O novo malandro está no Congresso Nacional, no sistema financeiro, nas grandes empresas de tecnologia e na imprensa. E, claro, nas redes sociais.

CARLOS PLÁCIDO TEIXEIRA
Jornalista, criador e produtor do Radar do Futuro
Distraído como sou, entre divagações intermináveis sobre as próximas safras de surpresas despudoradas destes tempos de dissonância cognitiva, lembrei-me da “Lei de Gerson” ao rolar telas de notícias sobre a prisão da influenciadora Deolane Bezerra em São Paulo. Acusada de prestação de serviços de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital, o PCC, a mulher de 38 anos contabiliza 21,6 milhões de seguidores. No Instagram, homens e mulheres acompanham viagens e demonstrações de riqueza, incluindo uma frota de 17 carros, vários deles de alto luxo e a posse de mansões. Deolane é rainha do espírito dos tempos que cultuam o acúmulo de dinheiro e de poder de famílias de políticos e de empresários.
Para quem não sabe, a tal “Lei de Gerson” define a atitude de quem busca levar vantagem em qualquer situação, ignorando a ética, a moral ou o coletivo. Irmã do “jeitinho brasileiro”, a expressão foi popularizada em 1976 após uma campanha publicitária de cigarro. Em uma época em que atletas fumavam e estudantes e professores universitários trocavam fumaça do tabaco dentro de sala de aula, o ex-jogador de futebol Gérson, apelidado de “Canhotinha de Ouro”, aparecia com um cigarro na mão em um anúncio de televisão em que dizia: “Por que pagar mais se o Vila Rica oferece a mesma qualidade? Eu gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve você também!”
Um dos heróis da vitória do Brasil na Copa do Mundo de 1970, Gerson até se arrependeu da participação na propaganda e de ter seu nome associado à falta de ética acima de tudo. Mas não teve jeito: a expressão pegou. A propaganda ajudou a moldar uma imagem do brasileiro que gosta de passar a perna no outro, levando sempre vantagem em qualquer situação.
Imagino que este seja um marco interessante para entender quem influenciou os influenciadores atuais. E para buscar respostas sobre as origens dos atuais ídolos de brasileiros de todas as idades. Na época da ditadura, o tal “jeitinho brasileiro” estava incorporado como elemento da cultura brasileira. O “malandro carioca” era o personagem astuto que observava tudo ao seu redor e sabia identificar quem é “mané” ou que usava a lábia para se esquivar de encrencas na subida do morro.
Transformado em componente da mitologia brasileira, a malandragem virou personagem de programas de televisão, noticiosos e de entretenimento, patrocinou escolas de samba, assumiu o controle de times de futebol e ganhou espaço na política. Ao invés de combatido, foi enaltecido. Aquele malandro seria um trouxa na atualidade. O novo malandro está no Congresso Nacional, no sistema financeiro, nas grandes empresas de tecnologia e na imprensa. E, claro, nas redes sociais.
Deolane é parte da nova geração da construção do “jeitinho brasileiro”. Poderia ser apenas mais um caso de uma pessoa que conseguiu atingir notoriedade na internet. Advogada criminalista e empresária, ganhou notoriedade nacional em maio de 2021, após a morte de seu então companheiro, o cantor MC Kevin, que caiu da varanda de um hotel no Rio de Janeiro. Foi presa por conta de acusações de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital em operação realizada pela Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo. Nascida em Pernambuco, em 1987, a influenciadora personifica a Lei de Gérson da terceira década do milênio.
Ela tem histórico e número de seguidores semelhantes aos de outros nomes de destaque nas redes sociais. Nos últimos anos, vários deles foram denunciados e alvos de operações policiais, investigados por crimes como lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, jogos ilegais, estelionato e associação a facções criminosas.
Os mega-influenciadores são os herdeiros diretos da televisão e do rádio. Usam as mesmas estratégias ensinadas pelas empresas de comunicação, pela propaganda e pelo marketing: para falar com 50 ou 100 milhões de brasileiros. Eles precisam operar no menor denominador comum da cultura, espelhando os desejos, os preconceitos, o humor e as aspirações de consumo que a sociedade já carrega consigo.
Em comum, são homens e mulheres que exibem grande número de seguidores, procedimentos estéticos, viagens, carros e a construção de casas de luxo. Ostentar é o prazer exibido nas redes sociais. Os influenciadores presos ostentam uma vida de luxo como estratégia para atrair e enganar seguidores. Nas redes sociais, os grupos exibem carros de alto valor, viagens e hospedagens de luxo, compra de imóveis, procedimentos estéticos e supostos ganhos milionários com o “jogo do tigrinho” com a intenção de passar a ideia de enriquecimento fácil.

