O papel da mulher na evolução da medicina: contra a lógica do consumo

Paulo Matias Moreira

A saúde como serviço privado deixou de considerar a resolutividade de patologias como principal critério de reconhecimento entre especialistas. A atenção zelosa com o paciente, valorizada desde o século XIX, perdeu seu vigor. Na prática, a medicina brasileira, que convive com a falta de recursos, ainda encontra dificuldades em oferecer um serviço bivalente e sem uma divisão de cargos patriarcal. Ou seja, a medicina segue dominada pela lógica masculina.

Os estereótipos de cuidar e curar, que parecem estar bem associados, tiveram origens e objetivos opostos. Junto às utopias criadas pela modernidade reside a crença de que o progresso científico da medicina seria capaz de oferecer um serviço médico individualizado e calculado quanto às necessidades e fenômenos físicos e emocionais do paciente. Ao se tratar de temas existencialistas basais da filosofia, a angústia sobre a doença e morte, os aparatos tecnológicos que substituem o contato físico com o profissional de saúde passam a ser pouco eficientes em promover esperança e aconchego ao que se encontra na situação de maior vulnerabilidade psicológica.

Duas perspectivas históricas são essenciais para a compreensão da descontinuidade entre o cuidar e o curar e a relação entre profissional e o paciente. A primeira trata do início da dominação da natureza através do conhecimento, que a princípio não seguiu exclusivamente a racionalidade prática denominada por pensadores como Descartes e Bacon. Esta racionalidade também instrumentalizou a ciência, fazendo com que os meios tivessem prioridade sobre os fins.

Desta forma, a mesma racionalidade que tinha, como objetivo, promover o desenvolvimento intelectual e material da humanidade, oferecendo autonomia para chegar à  felicidade, proporcionou o desenvolvimento de técnicas de destruição.

Para este entendimento é preciso cultivar contestações como a de Franklin M. Littell (escritor americano protestante) que discute a crise da credibilidade da academia moderna em seus estudos sobre o Holocausto: ”Em que espécie de escola de medicina se formaram Mengele e colegas? Que departamentos de antropologia prepararam a equipe do ‘Instituto de Hereditariedade Ancestral’ da universidade de Estrasburgo?”

A  ciência que proporcionou bases teóricas para a cura de doenças assume-se como matemática. “Como a matemática só é capaz de lidar com coisas, as pessoas devem então ser coisificadas no ato do conhecimento”, diz Franklin Leopoldo e Silva (doutor e livre-docente, pela Universidade de São Paulo)

A segunda perspectiva histórica necessária para compreender o hiato entre o cuidar e o curar refere-se à origem da hegemonia da influência masculina, algo já abordado por Foucault em textos sobre o século XVII. Ele revela que a medicina não se apoiava em uma estrutura de poder sobre uma coletividade e ainda não era suficientemente organizada pela racionalidade da revolução científica. O assistencialismo, dirigido a classes vulneráveis,  embasava-se na teologia e era exercido por instituições leigas, motivadas pelo proselitismo moral.

O autor conta, em duas de suas obras, que o “hospital era essencialmente uma instituição de assistência aos pobres”. “As repartições hospitalares tinham, nas cidades, jurisdição sobre os vagabundos e o direito de denunciar maus elementos”. A partir do século XVIII a saúde torna-se uma preocupação política e econômica. Assim passa-se a analisar a ociosidade do doente incapacitado de trabalhar e a tentar encontrar formas de tornar as instituições assistencialistas e caridosas como economicamente lucrativas. Essa nova perspectiva de coletividade faz com que o médico (representado pela ideia de curar científico e masculino) tenha responsabilidade na administração política, possibilitando que a saúde seja classificada geográfica, anatômica e monetariamente.

No entanto, a descontinuidade entre cuidar ou curar é componente também da construção do feminino. No processo de construção ideológica, a função da mulher em sociedade foi ditada por suas características biológicas. Assim, dar à luz, amamentar e o ciclo menstrual foram associados ao cuidado zeloso e à dedicação doméstica e a ideia de certo desordenamento da natureza.

Como descrito no livro Microfísica do Poder, também de Foucault,  “isto encarregava as mulheres de promover assistência aos pobres, distribuição de vestuário e distribuição de alimento… eventualmente a vigilância e sanções de elementos instáveis ou perturbadores”.

