domingo, junho 7, 2026
18.1 C
Belo Horizonte

Inteligência artificial e a polícia do futuro

Novos desafios para a polícia do futuro incluem a transformação digital, que ampliaram significativamente a potencialidade dos delitos

Câmeras de monitoramento de movimento em espaço público. Foto:Unsplash.com
* Marcelo Comité

O velho clichê cinematográfico de investigadores policiais examinando pilhas e mais pilhas de papel ou assistindo exaustivamente um mesmo vídeo não corresponde mais à realidade. Isso porque os crimes ganharam escala com os ataques cibernéticos e com a formação de quadrilhas no ambiente virtual, além das novas configurações da força de trabalho e das cadeias de valor.

E não me refiro somente aos crimes que tradicionalmente sempre foram cometidos com suporte dos meios digitais, como estelionato, mas sim de crimes que têm o histórico de serem praticados com o contato presencial: corrupção, lavagem de dinheiro, extorsão, fraudes e até mesmo crimes ambientais. A transformação digital também funcionou para os criminosos e ampliaram significativamente a potencialidade dos delitos.

Do lado da polícia, a tecnologia também avançou e mudou completamente a forma de monitorar e investigar. A Inteligência Artificial (IA) redefiniu os métodos científicos, assim como o Big Data, o Analytics o Machine Learning. Hoje, as técnicas de IA podem beneficiar investigações e ajudar a combater o crime organizado.

No caso da ciência forense, por exemplo, a velocidade das descobertas pode determinar o bem-estar de uma comunidade, a sustentabilidade de uma organização, a preservação de um ecossistema ou a vida de pessoas – tudo com soluções não invasivas. Isso é possível desde que haja precedentes legais e sinalizações de tendências globais. O próprio Observatório de Política de IA da OCDE reconhece o papel da tecnologia para dar conta de investigações complexas e sensíveis à janela de tempo.

Diversificação

Não é possível se aprofundar em detalhes técnicos, mas é interessante ver como as modalidades de IA se aplicam no combate ao crime e quais os pontos de atenção para autoridades policiais, agências de inteligência ou auditores, tornando as investigações mais abrangentes, corretas e auditáveis. E a tendência é que essas práticas sejam cada vez mais comuns nas células de investigações do mundo todo.

Muito utilizado pelo mercado corporativo, o Big Data é a parte que permite capturar dados de diversas fontes, com correlações e insights. Junto a esse ganho de escala e velocidade, a IA também traz a capacidade de analisar imagens, fazer traduções em tempo real e transformar diversos tipos de conteúdo em informação pertinente. Os aspectos de infraestrutura tecnológica, ferramentas e serviços já estão relativamente maduros; porém, quando falamos em investigações, o maior desafio é por onde começar, com menor risco e maior retorno.

No combate ao crime, além das informações expostas (como sinais exteriores de enriquecimento, por exemplo), é preciso olhar o que foi feito para não ser visto, como células de organizações criminosas na dark web. Certamente há casos em que a autoridade policial ou os gestores de governança precisam de instrumentos investigativos e jurídicos mais pesados. Mas os jornalistas, detetives e outros investigadores experientes obtêm a maior parte de seus resultados com as evidências que “estão disponíveis”, para quem souber achar e entender.

Daí a importância de selecionar da melhor maneira os datasets, definindo o conjunto de fontes de dados e criando os mecanismos de consulta. A tecnologia ajuda a olhar na direção das ameaças e dos indícios que se escondem e se proliferam por si só.

Dados reveladores

Outro ponto interessante sobre a utilização de inovações no combate ao crime diz respeito à transparência e ao accountability da IA (a rastreabilidade dos processos com intervenção de IA é um princípio comum das primeiras iniciativas regulatórias). Por exemplo, a perícia de um acidente com carro autônomo ou uma investigação criminal, por exemplo, têm requisitos muito diferentes de demonstração. O formato de exposição dos processos varia, tanto pela natureza da atividade quanto pela decisão dos fóruns.

Em algumas comunidades de pesquisadores, as descobertas só são reconhecidas com a documentação dos dados, dos algoritmos e do próprio código. Em outros casos, como inteligência de mercado, permite-se o uso de algoritmos proprietários, desde que se respeitem os critérios de tratamento dos dados das legislações de privacidade e proteção a dados pessoais.

É claro que, nessas situações, o sigilo do mecanismo de IA é fundamental. O próprio monitoramento tem que ser conduzido de formadiscreta, para não abortar a investigação. Contudo, ainda que opere com algoritmosproprietários, a capacidade de demonstrar os processos de captura e tratamento dedados é fundamental para a qualidade das evidências e o melhor desfecho.

As modalidades e aplicações de Inteligência Artificial estão em tudo – automação decidades, carros autônomos, interações conversacionais e uma infinidade de casos de uso.Evidentemente, cada uma dessas áreas tem seus objetivos, desafios e incertezas. Nasvertentes de segurança pública, vigilância, governança, prevenção ao crime einvestigação forense, contudo, o trabalho é urgente.

E já há muito o que fazer com astecnologias e referências de melhores práticas globais disponíveis, sem entrar em zonascinzentas dos limites éticos e das regulações que ainda estão por se estabelecer.

É preciso investir. E os resultados certamente são compensadores.


* Marcelo Comité é VP da Voyager Labs para a América Latina e Caribe

Edições anteriores

Futuro da Enfermagem: presente e futuro da profissão

Entre o reconhecimento e a realidade: lutas, avanços e...

Ferramentas de IA aumentam vigilância e tensão no trabalho

"Muitos empregos permanecerão no futuro, mas serão mais pressionados,...

Desinformação sobre PL da Misoginia cresce nas redes, diz estudo

Levantamento identificou mais de 289 mil posts na rede...

O que fazer quando as profissões morrem?

Em reportagem da Rádio UFMG Educativa, especialistas indicam caminhos...

O alerta das montanhas sobre lentidão na resposta às mudanças climáticas

A investigação focou em como o clima e o solo filtram as espécies, definindo a identidade de cada ambiente através das características das folhas. Essas estruturas funcionam como usinas fotovoltaicas vitais para a vida no planeta, mas possuem limitações milenares.