Homens com mais de 50 anos formam um grupo crescente de pessoas que não trabalham, não procuram empregos e não têm possibilidade de aposentar

Carlos Teixeira
Jornalista I Radar do Futuro

Aos 58 anos, o engenheiro Marcos V., passa os dias dentro de casa. Praticamente não sai, a não ser por absoluta necessidade. Apenas a a televisão e a internet asseguram ligações com o mundo. O isolamento involuntário começou há três anos. Quando perdeu o último emprego em uma construtora, sua vida mudou completamente. Durante um ano procurou recolocação. Tentou alternativas como empreendedor. Até que foi desistindo. E nem percebeu quando perdeu todas as ilusões.

Hoje, Marcos integra o grupo dos nem-nem-nem maduros, homens com mais de 50 anos que não têm trabalho, não procuram mais e nem conseguem antecipar um pedido de aposentadoria. Eles são mais de 1,6 milhão hoje no Brasil. Nos próximos anos, o número de pessoas nas condições do engenheiro tende a crescer com velocidade. Prioridades públicas, comportamento da economia cultura corporativa e avanços tecnológicos são algumas das forças que levarão à expansão do fenômeno de exclusão e de desalento.

Fenômeno social

Originalmente, o termo “nem-nem-nem” é associado aos jovens que não trabalham, não estudam e não procuram emprego. O que os pesquisadores começaram a entender, há alguns anos, é que eles não são os únicos que se encaixam nessa categoria. Mais recentemente, há a outra parcela da população brasileira que também pode ser chamada assim: são os homens na faixa de 50 a 59 anos, classificados no grupo sociais porque não conseguem se reinserir no mercado de trabalho.

O estudo exploratório “Os homens maduros que não trabalham nem são aposentados”, das pesquisadoras Ana Amélia Camarano e Daniele Fernandes, publicado no boletim Mercado de Trabalho do Ipea, confirma o processo. Entre 1993 e 2013, as autoras constataram um crescimento no número de homens entre 50 e 59 anos que se enquadravam na categoria “nem-nem-nem”.

O contingente masculino fora da força de trabalho vem aumentando. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) do IBGE, em 2015, 8,3% dos homens desta faixa etária se encaixavam no perfil do grupo social. Dez anos antes, em 2005, esse porcentual atingia 6,2% e há 20 anos era de 4,1%.

Uma das razões desse aumento pode ser a dificuldade que os mais velhos enfrentam para se inserir no mercado de trabalho. “A mão de obra mais idosa já sofre preconceito há tempos. Em relação ao ‘nem-nem-nem’, que tem majoritariamente um perfil de baixa escolaridade, o preconceito é ainda maior”, afirma Ana Amélia. Nesse contexto, alguns desistem de procurar emprego por acreditar que não conseguiriam ser contratados para uma vaga. São os “desalentados”, que não entram na estatística tradicional de desocupação divulgada pelo IBGE.

Tendências

O número de companheiros de saga de Marco, o engenheiro apresentado no início desta matéria, tende a continuar em expansão nos próximos anos. Mesmo que ocorra alguma forte recuperação da economia, pouco provável num cenário de priorização de cortes de investimentos públicos e ausência de políticas governamentais de investimentos, há o novo padrão do sistema produtivo a levar em conta na construção do cenário do futuro próximo, baseado na quarta revolução industrial.

É necessário olhar além do viés simplificador das análises conjunturais de analistas que enfatizam umas poucas variáveis. O processo é mais complexo. Um dos fatores-chave é o salto evolutivo das tecnologias. Elas estão maduras para o salto exponencial definitivo, que vai eliminar oportunidades sem distinção, inclusive, ou especialmente, para profissionais da velha guarda. 

Alguns exemplos para entender a maturidade tecnológica. Primeiro, pense no poder do seu smartphone, que você certamente tem em mãos, no bolso ou na mochila. Compare com o seu primeiro celular e entenda como lá atrás uma inovação a mais fazia muita diferença. Hoje, nem tanto.

Segundo, saiba que automóveis sem motoristas são imaginados desde a década de 1930. O que os torna viáveis agora? A resposta se resume a disponibilidade tecnológica: há banda larga, capacidade de processamento, poder de armazenamento, informações em big data, inteligência artificial,  aprendizado de máquinas e muito mais. Enfim, tecnologias em condições ideais de integração e de uso.

Impactos e alternativas

Em síntese, a automação industrial, comercial e social vai ser acelerada desde já, com a proximidade do ano 2020, e adiante.  É uma tendência global, não uma questão simplesmente de conjuntura local, brasileira. Segundo um estudo da Universidade de Oxford, divulgado em 2013, 50% dos postos de trabalho podem ser automatizados nos próximos anos.

Uma parte considerável dos homens de mais de 50 anos tenderá a ser impactada pela automação e pela adoção de novas tecnologias no ambiente de trabalho. Entre outras razões, porque são em sua maioria trabalhadores de baixa qualificação, envolvidos com atividades rotineiras e com salários maiores do que os de gerações anteriores. A adoção de tecnologias como a inteligência artificial e sistemas de análise de big data dará contribuições para adesão de trabalhadores qualificados ao grupo.

“Para lidar com as rupturas tecnológicas e econômicas inéditas do século XXI, precisamos desenvolver novos modelos econômicos e sociais o quanto antes”, alerta o historiador Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21”. Uma recomendação genérica, mas que se aplica ao cenário projetado para o futuro dos potenciais integrantes dos “nem-nem-nem”.

Para o autor de best-sellers recentes, caracterizados pela revisão da forma como interpretamos a realidade e entendemos as perspectivas futuras, não podemos esperar que a crise irrompa com toda a força antes de começarmos a buscar respostas. Harari considera que os modelos que precisam ser criados devem ser orientados pelo princípio de que é necessário proteger os humanos e não os empregos. “Não podemos esperar que a crise irrompa com toda a força antes de começarmos a buscar as respostas”, assinala.