Destarte, o homem aproveitou de sua ociosidade biológica em relação às atividades domésticas para dominar o ambiente acadêmico, a política e todas as tarefas que necessitavam de maior instrução e conhecimento.

Esta perspectiva sobre o gênero foi utilizada pelo homem para dominar também o mercado de trabalho ao impor à mulher cargos de serventia e até mesmo trabalhos braçais que culturalmente eram destinados aos homens. Em “Feminismo em comum”, a filósofa Marcia Tiburi, avalia que “as mulheres são convencidas, por meio de uma combinação perversa entre violência e sedução, que a família e o amor valem mais do que tudo, quando, na verdade, o amor, a devoção a família, servem para amenizar a escravização, que, desmontada, faria bem a todos, menos a aqueles que realmente preferem uma sociedade injusta, porque se valem covardemente de seus privilégios”

Outro fator que contribui para o estereótipo do papel feminino como a enfermeira subserviente, dominada pelo masculino academicista. É a concepção idealizada de pureza materna, que tem sua origem na oposição à expressão da sexualidade, na medida em que a mulher (não contemporânea) tende a ser mais seletiva quanto à escolha do parceiro pela série de preocupações sobre o desenvolvimento do filho por uma perspectiva Darwinista.

Consequentemente para ela, o sexo era mais uma preocupação do que uma forma de diversão, enquanto que para os homens ser um amante nietzschiano é  uma forma de marketing pessoal. Uma vez “que, para ele, o sexo é mais barato biologicamente por atribuir, à mulher, todas as responsabilidades sobre a prole” segundo o filósofo Luiz Felipe Pondé.

Visto que a expressão da sexualidade pela imagem materna sempre foi repudiada, a introdução de assuntos sobre a intimidade para o filho é considerada um dever do pai. Os métodos contraceptivos apoderam a mulher de sua sexualidade e a composição moderna familiar encarregou às responsabilidades femininas, também, a imagem paterna.

Tais considerações preveem que a tendência seja a agonia dos conservadores sobre a moral e a insegurança da masculinidade que desfruta da dependência feminina para sua realização como ‘macho’, resultando em um “homem fóbico” (termo utilizado para descrever a dificuldade de homens inseguros em encontrar mulheres idealizadas sobre preceitos conservadores). O estereótipo de mulher pura, desprovida de libido que apresenta olhar refinado e tato cuidadoso, será no futuro retratado como uma patologia de repressão social.

Todavia, a dificuldade de esclarecer temas como esses já tratados pelo movimento sufragista e mais tarde pela Simone de Beauvoir com o movimento feminista, é aumentado pelo fato de que nem mesmo a mulher contemporânea reconhece sua formação cultural.

Entretanto a dificuldade da união do científico ao cuidado humanístico está no distanciamento entre o profissional de saúde e o meio acadêmico, a partir da inserção da medicina como serviço em uma economia de mercado.  Assim um tratamento médico que segue fielmente a racionalidade da produção científica pode não ser o mais lucrativo. Talvez apelar para teorias sem estudos confirmados por instituições de ensino e pesquisa, possa ser mais eficiente a fim de encarecer o atendimento e garantir o profissional dentro de um mercado competitivo.

Os serviços de saúde se tornam objetos de consumo promovidos por um marketing que usufrui da ignorância dos consumidores. Então a medicina é instrumentalizada pela crescente demanda pelo investimento na estética, fazendo com que as áreas que manipulem menores riscos ao equilíbrio fisiológico, sejam as mais suscetíveis à utilização deste mecanismo.

Assim, as modalidades de tratamentos alternativos, apesar de evitarem análises teóricas e serem produto da experiência sensível e mística, possuem uma vantagem sobre o ceticismo acadêmico e a metodologia científica, a compreensão da inerência da fé ao humano. Elas apresentam então, uma característica unânime, o otimismo. Já que na maioria das vezes a ciência apresenta diagnósticos sobre patologias que demonstram a fragilidade fisiológica da longevidade e explanações existencialistas,pouco animadoras, que relembrem a insignificância da espécie humana frente à imensidão do tempo e do universo, sendo uma realidade que poucos tem a coragem suficiente de buscar entendê-la.

Paulo Matias Moreira