Lara Rogedo reconhece que o desafio que move o seu trabalho no dia-a-dia é o desejo de converter um projeto em produto que chega ao mercado de consumo. Foto: Arquivo pessoal/Lara Rogedo
Lara Rogedo reconhece que o desafio que move o seu trabalho no dia-a-dia é o desejo de converter um projeto em produto que chega ao mercado de consumo. Foto: Arquivo pessoal/Lara Rogedo

Carlos Teixeira
Jornalista I Radar do Futuro

Correndo por fora das listas de profissões mais tradicionais e charmosas da indústria da moda, a modelagem de roupas mostra um vigor especial em relação ao futuro. Mesmo o  risco de sobrevivência no futuro parece baixo na comparação com outras funções. Ela resiste aos projetos de robotização e automação da cadeia produtiva do setor. Mesmo com algumas ameaças reais decorrentes da revolução digital.

Para as especialistas Elisa Sayuri e Lara Rogedo, professoras de corte e costura, a profissão de modelagem de vestuário tende a ser mais, e não menos, procurada nos próximos anos. As duas falam com autoridade de profundas conhecedoras da teoria e prática do mercado de produção de roupas. E de quem vive da formação de novos profissionais do corte e da costura em salas de aula de faculdades de moda e de cursos independentes.

Elas reconhecem que robôs e sistemas automatizados podem, de fato, impactar o mercado de trabalho de profissionais que atuam em grandes confecções. Ou mesmo em lojas de moda para consumo de massa. “Mas sempre há a necessidade do olhar capacitado da modelista”, afirma Lara Rogedo. Afinal, nem tudo na produção de moda segue padrões. E há muita ciência exata entre a concepção de uma nova roupa e a entrega na loja. Alguns detalhes requerem competências humanas muito específicas, como a capacidade de identificar e apresentar soluções para pequenos detalhes ou problemas do processo produtivo.

Carência de especialistas

No ambiente da indústria da moda, de uma forma geral, a modelagem representa, por assim dizer, a engenharia, enquanto estilistas podem ser comparados aos arquitetos, envolvidos com formas e cores. O pessoal da criatividade desenvolve suas ideias, enquanto a modelista, como personificação da racionalidade, assume o papel de transformar a criação em um produto físico real. Tal distinção explica o fato de que especialistas de modelagem nem sempre se identificam como profissionais da moda, na concepção mais genérica da expressão.

Influenciadora de sucesso na internet, Lara Rogedo reconhece que o desafio que move o seu trabalho no dia-a-dia é o desejo de converter um projeto em produto que chega ao mercado de consumo. O raciocínio lógico, em síntese. Na prática, pouca gente percebe a importância e o papel desempenhados pelos profissionais de modelagem. Sem o charme de outras funções do mundo da moda, o mercado vive a escassez de oferta de especialistas capacitados.

Elisa: Profissão valorizada. Foto: arquivo pessoal
Elisa: Profissão valorizada. Foto: arquivo pessoal

“A atividade não tem o destaque dos estilistas, mas modelistas chegam a ter salários bem maiores”, assegura Elisa Sayuri. Fato é que a profissão requer conhecimentos que desafiam profissionais a utilizar o raciocínio lógico, enquanto a sociedade percebe a moda como resultado de competências criativas.

Mesmo nas escolas de moda, os alunos não parecem tomar consciência do potencial de crescimento das oportunidades na área de modelagem. Eles acabam sendo seduzidos, na maioria absoluta dos casos, pela área de criação.

Mudanças

A médio prazo, a função de modelagem tende a se manter valorizada dentro das confecções. Entre outras razões, pelo tamanho reduzido da maior parte das empresas que atuam no mercado brasileiro. Elas não têm condições de investir em processos de automação. A utilização de máquinas no trabalho de digitalização nem chega a ser cogitada. E, ao contrário de outros países, o Brasil ainda preserva uma grande produção voltada ao segmento de roupas sob medida para festas e cerimônias, por exemplo, o que reforça a demanda pela mão de obra humana.

A médio ou longo prazos, entretanto, a concorrência com a automação tende a ser crescente para os profissionais de modelagem. A evolução da inteligência artificial nos próximos anos, por exemplo, vai favorecer os sistemas de reconhecimento de imagem, inclusive com o uso de escaneadores de corpo. Associados à impressão 3D, os recursos inovadores possibilitarão a expansão de sistemas completamente automatizados.

Será possível imaginar o dia em que um consumidor compra uma roupa pelo comércio eletrônico e recebe o produto em casa sem que tenha ocorrido intervenção de seres humanos. Da produção de matéria prima à entrega, será a produção “human free”, livre de pessoas, como sonham alguns investidores. Certamente há exageros na previsão, mas não é algo impossível de acontecer.

O processo de uso intensivo de tecnologias pode ser mais lento no Brasil. A continuidade da alta concentração de renda, projetada para o futuro, deve garantir a sobrevivência do mercado de produtos personalizados. Além disso, segundo Lara Rogedo, há um crescente interesse pelo conhecimento sobre modelagem como hobby, inclusive por um segmento da população de baby boomers — pessoas nascidas entre as décadas de 1950 e 1960.

Com vários cursos sobre modelagem e costura e tutoriais no seu canal no YouTube, Rogedo identifica que atualmente metade do seu público da mídia eletrônica é formado por pessoas com mais de 60 anos. Para ela isso demonstra que mais que uma profissão a modelagem representa uma alternativa de busca de conhecimento das gerações que estão se aposentando agora.

 

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