A dependência das tecnologias consolida a tendência do surgimento do humano digital. Foto: Pixabay
A dependência das tecnologias consolida a tendência do surgimento do humano digital. Foto: Pixabay

Carlos Teixeira
Jornalista I Radar do Futuro

Para a economia global, você já pode ser definido por bits e bytes. Humano e digital. Cada vez mais próximo do ciborgue, meio gente, meio máquina. O smartphone é a extensão do seu ser de carne e osso. Parte inseparável do seu corpo. No processo de transformação vivido pela sociedade do século 21, grandes empresas de tecnologia, de finanças e de comércio já o reconhecem como uma criatura formada por dados, por informações intangíveis, que transitam por nuvens.

As corporações sabem mais sobre certos hábitos do que seus familiares. Conhecem, mesmo que digam que não, o que você compra regularmente, quanto gasta em supermercados, a cerveja que bebe e o arroz e feijão de sua preferência. Seus trajetos, inclusive os fora de padrões, e os seus programas de final de semana. Onde e com quem trabalha. Com quem convive. Praticamente tudo sobre você e sobre as pessoas próximas. Quais as suas opções políticas, econômicas e futebolísticas. Isso mesmo, você já é digital e nem imaginava.

Compreenderemos que os smartphones são o cérebro biônico do humano digital. Muitos de nós tínhamos todos os telefones registrados na memória. Agora, mal sabemos o número do celular dos filhos ou dos nossos melhores amigos. E nem lembramos quanto é sete vezes oito. É mais fácil recorrer à Siri, a assistente digital da Apple, ou abrir a calculadora embutida no telefone.  

O humano digital está mais próximo de nós do que se imagina, e deseja. Há quem torça pelo dia em que terá um chip implantado sob a pele do braço ou na cabeça, conectado diretamente com o cérebro. Ou recebendo mensagens diretamente em uma lente nos olhos. Basta um piscar para obter informações sobre um prédio histórico. A digitalização do humano está à frente, na próxima curva, com o salto exponencial das tecnologias, prometido para os anos 2020.

Enquanto você ainda está longe de tomar consciência sobre os impactos da quarta revolução industrial, o debate sobre o “humano digital” tende a crescer. Para uma parte da comunidade de cientistas e futuristas, há, hoje, uma força capaz de gerar pessimismo em relação às transformações sociais, econômicas, ambientais e políticas. Para outro segmento, as tendências sinalizam otimismo. E para mais um segmento dos pensadores do futuro, resta a dúvida sobre o que de fato pode acontecer nos próximos anos.

Otimistas 

Para os otimistas, o  “humano digital” personifica um ser multidisciplinar, capaz de tornar as inovações aliadas às atividades no cotidiano. É o profissional que enxerga um robô ou um sistema de inteligência artificial, como companheiros de trabalho ou de cotidiano. Alguém com capacidade de fazer várias tarefas diferentes, mesclando habilidades sociais e comportamentais, portanto, humanas, com as tecnologias digitais.

O sujeito com existência humana e digital será capaz de empoderar outros humanos a realizar diferentes atividades por conta de uma senso de liderança e poder de realização particular. A humanidade será influenciada pelo desejo de criar novas relações sociais e de trabalho. Afinal, ressaltam os que utilizam as lentes do otimismo, o trabalho rotineiro será eliminado, dando lugar a novas funções “libertadoras do ser humano, que poderá se dedicar a coisas mais nobres”.  

Ray Kurzweill, futurista da Google e da Singularity University, ocupa o posto de guru da singularidade, que será o momento em que a inteligência artificial supera a inteligência humana. Ele quase transborda otimismo em suas palestras, ao falar sobre o poder transformador positivo da tecnologia sobre o mundo. Segundo o futurista, nós estamos no nosso melhor momento da história da sociedade, as notícias sobre o futuro são melhores que antes. E a inteligência artificial está no centro das soluções dos problemas da vividos pela humanidade.

Pessimismo

Ao contrário de Kurzweill e de seus milhares de seguidores, que acompanham os cursos em unidades da Singularity University pelo mundo, há quem veja impactos bastante negativos da emergência do digital sobre o humano. Elon Musk, o bilionário fundador da Tesla e da SpaceX, considera que a inteligência artificial pode ser mais perigosa do que armas nucleares. Para ele, a tecnologia é como cachorrinhos fofos que você acabou de conhecer e que parecem inofensivos, mas que podem te dar uma mordida a qualquer momento. 

Naturalmente, o problema não é exatamente a tecnologia. Mas quem está no comando. Como diz o historiador israelense Yuval Noah Harari no livro “21 lições para o século 21”, “a estupidez humana é uma das forças mais importantes na história, porém com frequência tendemos a desconsiderá-la”. Quantos eventos foram criados por inventores bem intencionados e acabaram sendo utilizados de forma criminosa?

O controle do poder é o que preocupa pensadores como Elon Musk e Harari. Em um lado da fronteira da ética, há um receio de que o humano digital seja excessivamente manipulável pelos que detém acesso aos conhecimentos de inteligência artificial, inteligência de máquina e neurociência. A facilidade de criação das “deep fakes”, recurso emergente capaz de simular um discurso do Trump a favor de jogar bombas no México, por exemplo, tende a ser capaz de formar opiniões de quem é digital e sem senso crítico.   

Harari expressa uma preocupação especial com a mentalidade que impulsiona as inovações dos criadores de novidades propiciadas pela inteligência artificial. Para ele, é necessário defender o lado humano diante dos riscos, inclusive, de tornar irrelevantes uma parte considerável das populações, que não se adaptarão ao processo de digitalização. Eles serão inúteis. Ao mesmo tempo, os desenvolvedores do Vale do Silício, nos Estados Unidos, tenderão a ter diante deles o poder de controle da sociedade, com o acesso às informações de cada cidadão. 

 

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