varejo on line servicos comercio eletronicoPrecisamos ampliar as nossas definições sobre o momento atual

Sergio Viegas *

O uso da expressão “Quarta Revolução Industrial” como definidora do momento atual de transição dos modelos econômicos e sociais revela uma possível distorção sobre o que realmente é o processo de profundas transformações em curso no planeta. Há um erro conceitual, ou ao menos um uso repetitivo do termo “revolução industrial”. O foco não está na indústria. Ao contrário, após dois séculos de protagonismo, ela se torna mais passiva na fase histórica dos tempos de hoje. O setor que está à frente do processo é o de serviços, mais exatamente, serviços digitais. Estamos, portanto, na primeira revolução dos serviços ou primeira revolução digital.

Revolução – Mudanças rápidas e profundas

Revoluções significam mudanças abruptas ou progressivas no poder político e econômico, ou na organização estrutural de uma sociedade em um período relativamente curto de tempo. O termo é igualmente apropriado para descrever mudanças rápidas e profundas nos campos científico-tecnológico, econômico e comportamental humano.

De fato, não parece haver dúvidas sobre a existência, hoje, de uma revolução. Algo semelhante ao que aconteceu no final do século 18, quando a invenção da máquina a vapor possibilitou a criação de indústrias e as mudanças de modelos de produção. Foi em torno das fábricas que as pessoas deixaram as atividades nas propriedades rurais para buscar a sobrevivência. Que os artesãos deixaram de vender os seus produtos para oferecer sua mão de obra aos donos das empresas que surgiam.

No contexto contemporâneo, a grande diferença de hoje reside no fato de que a indústria, que foi o motor da mudança, está deixando de ter o papel de protagonista no processo. Ao contrário, o setor fabril passa a ser coadjuvante no processo comandado pela digitalização. Nos Estados Unidos, a maior potência global, a participação da manufatura na economia passou de 24,3% em 1970 para 12,8% em 2010. Os dados indicam um fenômeno global, que afeta outras economias sólidas, como Alemanha, Japão, Canadá, Reino Unido, Itália, Espanha e Holanda.

Globalmente, a queda da participação no PIB foi de 26,6% em 1970 para 16,2% em 2010. No Brasil, segundo um relatório da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento, Unctad, no começo da década de 1970 a participação das manufaturas na geração de emprego e valor agregado no Brasil correspondia a 27,4%, em valores da época, enquanto que em 2014 essa participação caiu para 10,9%.

A participação decrescente da indústria transformadora na formação do Produto Interno Bruto, não é, portanto, uma questão exclusiva do Brasil ou dos Estados Unidos. A promessa de Donald Trump, presidente norte-americano, de viabilizar a criação de empregos em indústrias certamente não será concretizada. As empresas que retornam para o país têm como prioridade o investimento em robôs. Até mesmo na China, em seu capitalismo de estado, unidades fabris estão trocando trabalhadores por robôs. 

A Economia da Atenção é a realidade atual. Informação já temos em excesso.

Há, sem dúvida, o reflexo de uma tendência global. O mundo transita entre uma economia da “era das máquina” para a “era da informação”, intensiva em serviços. Vivemos a Economia da Informação. Ou, para alguns teóricos, a Economia da Atenção. Ambas relacionadas ao uso de computadores. A expressão Economia da Atenção se refere ao excesso de tecnologias sobrecarregando a capacidade de atenção. O fato é que estão relacionadas à informação, aos dados, ao software. A máquina ou, de outra forma, o hardware, é secundária na nova história.

No final das contas, o ponto a se considerar é que serviços e comércio, englobados no setor terciário, são e serão os principais responsáveis pelo crescimento de empregos nas economias globais. A revolução é sentida nos serviços e nas casas das pessoas e não apenas no uso industrial. O que viabiliza a existência de fábricas inteligentes é a disponibilidade de tecnologias como Realidade virtual, big data, internet das coisas, cloud, robôs, inteligência artificial, impressão 3D, que são, antes de tudo, serviços digitais.

Reforçando, incorporam mais o software do que o hardware. As máquinas digitais se inserem no conceito de tecnologias embarcadas. Os óculos de realidade virtual sem software são absolutamente inúteis. Redes wireless também valem mais pela tecnologia de comunicação do que a placa de hardware em si. O software de rede e não a placa, enfim, seu uso. Não mais a indústria de gravação de CD´s ou DVD´s mas a experiência de ouvir música ou videos pelos Spotify e Youtube a qualquer momento, por exemplo.

A revolução está mais na informação do que no produto físico, mais nos softwares e nas API´s do seu smartphone do que o aparelho em si. O item que mais salta aos olhos nesta nova revolução é a Inteligência Artificial (IA) que chegou a um nível tal que possibilita às máquinas compreenderem a linguagem natural, por exemplo. A computação cognitiva é também um fenômeno muito mais de software do que de hardware.

Novas lógicas de produção

Não é por capricho que se propõe o uso da expressão “revolução de serviços digitais” no lugar de “quarta revolução industrial”. É para acentuar o papel central da digitalização no mundo dos próximos anos. E para levar mais pessoas a discutir as transformações que estão ocorrendo no cenário, enquanto grande parte das pessoas ainda sonha em ter empregos nas indústrias tradicionais, que marcaram as eras anteriores.

A lógica do sistema produtivo está sendo alterada e é essencial a atenção ao fenômeno. Por exemplo, a economia compartilhada, como conceito típico da nova era, migra o poder da “coisa física” para o uso. Não é mais ter um carro caro como sinônimo de status, mas usar um veículo que o leve aonde precisa e pagar pelo seu uso. Novamente é o serviço prestado e a tecnologia para nos ligar ao bem físico, chamando veículos com o Uber ou em breve chamando carros autônomos para nos pegar e levar em determinado ponto. Novamente uma revolução nos serviços muito mais do que na indústria, apesar de passar por ela, logicamente.

A impressão 3D mudará o mundo radicalmente

A impressão 3D é uma tecnologia (Hardware + Software) que muda fortemente a base da “fábrica”, ao eliminar a necessidade de se desenhar e produzir produtos, depois distribuí-los e vendê-los em comércio. O que antes se fazia: Design nos EUA, produção na China, distribuição para o mundo e venda em comércios locais (ou internet), agora pode virar: Design anywhere e produção anywhere, em sua casa (na sua impressora 3D). Eliminam-se aqui, de uma só vez, a indústria, a distribuição e o comércio. 

Não será o fim da indústria, ela sempre existirá. Mas assim como vivemos a redução massiva do setor agropecuário no mundo durante a revolução industrial, a produção em fábricas, como as conhecíamos, também diminuirá.

Neste sentido, é certo defender a tese de que estamos vivendo a nova revolução nos serviços. Poderia ser a primeira revolução dos serviços digitais, mas, como ela abrange a todos os setores, a expressão “Primeira Revolução Digital” também se encaixa bem. Ela é extremamente pervasiva, abrange a quase tudo e a todos, da agricultura, passando pela indústria e chegando aos serviços e mais, à sua casa, à sua vida no dia a dia. 

 

Sérgio Viegas – Bacharel em Ciência da Computação e Mestre em Administração, atuando com soluções de software (IBM Watson e Timecamp).

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