É um mito a ideia de que a automação vai liberar as pessoas para desenvolver trabalhos criativos.
É um mito a ideia de que a automação vai liberar as pessoas para desenvolver trabalhos criativos.

Carlos Teixeira
Jornalista I Futurista

“A automação e a robótica vão liberar as pessoas para realizarem trabalhos mais criativos”. Você já deve ter ouvido essa frase pelo menos uma vez em sua vida recente. Seja de um amigo da área de tecnologia, que acha tudo muito legal, ou de um consultor super gente boa. Aquele sujeito de terno e gravata que, com toda aquela simpatia, foi na empresa onde você trabalha há uns dois anos. Conversou, olhou, anotou e depois sumiu. Uns tempos depois, com toda a mesma simpatia, sugeriu ao patrão vários cortes de empregos.

Você até reparou, enquanto o choro dos despedidos rolava, que nenhum dos seus colegas cortados foi preservado no emprego por que era criativo. Nem mesmo o pessoal de design do departamento de novos produtos. O setor terceirizado, atendendo o conselho do consultor bacana. Agora os criativos são todos chineses e online – como são eficientes esses trabalhadores asiáticos. Uma pena, mas são as coisas da vida.

Então, você pensa, “o importante é que a automação vai liberar pessoas para trabalhos criativos”. E sorri porque você, primeiro, é irônico, segundo, é sádico e, terceiro, é da área de ciências exatas.

Resta saber quando, onde e para quem a criatividade vai sorrir. Eis uma sugestão, que lhe dou de graça: pesquise com os seus amigos criativos e confira se eles realmente estão se sentindo assim, nas nuvens, valorizados como só eles. Enquanto você lembra de alguns deles, seguem algumas reflexões sobre o que anda rolando por aí, pelo mundo afora.

Trabalhos criativos: use a palavra-chave no intertítulo

Caso você leve em conta as histórias de gente que atua em áreas como jornalismo e publicidade, a descoberta é que não, a tecnologia não é nossa amiga como criadora de empregos. A tecnologia é como aquele seu amigo de trabalho, bom companheiro, muito útil no dia a dia. Mas que você não chama para tomar um chopp, mesmo que você ache ele o máximo.

E seja você um “freela”, o tal do libertado para ser criativo, que precisa de dinheiro para, pelo menos, comprar um marmitex na hora do almoço. Um dia, alguém, que se diz seu amigo, oferece um trabalho a 20 reais por uma lauda de texto. Ainda avisa que tem uma fila de interessados, mas você é amigo, né. Por isso, ele lembrou de você e quer te ajudar.

Como precisa mesmo garantir o seu suplemento mínimo de proteínas e carboidratos para se manter pelo menos sentado, você topa. Vinte reais representam o valor de um criativo, certo? Que nada. Mentira. Na verdade, a criatividade é o que menos importa. Isso porque o seu contratante já avisou que a produção de textos deve seguir as regras de Search Engine Optimization (SEO). Traduzindo, otimização para mecanismos de buscas.

Não importa a criatividade

Isso quer dizer que, para ter o seu “trabalho criativo”, você não deve priorizar a criatividade. Preste atenção na palavra não no parágrafo atrás. Não viaje, dirá o seu contratante. É impositivo seguir boas normas para que o Google encontre o seu texto e dê destaque a ele na primeira páginas das buscas.

Aí, entra um detalhe. Quanto mais adequado às regras, maior a chance do seu texto ser identificado. E ser visto. Visto não é igual a ser lido, muito menos compreendido. Entenda bem. Lembra daqueles palavrões que você colocava no meio da redação da dona Adalgisa, a sua professora de português, para testar se ela lia mesmo aquelas seus textos do ginasial — bem antigo isso, né.

É mais ou menos isso. Você pode escrever um texto absolutamente tosco, mas de acordo com as regras de SEO. Você será um bem-aventurado no reino dos SEO’s. Isso porque nem mesmo o cara que contratou o seu amigo vai ler o texto. O importante é que tenha algo lá como “compre agora o seu imóvel dos sonhos”. Lacrou.

Já aquele seu amigo que escreve “textos-cabeça” interessantíssimos e curiosos sobre “a importância da filosofia na construção de uma nova sociedade do século 21”, mas não abre mão do estilo, está fadado a aparecer na centésima vigésima nova página das buscas do Google. Não será o sistema de busca que vai valorizar a criatividade do seu amigo. Ninguém vai valorizar, no final das contas.

Caia na real. Você foi contratado para escrever 300, 600 ou mil palavras. Não um texto bacana sobre “a importância de fazer exercícios para ter uma vida saudável”. Ou sobre “sete estratégias para comprar o imóveis dos seus sonhos”.  Nada disso. Nananina não! Para que estilo ou uma boa metáfora. Troque a palavra saúde pelas palavras qualidade de vida — uma por três, sacou — e senta a lenha. Um título que explore uma palavra-chave, parágrafos curtinhos e intertítulos — não se esqueça de de formatar em h2 (o sistema entende). Pronto, o texto perfeito existe. E “foda-se” a criatividade, em português rústico, mas que dá resultado porque as pessoas gostam de palavrões.

E tem mais

Bom, até que aqui tivemos uma linha de raciocínio. A outra talvez não seja tão óbvia. Em síntese, a tecnologia vai tornar a criatividade humana desnecessária. Por diferentes caminhos, é o que veremos. Primeiro, com sensores por todos os cantos, sistemas de inteligência artificial vão entender demandas das ruas. Mil consumidoras passaram em frente a uma loja e olharam mais para um item do que o outro. Pronto, está identificando um padrão. Acione-se o sistema de produção e a divulgação automática.

Além disso, o criativo da publicidade também estará fadado a ser desnecessário porque vai acabar a lógica da propaganda que dá mil tiros de canhão para alcançar um consumidor. Aqueles anúncios super criativos da televisão ou do rádio, destinado a milhões de patos na linha de tiro, perde o sentido. Com apoio da tal inteligência artificial, é possível dar um único tiro certeiro. E pronto. Dispense-se o criativo.