreza e concentração de renda. A descoberta de vacinas e as campanhas de imunização das populações não terão efeito mágico sobre o estado de espírito das populações.

O sentimento de que a vida volta ao normal, seja lá o que for isso, provavelmente não acontecerá antes do final de 2021. A lenta saída do isolamento, com movimentos intermitentes, fortalece a angústia e o ressentimento na sociedade polarizada. Em algum momento, a própria sociedade verá a necessidade de neutralizar ou combater os movimentos radicais. Otimista, no livro “Amanhã vai ser melhor”, a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado avalia que “muita energia está vindo de baixo e vai, aos poucos, impactar os andares de cima.”

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